EPIFANIA – DEUS ESTÁ CONOSCO

Uma vila com pouco mais de 7 mil habitantes teve metade de sua população morta pelas metralhadoras nazistas. Estranha coincidência com o número de inocentes mortos no 11 de setembro de 2001, desabamento das torres gêmeas de Manhattan, NY. Sem esquecer Gaza, no recente e implacável bombardeio israelense. A memória dos primeiros instantes da República, no Brasil governado por Prudente de Morais, também nos traz a história do massacre de 15 mil sertanejos em Canudos, Bahia, entre outros genocídios clamorosos que a história não permite esquecer.

Cópia de mulher chorando - picassoPicasso compôs esse monumento à insanidade enquanto desenha uma mulher elegante, maquiada, com joias, chorando depois da desgraça que sua fortuna não evita; prossegue com um cavalo e um touro como se quisesse compará-los à mula e ao boi dos presépios natalinos, tão débeis e frágeis em sua mansidão, mas engrandecidos na representação de sofrimento, angústia e loucura que alcançam criaturas inocentes numa guerra inexplicável.

Exemplarmente: Guernica, a vila, abrigaria revoltosos e inconformados com o fascismo na Espanha. A violência sufocante, explorada midiaticamente nas urbes, impõe-se também pelo extermínio das sementes de liberdade, enquanto se insufla o medo sem se apresentar a crítica real sobre o que origina a violência. Junto ao touro e ao cavalo o pintor colocou uma pomba moribunda, em estertores. Por quê?

Ali está a simbologia do divino. O Espírito Santo de Deus testemunha a brutalidade da violência. Está identificado com o sofrimento humano, é vítima solidária na indústria de mortes violentas com as quais nos revoltamos ou nos conformamos. No entanto, é Epifania: Deus se revela entre os homens, mulheres e crianças brutalizados pela violência imperante. Deus está no meio dos violentados e massacrados.

Isso ocorre no testemunho de Picasso, válido para todos os tempos. Corpos mortos, almas feridas pela destruição daquilo que lhes vale mais, desde a cultura até os melhores valores éticos construídos em milênios, compõem o cenário de horror. Bem próximo da pomba, o pintor espanhol pintou raios de uma luz misteriosa, sinal de iluminação interior, protegido dos bombardeios exteriores, uma espécie de couraça garantidora da manutenção da esperança de liberdade (sperma=semente, no grego).

“Humildes, marginalizados e amedrontados, os pastores viram a luz, sentiram-se acolhidos e experimentaram alegria e novas esperanças; os homens do Oriente voltaram por outro caminho (que ainda deveriam abrir com sua nova orientação), longe das velhas trilhas conhecidas que passam pelo palácio de Herodes, cheio de armas e de truculências. Como velhos amigos, as conhecidas histórias e os hinos tantas vezes repetidos levam-nos por portas que se abrem para novos espaços, onde podemos vir como somos, com nossas perguntas e nossos equívocos, para sermos aceitos e renovados. E quando nos é dado acender nossa lamparina; e quando conseguimos juntar a luz da nossa lamparina à luz de outras lamparinas, poderemos criar espaços iluminados contra nossas próprias trevas e contra as trevas abundantes em torno de nós” (Sílvio Meincke).

Exterminam-se sementes de liberdade enquanto se insufla o medo, sinal das trevas. Homens e mulheres têm até medo de sair nas ruas. Cercam suas casas com serpentina acima dos muros, e quando saem, usam carros blindados e GPS. Mas a doutrina trinitária do Reino de Deus é a doutrina teológica da liberdade sem medo. O Filho comunica, na mútua participação da vida indestrutível, que cada homem e cada mulher se torna livre do medo, para além dos limites da sua individualidade, e descobre o espaço vital comum da Liberdade a ser alcançada coletivamente (“Ninguém se liberta sozinho”, Paulo Freire).

Liberdade é Amor e Solidariedade. Experimentamos nela a união da diversidade dos indivíduos. Nela experimentamos a união das coisas que foram separadas à força, pela violência (Rm 8,26: “O Espírito Santo intercede por nós com gemidos inexprimíveis”).  As vítimas de mortes violentas, com as quais nos conformamos, reclamam a indignação, porque Deus já está indignado com o sofrimento imposto pela criatura à própria criatura.

Um Deus imóvel e apático não poderia ser colocado como fundamento da liberdade humana. Um soberano absolutista, ao gosto da sociedade autoritária herodiana, no céu abstrato do folclore religioso, não encoraja nenhuma liberdade sobre a Terra. Somente o Deus sofredor e apaixonado, que vem aos homens, e por força da sua paixão pelo homem, é capaz de fazer com que exista a liberdade humana. Ele oferece à liberdade o seu divino espaço vital. É Epifania, Deus permanece conosco.

NOTA: A Epifