Digit Natal J.M.J. 2

O Calendário Litúrgico para o Ano “A” merecerá considerações sobre as motivações do Advento. A pregação de João Batista sobre as opressões políticas, o abandono do povo à sua própria (má) sorte, em suas carências perversas, tendo que ir aos governantes para denunciar a indignação, e anunciar o Deus comprometido com o pobre e o oprimido. Começamos o tempo do Advento, tempo de preparação para as celebrações natalinas do nascimento e manifestação de Jesus Cristo, da encarnação do Logos, a Palavra de Deus (não devemos nos esquecer que o Logos corresponde a “davar”, na Bíblia, assim compreenderemos os sentidos).  [POSTAGENS DO ANO “C” – CALENDÁRIO LITÚRGICO]

A teologia de João reflete o pensamento de um hebreu que pensa na tradição escriturística da Bíblia Hebraica; ali, o logos bíblico dá forma e consistência a todas as coisas, é davar, que significa “promessa”, “esperança”, “ordem”, “mandamento”, “conselho”; e continua: “davar” é a palavra que provoca um acontecimento, um fato, uma ação concreta; davar é também “uma causa”, “um motivo”, e bem poderíamos dizer que davar é a palavra que torna perceptível o Reino da justiça, a causa de Deus. A Palavra se fez carne e morou entre os homens (Evangelho de S.João 1,14). Este é o significado do Advento.

Advento: Tempo litúrgico — observado nas igrejas cristãs do mundo inteiro — que tem início, no primeiro domingo de dezembro, Ano “A”; e no último domingo de novembro nos anos “B” e “C”. A cor litúrgica básica é o roxo, em suas graduações (cor das flores, panos litúrgicos, componentes da vestimenta litúrgica). O Advento abrange os quatro domingos antes da Natalidade do Senhor e da Epifania (que fecham o Ciclo Natalino).

DOMINGO DEPOIS DO NATAL

DECRETO HERODIANO: MORTE À ESPERANÇA

Jesus nasce debaixo de um decreto cuja intenção primeira era a de mobilizar os meios de arrecadação tributária para conhecer os números, identificar os possíveis devedores de impostos, e assim engordar os cofres de um império cruel, desumano, insensível à miséria dos milhões de oprimidos, despoderados, sem-dignidade e cidadania, escravizados aos sistemas econômicos, já apoiados pela religião dominante e pela política de seu país. Cabe-nos observar a “luz” que se derrama sobre os “impérios sagrados” da economia mundial (Mt 2,7).

Augusto era considerado “divino”, um imperador-deus; alguém que quer ter o poder “sagrado”de controlar, submeter, recolher tributos, taxas de rolamento de empréstimos, de todos os habitantes da terra (oikumene); alguém que, no entender de um governante mundial, lhe deve e tem que pagar, irrevogavelmente.

O império já ensinava as lições que se repetiriam ad-infinitum no século vinte, como Obama na vigília e espionagem no espaço virtual mundial: “Para entendermos o que está acontecendo, é preciso tomar ao pé da letra a ideia de Walter Benjamin, segundo o qual o capitalismo é, realmente, uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro.  Isso mesmo, “salvar” é um termo religioso, mas o que significa “a qualquer preço? Até ao preço de ‘sacrificar’ vidas humanas? Só numa perspectiva religiosa (ou melhor, pseudo-religiosa) podem ser feitas afirmações tão evidentemente absurdas e desumanas” (Giorgio Agamben).

Jesus nasceu. A fome e a miséria eram o cenário onde nasciam os menininhos pobres e carentes como ele, sem nenhum perigo para a sociedade que os excluía imediatamente. Logo depois, para eliminá-lo, essa mesma sociedade promovia ou apoiava um genocídio, o mais clamoroso das histórias do Evangelho. Os meninos do tempo de Jesus nasceram condenados à morte desde o nascimento. Hoje, conhecemos seus irmãozinhos, em todo o mundo, que nascem também com essa condenação, juntamente como o menino nascido na estrebaria e num berço improvisado num cocho.

O povo se sente desprotegido e desfigurado pela dor. Tentando ver um pouco além do quadro idílico da casa (família) de Nazaré, podemos fazer esta reflexão: a família não foi para Jesus um obstáculo na hora de empreender a tarefa salvadora. Nessa realidade, a partir da convivência fraterna, desponta o rosto de Deus como oleiro. O oleiro modela a cerâmica com imenso carinho e ternura. Da mesma forma, Deus modela o seu povo e lhe infunde a vida. Ele é como o pai que gera um novo ser.

O pai protege, acompanha, acaricia e ensina. Não pode ficar insensível ao fruto de suas entranhas. Por isso, a comunidade do Terceiro Isaías, de maneira forte e comovente, apela para seu pai: Reacende-se a esperança no energia e na compaixão de Deus, pois ele é o pai que sempre está ao lado de suas filhas e de seus filhos. A situação de desamparo também faz o povo ver em Yahweh o seu redentor.

No evangelho de Mateus se nos apresenta um momento concreto da vida de uma família: o de sua fuga ao Egito para evitar a perseguição desatada por Herodes. Acaso não devemos admirar a valentia, a solicitude e a prudência com que José cumpre as instruções do anjo, e a docilidade de Maria? Acaso esta passagem não é um exemplo da providência paternal de Deus sobre estes humildes esposos, aos quais confiou os primeiros passos de seu enviado? José buscou para os seus, seguindo as inspirações divinas, um lugar tranquilo e seguro, onde pudessem viver honestamente, dedicados a seus humildes ofícios, na paz doméstica. Por tudo isto o Evangelho propõe às famílias cristãs este exemplo: o da família de Nazaré, na qual seguramente se encontravam as virtudes mencionadas nesta Natalidade.

A Natalidade do Senhor, é tempo de esperança porque Deus resgata o povo pobre e sem valor, que gera crianças, às quais nunca deveriam ser associadas à pobreza e ao crime; ao número escandaloso de pobres no mundo. Na Idade Média, mil anos depois de nascida a criança de Deus, cristãos diziam que a miséria, o pão escasso, casebres sem conforto algum, doenças e feridas, aleijumes, deficiências físicas, eram degraus do paraíso. Era prova de que Deus fizera os pobres portadores dos troféus e das misericórdias divinas. No céu… Claro.

Porque aqui deviam ser observados como modelos para os ricos, sovinas, pois a salvação estava na pobreza, no desconforto, na falta de assistência à saúde. Se a condição de pobreza era a condição dos santos, ao mesmo tempo apresentava a polaridade perversa, da qual ricos piedosos estão livres: “no seio da pobreza estava a capacidade para qualquer crime. Vagabundos, heréticos, blasfemos, estelionatários, perturbados mentalmente, ladrões, assassinos pagos, prostitutas, matadores de estrada, são produto da pobreza. Mendigos eram temidos e caçados nas praças e nas ruas. E com eles suas crianças” (Alberto Manguel).

Mas é também por esse poder que a família do menino nascido de mulher sobreviverá aos poderes políticos, segundo o Evangelho. Forças econômicas e religiosas atreladas para o extermínio da esperança. O genocídio herodiano, que parece não cessar nunca.  Doces, frutas, pães especiais, rabanadas, castanhas cozidas, nozes nas mesas fartas, e nem sabíamos que o Evangelho falava da fome e da miséria, cenário onde nascia o menininho pobre e carente, sem nenhum perigo aparente para a sociedade que o excluía imediatamente, com sua família, e logo depois, para eliminá-lo, promovia ou apoiava o genocídio herodiano, o mais clamoroso das histórias dos Evangelhos. O Salvador, também chamado “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, nascia para morrer por uma causa que ninguém quer assumir. O Filho de Deus, desde o nascimento, era procurado vivo ou morto. A sociedade ameaçada não brinca em serviço, logo denuncia: “morte à esperança”!

Isaías 63,7-9 – Meus filhos que não enganam os outros com meu nome.
Salmo 148 – Louvai-o, ele é o esplendor da criação.
Hebreus 2,10-18 – Solidariedade familiar… solidariedade social.
Mateus 2,13-15.19-23. Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge para o Egito.

Primeiro Domingo do Advento – Ano “A”

cropped-eu-derval2.jpgComo ficam as previsões sobre o futuro, quando a realidade imediata apresenta-nos a destruição da vida no planeta Terra em tempo real bem menor, se permanece o ritmo atual de destruição ambiental, do aumento da pobreza, das desigualdades, da fome em toda parte? Carl Sagan via no intento humano de demandar à Lua e enviar naves espaciais no mundo sideral uma manifestação do inconsciente coletivo que pressente o risco da extinção próxima. Como necessidade de sobreviver, cogitamos formas de viver para além da Terra. Para chegar a outros sistemas planetários, no entanto, teríamos que percorrer bilhões e bilhões de quilômetros no espaço sideral, necessitando pelo menos de um século de tempo para tanto. Qualquer astronauta adulto teria que viver pelo menos 130 anos, para deixar algum sinal de sua presença em qualquer dos lugares escolhidos na distância espacial.

Ocorre que somos prisioneiros da luz, cuja velocidade é de trezentos mil quilômetros por segundo, até hoje insuperável. Isso é esperança ou algo que conhecemos de sobra, desde os tempos imemoriais, enquanto examinamos a história humana sobre a face da Terra? O astrofísico Stephen Hawking fala da possível colonização extrasolar com naves, impulsionadas por raios laser que lhes confeririam uma velocidade de 30 mil quilômetros por segundo. Mesmo assim só para chegar à estrela mais próxima – a Alfa do Centauro – precisaríamos de quarenta e três anos, sem ainda saber como frear essa nave a esta altíssima velocidade quando ela chegar ao seu destino.

As advertências de Jesus põem uma nota de gravidade no tempo do Advento que hoje começamos a celebrar: não se trata somente dos enfeites natalinos dos quais já estão cheios os supermercados, as lojas, a mídia de marketing. Não se trata de uma falsa alegria, induzida artificialmente por musiquinhas gospel meladas, nem da falsa aparência de bem-estar ao se esbanjar dinheiro em compras desnecessárias e injustificáveis.                                                        

Que sinais de esperança e de desesperança a sociedade atual “realista”, “pragmática”, sem utopias, desencantada, desesperançada, anestesiada pela proclamação do “final da história”, apresenta sobre o sinal do final desses tempos? Que papel os cristãos teriam nesta hora de endurecimento da esperança? Somos testemunhas da esperança ou do desespero, ou da fatalidade ou acomodação (Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos porque amanhã morreremos: 1Cor 15,32)?

Que podem significar os sinais apocalípticos que o evangelho sobre a “vinda do Senhor” aponta? Não são sinais de resistência ao tempo presente que nos apresenta um “futuro sem futuro”? Advento quer dizer “vinda”, “chegada”, e isso é o que nós preparamos para celebrar: a primeira vinda do Logos, a Palavra de Deus, revestida da carne dos homens e das mulheres deste mundo. Sua primeira vinda em humildade, também elegendo os humildes, os pobres, os sem-poder, sem-teto, sem-cidadania e sem-direitos, nos impressiona?

Leituras:
Isaías 2,1-5 – O Senhor reúne todas as nações para a paz do Reino.
Salmo 122 – Que alegria: “Vamos à casa do Senhor!”
Romanos 13,11-14 – A salvação está mais perto do que imaginamos
Mateus 24,37-44 – Fiquem atentos, preparem-se…

NOTA: O POBRE NA BÍBLIA

Precursor da temática desenvolvida pela Teologia da Libertação, eis o que diz KarL Barth (Poverty, against the stream, New York Philosophical Library, 1954): “Não há nenhuma passagem na Bíblia que sejam proclamados, louvados, exaltados, tributados, os direitos dos ricos; pelo contrário, os pobres é que são enaltecidos, chamados de bem-aventurados, designados como eleitos de Deus; (…) o evangelho foi proclamado aos pobres, enquanto que os ricos são mostrados em proximidade suspeita com os poderosos e malfeitores, que, por suas inclinações, orgulho, falsa segurança, identificam a queda da humanidade”. E prossegue: “Os ricos, por serem ricos, de maneira nenhuma entrarão no reino dos céus (como sabemos, tão dificilmente quanto um camelo passa pelo fundo de uma agulha – passagem de alfândega destinada a pessoas – os ricos entrarão no reino dos céus…), a não ser que tornem seus bens disponíveis e transformem-se em pessoas pobres, despojadas, vendendo, desprezando suas seguranças alicerçadas em bens. (…) Portanto, a Bíblia está do lado dos pobres, dos despojados, dos destituídos (grande maioria no mundo). Aquele a quem a Bíblia chama de Deus toma partido em favor dos pobres…”

Derval Dasilio          

Atualizando a parábola do rico e do pobre, ou o confronto de João Batista com Herodes, banquetes, ceias, e comemorações de fim de ano, uma festa para a massificação do consumo e desperdício está em andamento, e ao mesmo tempo se exibe uma falsa privacidade. Ninguém pode mais concordar com Hegel, filósofo muito interessante. É uma pena! Dizia que “a privacidade nos ajuda a viver num mundo sem compaixão”. Hoje, esse conceito não funciona mais. Para muitos não há mais um mundo privado para reflexão, agimos “como um cão que volta ao seu vômito” (Lc 16,19-31). De que vale a privacidade num mundo assim? A cultura utilitarista predomina, como objetos comprados, descartáveis, “use e jogue fora”, os valores de uma ética de partilha e solidariedade são atirados no lixo sem o menor pudor.

O Advento e a Natalidade do Senhor nada significam, hoje. O problema, no entanto, são os valores veiculados em substituição aos tradicionais sobre amor, solidariedade, compaixão e cuidado com o outro. Ideias voyeuristas expõem o ser humano como mercadoria barata, afirmando isoladamente a falta de importância das mesmas. Vive-se uma cultura sitiada pelo dinheiro (Jurandyr Freire), nas festas de fim de ano. Uma geração inteira encontra-se dopada, quando se encarrega de adotar e veicular os “novos valores” sem nenhum controle. A compulsão do evangelical business não deve ser desprezada. A juventude evangélica, “diante do trono” gospel, sabe muito bem que estamos falando da cultura do dinheiro. Aderimos ao tema mundial “muito dinheiro no bolso, o resto que se dane”. Fim de papo.

Consumo rápido, fast-food: molho de tomate, hamburguer, são alimento e sangue dessa nova cultura. Jovens evangélicos abraçam o gospel como religião emocional salvadora. São inaugurados bares e boates gospel, para o compartilhamento cultural do novo jeito de ser “crente moderno”. Jovens de outras tendências, possivelmente não-religiosos, extasiados, adeptos confessos da cultura rock, marcam os costumes das novas gerações com piercings, tatuagens, uso “quase livre” de drogas estimulantes, para vários fins, como os comprimidos de ecstasy e viagra para a inapetência geral. Vale tudo, enquanto são convidados a esquecer a História, as lutas pelas liberdades civis e direitos fundamentais do homem e da mulher. O passado não interessa, o presente justifica tudo. Comamos e bebamos, aproveitemos, porque amanhã… não interessa…

Poucas décadas atrás, o anseio de liberdade devido às ditaduras e a sustentação de totalitarismos em todos os quadrantes, a precarização do ensino, o desemprego, a ausência de liberdades civis, cidadania, direitos humanos, levava os jovens às ruas. Quem imagina jovens apaixonados por festivais gospel, e encontros carismáticos, “marchas-com-jesus”, frequentadores de shoppings, nas ruas reivindicando direitos fundamentais para a sociedade toda? A obsessão consigo mesmos se manifesta menos no ardor do gozo da juventude que no medo da velhice, da doença, na panacéia oferecida como remédio para aproveitar bem o tempo em atividades que dão prazer ao corpo, a qualquer custo, menos que os prazeres da alma e do espírito (Gilles Lipovetsky).

Há inquietações, no entanto. Tudo deveria inquietar e desas-sossegar. O terrorismo e seus estragos na paz mundial que nunca chega, a fome global, a poluição urbana, a ausência da socialização das riquezas monetárias (nunca tantas pessoas tiveram tanto dinheiro, bens, posses, possibilidades que envolvem o direito à propriedade ilimitada), a violência nas periferias das metrópoles, a fragilidade do corpo diante de enfermidades antigas e recentes (o drogadismo farmacológico, entre outras). A compulsão consumista equivale às demais compulsões pelo álcool, pelas drogas leves ou pesadas, pelo sexo, pelo jogo, pelo trabalho sem repouso.

Entre os etariamente maduros, também, todos ficam felizes. No Natal, nas comemorações com parentes e amigos, falaremos de moral, ciência, religião, política partidária, esportes, amor, filhos, saúde, alimentação saudável, esteira rolante, eletrocardiograma, mamografia, ultrasom, próstata, colonoscopia, medicina de ponta, e mesmo assim chega o dia inevitável em que se vai para o caixão. “E virá a próxima geração de idiotas, que também falará sobre a vida e o que é apropriado para se viver bem. Meu pai se matou, os jornais o deixavam deprimido. E você pode culpá-lo com o horror, a corrupção, a ignorância, a pobreza, o genocídio, o aquecimento global, o terrorismo, os valores morais imbecis e os imbecis armados até os dentes”? (Woody Allen). Levar gol contra acaba cansando…

Contudo, os temas do Advento não devem ser esquecidos. Somos testemunhas da esperança ou do desespero, ou da fatalidade ou acomodação (Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos porque amanhã morreremos: 1Cor 15,32)? O ADVENTO está às portas, é tempo para refletir sobre nossas escolhas: “O mandamento que hoje te dou não está acima de tuas forças, nem fora de teu alcance” (Dt 30,11). “Diante de ti coloco às disposição dois caminhos…” “… ponho diante de ti a vida com o bem, e a morte com o mal (Dt 30,15); “Sejam fortes e corajosos. Não tenham medo nem fiquem apavorados por causa delas, pois o Senhor, o seu Deus, vai com vocês; nunca os deixará, nunca os abandonará” (Dt 31,6).

Segundo Domingo do Advento – Ano “A”

ADVENTO: FUTURO PARA OS HUMILHADOS

adviento: m.c.barredo.Por que, hoje, com a predominância da tecnosociedade, então, o medo e a sensação de insegurança, quando um número considerável dos privilegiados se abrigam por trás de portas blindadas, fechaduras eletrônicas; câmeras de vigilância; muros altos com serpentinas, cursos de defesa pessoal? Por que GPS no carro, na casa ou na rua? Por que o espetáculo da violência hiper-realista, em Hi-Fi, ou Full-HD: cenas insuportáveis de violência e atrocidades, ossos quebrados, jatos de sangue, decapitações, amputações, emasculação, agradam a tantos, vistas de dentro de um apartamento ultraconfortável numa tela led?

“A ciência não pode impedir a trajetória da imaginação”, dizia Gaston Bachelard. Poderia ter dito: “a tecnologia não impede o crescimento das misérias humanas”.  No início do séc. 20 celebrava-se com agressividade o avanço da tecnologia moderna, apontada como uma “linha de força” veloz que caracterizaria a sociedade e a vida urbana dali por diante. Enquanto isso, aumentava o desdém para com as tradições e valores sobre a gratuidade, o cuidado com o outro; acentuava-se o desprezo à pobreza sem saúde, sem escola, sem dignidade laboral… Os que não podem acompanhar a velocidade do “futuro”, os marginalizados à beira da estrada, no mundo moderno, não contam, no futuro tecnológico do mundo.

As recentes sociedades democráticas, nesse momento, parecem ansiar pelo autoritarismo dos reis e imperadores, enquanto absorvem o totalitarismo. Há uma saudade latente do feudalismo e da aristocracia imperialista. Um mundo que Franz Kafka, no momento, também definia como de “escuridão”, desconforto e depressão; um universo de enigmas e mistérios, obscuridades e ambiguidades. Um mundo sem misericórdia.

Ernest Bloch ainda é atual, como pensador utópico e propagador da esperança, especialmente quando a sociedade global trocou tudo pela permissividade e consumismo irresponsável, neste milênio. Privilegiados e bem-postos de todos os tempos aplaudem. Outras paisagens a serem corrigidas são vislumbradas pelo advento “utópico”: a semi-escravidão do trabalho, jornadas imensas e sem descanso adequado; a fome não saciada, doenças endêmicas em toda parte, sem controle, sem médicos e sem hospitais.

A utopia alcança a paz mundial: bem-estar político, nações cooperativas entre si, a socialização do atendimento das necessidades humanas, desde a habitação, o trabalho humanizado, o acesso à saúde e ao lazer, igualdade e em todos os níveis. O filósofo Bloch era, sobretudo, um homem com grande capacidade de perscrutar a história, tanto no seu passado como no presente, e com perspectiva de intuir o futuro. Propunha utopias sobre a natureza não humanizada; utopias sociais, utopias da técnica; enfim, dos sonhos dos homens para ganhar a felicidade, plenitude e bem-aventuranças compartilhadas.

No evangelho de Mateus (3,1-12) João Batista anuncia a iminente chegada do Messias (Χριστός | Christós); por isso evocamos sua figura e sua pregação neste tempo do Advento. Humildemente ele se inclina diante daquele que tem o batismo perfeito, “no Espírito Santo e no fogo”, sabendo que o seu batismo é só de água, de preparação e penitência. Valentemente, o profeta anuncia o juízo trazido pelo Messias: “como se recolhe uma colheita ao celeiro, queimando o que sobra numa fogueira inextinguível, chega a condenação da sociedade corrompida”.

“Geração de víboras, quem vos ensinou a fugir da ira que está por vir?” A esperança do advento é uma aliada da Graça, então dissociada de dogmas, doutrinas; desprezando-se ensinamentos sobre a “reta doutrina” e estruturações alienantes. Então, a voz no deserto clama pela revisão da realidade opressora. É preciso construir pontes sobre as divisões econômicas, sociais; divisão de classes, etnias e religiões. As tecnologias para a saúde, alimentação, habitação e saneamento urbano; para a instrução escolar e desenvolvimento, são reclamadas por milhões de marginalizados no mundo inteiro.

O profeta Isaías gosta de sonhar com o Advento, utopias maravilhosas são o seu forte; voltar ao Paraíso inicial, como nos primeiros capítulos do Gênesis, também, onde Deus governa e o homem administra o universo. Esperamos com impaciência o nascimento do Messias de Deus, que trará justiça, exercerá os direitos reclamados para os despojados, humildes e humilhados, à margem da história: “A vil miséria insulta os céus” (João Dias de Araújo).

NOTA – Esta “voz no deserto” convida o povo ao batismo (baptizo) da conversão, uma mudança que comporta arrependimento: “mudem de vida porque o Reino de Deus já chegou” [ebaptizonton = foram batizados enquanto confessavam seus pecados; exomologoumenoi = botar pra fora palavras da verdade íntima, como o preconceito, ou a exclusão]. Um mundo novo é possível. A conversão comporta também a confissão pública dos próprios pecados (negação da solidariedade; ausência de compaixão; omissão da misericórdia). Finalmente, a conversão exige os frutos e ações transformadoras como prova de emenda: “mostrem os frutos de uma sincera conversão”.

Leituras:

Isaías 11, 1-10 – Os humildes serão julgados, receberão a justiça
Salmo 72,1-7 e 18-19 –  Como a terra irrigada, florescerá a justiça
Romanos 15,4-13 – Cristo salva e liberta toda a humanidade
Mateus 3,1-12 – Convertei-vos, o reinado dos céus está próximo

Derval Dasilio
Último livro publicado: PEDAGOGIA DA GANÂNCIA (Metanoia)

Terceiro Domingo do Advento  – Ano “A”

ADVENTO: ARROGÂNCIA, GANÂNCIA E VIOLÊNCIA

melhor im. joão batista“A mais alta tecnologia, a mais extraordinária riqueza, o maior e mais complexo sistema de informação, não conduzem à redução da criminalidade, à eliminação das injustiças ou a uma compreensão aberta sobre o mundo”, considera Roberto DaMatta. Vivemos mais um tempo de ilusões quanto ao progresso da humanidade. Pouco diferente da propaganda stalinista, antes da II Guerra Mundial, representada por homens armados marchando ao lado da máquina, quando o trem do futuro, como uma flecha, no destino do socialismo mundial. E todos sabemos onde foi dar esse “futuro”. Gulag e Treblinka comparecem, como lugares de confinamento e holocausto do ser humano.

Manipulação do genoma tem contato com o racismo – como receita para se fabricar um ser humano em laboratório? Inaugurou-se  a  era do Frankstein (Eduardo Galeano). James Watson, prêmio Nobel pela descoberta do DNA, afirma o direito despótico da ciência sobre a vida. Não aceita limites para a manipulação das células humanas, inclusive. Para “fazer seres humanos melhores, o cientista deve se manter à margem das normas e das leis”, disse, discorrendo sobre a pretensão da investigação ilimitada, e o  patenteamento de seres vivos. Sociedade burocrática, nihilismo; hiper-nacionalismo fascista ou nazista, fazem parte do aperfeiçoamento ou do retrocesso na humanização do planeta? A violência acompanha a história do mundo. O “homo demens” continua reclamando seu lugar nessa história, como diria Edgar Morin.

Nem mesmo as brutais contradições, a lutas pelo poder, ou hegemonia nacional sobre o mundo; a I e II Guerra Mundial; a corrida armamentista; a ameaça de um holocausto nuclear; a intrincada política para garantir as jazidas petrolíferas no Oriente Médio e Ásia Menor; a ameaça terrorista tendo como base estratégica o mundo árabe, desde o Oriente Distante, fazem desacreditar o crescimento do progresso tecnológico, e a consequente felicidade que a tecnologia deve trazer.

A bem da verdade, o mundo transpira violência por todos os poros (Eduardo Galeano). Estatísticas significam alguma coisa? Há diferença entre um assassinato na Dinamarca, um garoto atirando com armas da família nos próprios pais, e em seguida ir às aulas, até ser preso? Estão certas as organizações de Justiça que atribuem à injustiça, e as respostas violentas das sociedades, às profundas desigualdades? Nesse caso, o Brasil entra nas estatísticas assumindo um lugar de destaque entre os países mais violentos do mundo. Metade dos jovens da periferia, neste país, são candidatos à morte violenta antes de completar 25 anos de vida. Alagoas e Espírito Santo disputam, todos os anos, o primeiro lugar entre os estados mais violentos.

No século 15, navegadores e viajantes de todas as épocas vieram em busca do Eldorado, das ilhas encantadas, maravilhosas, e dos “continentes e cidades desaparecidas” no meio dos misteriosos oceanos. Chegaram à América, o Novo Mundo. Em seguida, impuseram os grandes genocídios dos astecas, incas, maias. Problemas incríveis, graves questões de identidade para os grupos nativos, com o acréscimo da presença africana. Uma dificuldade cultural gigantesca, que passa ao largo quanto ao interesse dos dominadores. Estes trazem a escravidão e o extermínio de povos inteiros. Formou-se o povo créole do Caribe. O novo mundo tornou-se uma “zona creolizada”, misturada de elementos nativos, africanos e europeus, franceses, ingleses, espanhóis, porém marcada por presenças ancestrais entre o Pacífico e o Atlântico (Leslie R. James).  

Há, contudo, um sonho ainda maior, cheio de poesia: a reconciliação de todos os homens e mulheres, e poderes e sistemas devolvidos a Deus, que os criou. Plenamente, como nos símbolos dos animais selvagens, ferozes, que convivem, comem, pastam, com os animais domésticos e mansos. Não há lugar para a violência e a guerra, nem para as lágrimas e a dor. É tanta paz que um menino pequeno será capaz de pastorear até os animais da selva. Um sinal reunirá todos os povos e raças da terra, reconciliados entre si. Sobre o monte de Deus, onde está Jerusalém, a Sião dos profetas, desce a paz. Ali será o centro da Paz. Neste tempo de Advento, essa tarefa é entregue ao povo de Deus, mais como uma oferta do que uma exigência.

O profeta Isaías gosta de sonhar com o Advento, utopias maravilhosas são o seu forte; voltar ao Paraíso inicial, como nos primeiros capítulos do Gênesis, também, onde Deus governa e o homem administra o universo. Esperamos com impaciência o nascimento do Messias de Deus, que trará justiça, exercerá os direitos reclamados para os despojados, humildes e humilhados, à margem da história: “Digam aos desanimados de coração:   – Sejam fortes, não temam! Seu Deus virá, virá com vingança; com divina retribuição virá para salvá-los. Então os olhos dos cegos se abrirão e os ouvidos dos surdos se destaparão. Então os coxos saltarão como o cervo, e a língua do mudo cantará de alegria. Águas irromperão no ermo e riachos no deserto” (Is 35, 4-6). “A vil miséria insulta os céus” (João Dias de Araújo).

3o.DOMINGO DO ADVENTO – ANO A
Isaías 35,1-10 – Alegrem-se o deserto e a terra seca, Ele vem…
Salmo 146, 5-10 – Deus faz justiça aos oprimidos
Tiago 5, 7-10 – Fortalecei o coração, o Senhor está próximo
Mateus 11, 2-11 – És tu ou devemos esperar um outro?

Quarto Domingo do Advento  – Ano “A”

HERODES CELEBRA O NATAL

Facebook – 16 de dezembro de 2013 às 20:11

Gravura de M. Cerezo Barredo (possivelmente).O Natal representa o clímax de uma felicidade materialista que se busca com todas as energias. Religiosos só o comemoram com culto se a data cair no domingo, no mais das vezes. Porque o Natal, de fato e de direito, é meramente um feriado. Ou melhor, é o primeiro feriado depois de inaugurada a estação das compras de fim de ano, que vai culminar no reveillon, ou passagem de ano. Compras são realizadas compulsoriamente, presentes, roupas e eletrodomésticos novos são comprados.
[Gravura de M. Cerezo Barredo (possivelmente)]

Uma geração inteira de consumidores encontra-se dopada, quando se encarrega de adotar e veicular os“novos valores” das festas pseudo religiosas na recente sociedade tecnocrática, consumista irres-ponsavelmente. A não ser a pressão que a mídia exerce sobre ela – com sucesso garantido –, a compulsão do christmas business não deve ser desprezada. É evidente a escassez de pessoas que se disponham ao inconformismo, à indignação; pessoas capazes de articular mudanças na sociedade, invertendo a ordem do capitalismo consumista.

Bom, somos 7 bilhões no planeta, e o fracasso desses meios aumentou as desigualdades nos usos privilegiados da tecnologia, enquanto se mundializam a fome e a ausência da saúde pública, e a crescente insegurança ambiental. A renda pessoal é distribuída de maneira tão desigual no mundo que os 2% mais ricos detêm mais de 50% dos recursos mundiais, enquanto os 50% de pessoas mais pobres detêm apenas 1% da riqueza do planeta. Por volta do ano em que nasci, 1940, já se celebrava a imensa importância da indústria na construção do “mundo de amanhã”, e nomes importantes da arquitetura e urbanização eram lembrados para planejarem a“cidade do futuro”. Ulrich Beck (cit. Z.Bauman), pensando na hipermodernidade que controla as sociedades urbanas, fala de “zumbis” assumindo as ruas, componentes que em parte estão mortos, em parte estão vivos, enquanto menciona o que se passa na vida moderna, desde as classes sociais, as famílias e os indivíduos, por exemplo, na sociedade global. 

Mas, foi o escritor Scott Fitzgerald que imortalizou o maior dos símbolos da sociedade tecnológica,a cidade, referindo-se a Nova Iorque. E com ela o desperdício, industrial e urbano, a inutilidade de “praças secas, asfaltadas e concretadas”: “Um vale de cinzas, como uma fazenda onde montes de lixo crescem como trigo em cumeeiras, colinas e jardins grotescos;cinzas tomam as cores e as formas das casas; evola das chaminés a fumaça que, tais como os homens, se movem sem destino certo, confundidos com o ar poluído”.

Aqui, o lixo cultural e a indiferença, a insensibilidade, não habitam com exclusividade os bailes funk, a mídia televisiva, o big brother, a internet, as redes sociais. O racismo embutido, a homofobia religiosa, a pedofilia e a permanente violência contra a criança, o adolescente e a mulher, formam a paisagem cinzenta. Seu habitat essencial vaza no desemprego; violência policial; fiscalização corrupta de empresas, hospitais e construções; em políticos e juízes venais, no universo cinzento da corrupção que toma a cidade.

Esta já tem de sobra o descaso com a segurança, com a saúde pública, com a urbanização planejada cientificamente, e especialmente com a instrução escolar de qualidade para a maioria pobre ou miserável. No Brasil, quase 100 milhões de pessoas moram nas periferias. Pesquisa recente mostra a classe média também procurando moradia nos morros favelados do Rio de Janeiro. O mesmo que dizer, metade da população do país luta com problemas de saúde pública, ausência de água tratada, esgotos a céu aberto. Além da falta de escolas e creches.

O Natal, na cidade,é ainda uma festa íntima da família? Talvez, porque a religiosa não é. E aí vem outro Natal… E Herodes vai voltar para novo holocausto infantil, embora os presépios montados nas vitrines das lojas ofereçam o encanto das festas natalinas. Maria e José terão que fugir com o Salvador, diretamente do coxo transformado em berço, para evitar que o futuro da humanidade seja exterminado a mando da sociedade que autoriza a violência e as desigualdades. Enquanto isso, esconde-se a exclusão, o mundo sem misericórdia ou compaixão que as urbes conhecem e cultivam muito bem. É da periferia que vem a salvação. Com a palavra o Evangelho de S.Mateus: Eis que uma adolescente conceberá e dará à luz um filho, que se chamará Emanuel (Is 7,14): Deus conosco. A esperança é a semente que brota nas rachaduras  do chão da cidade.

Derval Dasilio

ADVENTO – QUARTO DOMINGO – ANO “A”

Isaías 7,10-16 – Eis que uma virgem conceberá
Salmo 80,1-7,17-19 – O povo insistirá nas orações interesseiras?
Romanos 1,1-7 – Jesus Cristo, descendente de Davi, Filho de Deus
Mateus 1,18-25 – Jesus na história das periferias   

Derval Dasilio
Último livro publicado: PEDAGOGIA DA GANÂNCIA

DOMINGO DEPOIS DO NATAL

NATAL – O GENOCÍDIO INFANTIL NÃO CESSA

fuga-p-egito-4Jesus nasce debaixo de um decreto cuja intenção primeira era a de mobilizar os meios de arrecadação tributária para conhecer os números, identificar os possíveis devedores de impostos, e assim engordar os cofres de um império cruel, desumano, insensível à miséria dos milhões de oprimidos, despoderados, sem-dignidade e cidadania, escravizados aos sistemas econômicos, já apoiados pela religião dominante e pela política de seu país. Cabe-nos observar a “luz” que se derrama sobre os “impérios sagrados” da economia mundial (Mt 2,7). O primeiro genocídio registrado no Novo Testamento ocorre aqui.

Augusto era considerado “divino”, um imperador-deus; alguém que quer ter o poder “sagrado”de controlar, submeter, recolher tributos, taxas de rolamento de empréstimos, de todos os habitantes da terra (oikumene); alguém que, no entender de um governante mundial, lhe deve e tem que pagar, irrevogavelmente.

O império já ensinava as lições que se repetiriam ad-infinitum no século vinte, como Obama na vigília e espionagem no espaço virtual mundial: “Para entendermos o que está acontecendo, é preciso tomar ao pé da letra a ideia de Walter Benjamin, segundo o qual o capitalismo é, realmente, uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua.

Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro.  Isso mesmo, ‘salvar’ é um termo religioso. Mas o que significa ‘a qualquer preço’? Até ao preço de ‘sacrificar’ vidas humanas? Só numa perspectiva religiosa (ou melhor, pseudo-religiosa) podem ser feitas afirmações tão evidentemente absurdas e desumanas” (Giorgio Agamben).

Jesus nasceu. A fome e a miséria eram o cenário onde nasciam os menininhos pobres e carentes como ele, sem nenhum perigo para a sociedade que os excluía imediatamente. Logo depois, para eliminá-lo, essa mesma sociedade promovia ou apoiava um genocídio, o mais clamoroso das histórias do Evangelho. Os meninos do tempo de Jesus nasceram condenados à morte desde o nascimento. Hoje, conhecemos crianças, em todo o mundo, que nascem também com essa condenação, juntamente como o menino nascido na estrebaria e num berço improvisado no cocho.

O povo se sente desprotegido e desfigurado pela dor. Tentando ver um pouco além do quadro idílico da casa (família) de Nazaré, podemos fazer a reflexão: a família não foi para Jesus um obstáculo na hora de empreender a tarefa salvadora. Nessa realidade, a partir da convivência fraterna, desponta o rosto de Deus. Como o oleiro que modela a cerâmica com imenso carinho e ternura, da mesma forma, Deus modela o seu povo e lhe infunde a vida. Ele é como o pai que gera um novo ser. O pai protege, acompanha, acaricia e ensina. Não pode ficar insensível ao fruto de suas entranhas (Is 63,7-9).

Por isso, a comunidade do Terceiro Isaías, de maneira forte e comovente, apela para seu pai: reacende-se a esperança no energia e na compaixão de Deus, pois ele é o pai que sempre está ao lado de suas filhas e de seus filhos. A situação de desamparo também faz o povo ver em Yahweh o seu redentor.

No evangelho de Mateus se nos apresenta um momento concreto da vida de uma família: o de sua fuga ao Egito para evitar a perseguição desatada por Herodes. Acaso não devemos admirar a valentia, a solicitude e a prudência com que José cumpre as instruções do anjo, e a docilidade de Maria?

Na Idade Média, mil anos depois de nascida a criança de Deus entre dejetos de animais, cristãos diziam que a miséria, o pão escasso, casebres sem conforto algum, doenças e feridas, aleijumes, deficiências físicas, eram degraus do paraíso. Era prova de que Deus fizera os pobres portadores dos troféus e das misericórdias divinas. No céu… claro. Porque aqui deviam ser observados como modelos para os ricos, sovinas, pois a salvação estava na pobreza, no desconforto, na falta de assistência à saúde.

Se a condição de pobreza era a condição dos santos, ao mesmo tempo apresentava a polaridade perversa, da qual ricos piedosos estão livres: “no seio da pobreza estava a capacidade para qualquer crime. Vagabundos, heréticos, blasfemos, estelionatários, perturbados mentalmente, ladrões, assassinos pagos, prostitutas, matadores de estrada, são produto da pobreza. Mendigos eram temidos e caçados nas praças e nas ruas. E com eles suas crianças” (Alberto Manguel).

Mas é também por esse poder que a família do menino nascido de mulher sobreviverá aos poderes políticos, segundo o Evangelho. Forças econômicas e religiosas atreladas para o extermínio da esperança. O genocídio herodiano, que parece não cessar nunca.  Doces, frutas, pães especiais, rabanadas, castanhas cozidas, nozes nas mesas fartas, e nem sabíamos que o Evangelho falava da fome e da miséria, cenário onde nascia o menininho pobre e carente, sem nenhum perigo aparente para a sociedade que o excluía imediatamente, com sua família, e logo depois, para eliminá-lo, promovia ou apoiava o genocídio herodiano, o mais clamoroso das histórias dos Evangelhos.

O Salvador, também chamado “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, nascia para morrer por uma causa que ninguém quer assumir. O Filho de Deus, desde o nascimento, era procurado vivo ou morto. A sociedade ameaçada não brinca em serviço, logo denuncia: “morte à esperança”!

Isaías 63,7-9 – Meus filhos não enganam outros com meu nome.
Salmo 148 – Louvai-o, ele é o esplendor da criação.
Hebreus 2,10-18 – Solidariedade familiar… solidariedade social.
Mateus 2,13-15.19-23. Levanta-te, pega o menino e sua mãe e foge…

EPIFANIA – DEUS ESTÁ CONOSCO

Cópia de mulher chorando - picasso

Recorte do painel Guernica – Picasso

Uma vila com pouco mais de 7 mil habitantes teve metade de sua população morta pelas metralhadoras nazistas. Estranha coincidência com o número de inocentes mortos no 11 de setembro de 2001, desabamento das torres gêmeas de Manhattan, NY. Sem esquecer Gaza, no recente e implacável bombardeio israelense. A memória dos primeiros instantes da República, no Brasil governado por Prudente de Morais, também nos traz a história do massacre de quinze mil sertanejos em Canudos, Bahia, entre outros genocídios clamorosos que a história não permite esquecer.

Picasso compôs esse monumento à insanidade enquanto desenha uma mulher elegante, maquiada, com joias, chorando depois da desgraça que sua fortuna não evita; prossegue com um cavalo e um touro como se quisesse compará-los à mula e ao boi dos presépios natalinos, tão débeis e frágeis em sua mansidão, mas engrandecidos na representação de sofrimento, angústia e loucura que alcançam criaturas inocentes numa guerra inexplicável. Exemplarmente: Guernica, a vila, abrigaria revoltosos e inconformados com o fascismo na Espanha. A violência sufocante, explorada midiaticamente nas urbes, impõe-se também pelo extermínio das sementes de liberdade, enquanto se insufla o medo sem se apresentar a crítica real sobre o que origina a violência.

Junto ao touro e ao cavalo o pintor colocou uma pomba moribunda, em estertores. Por quê? Ali está a simbologia do divino. O Espírito Santo de Deus testemunha a brutalidade da violência. Está identificado com o sofrimento humano, é vítima solidária na indústria de mortes violentas com as quais nos revoltamos ou nos conformamos. É, no entanto, é Epifania: Deus se revela entre os homens, mulheres e crianças brutalizados pela violência imperante. Deus está no meio dos violentados e massacrados. 

Isso ocorre no testemunho de Picasso, válido para todos os tempos. Corpos mortos, almas feridas pela destruição daquilo que lhes vale mais, desde a cultura até os melhores valores éticos construídos em milênios, compõem o cenário de horror. Bem próximo da pomba, o pintor espanhol pintou raios de uma luz misteriosa, sinal de iluminação interior, protegido dos bombardeios exteriores, uma espécie de couraça garantidora da manutenção da esperança de liberdade (sperma=semente, no grego). 

“Humildes, marginalizados e amedrontados, os pastores viram a luz, sentiram-se acolhidos e experimentaram alegria e novas esperanças; os homens do Oriente voltaram por outro caminho (que ainda deveriam abrir com sua nova orientação), longe das velhas trilhas conhecidas que passam pelo palácio de Herodes, cheio de armas e de truculências. Como velhos amigos, as conhecidas histórias e os hinos tantas vezes repetidos levam-nos por portas que se abrem para novos espaços, onde podemos vir como somos, com nossas perguntas e nossos equívocos, para sermos aceitos e renovados. E quando nos é dado acender nossa lamparina; e quando conseguimos juntar a luz da nossa lamparina à luz de outras lamparinas, poderemos criar espaços iluminados contra nossas próprias trevas e contra as trevas abundantes em torno de nós” (Sílvio Meincke).

Exterminam-se sementes de liberdade enquanto se insufla o medo, sinal das trevas. Homens e mulheres têm até medo de sair nas ruas. Cercam suas casas com serpentina acima dos muros, e quando saem, usam carros blindados e GPS. Mas a doutrina trinitária do Reino de Deus é a doutrina teológica da liberdade sem medo. O Filho comunica, na mútua participação da vida indestrutível, que cada homem e cada mulher se torna livre do medo, para além dos limites da sua individualidade, e descobre o espaço vital comum da Liberdade a ser alcançada coletivamente (“Ninguém se liberta sozinho”, Paulo Freire).

Liberdade é Amor e Solidariedade. Experimentamos nela a união da diversidade dos indivíduos. Nela experimentamos a união das coisas que foram separadas à força, pela violência (Rm 8,26: “O Espírito Santo intercede por nós com gemidos inexprimíveis”).  As vítimas de mortes violentas, com as quais nos conformamos, reclamam a indignação, porque Deus já está indignado com o sofrimento imposto pela criatura à própria criatura.

Um Deus imóvel e apático não poderia ser colocado como fundamento da liberdade humana. Um soberano absolutista, ao gosto da sociedade herodiana, no céu abstrato do folclore religioso, não encoraja nenhuma liberdade sobre a Terra. Somente o Deus sofredor e apaixonado, que vem aos homens, e por força da sua paixão pelo homem, é capaz de fazer com que exista a liberdade humana. Ele oferece à liberdade o seu divino espaço vital. É Epifania, Deus permanece conosco.

Derval Dasilio

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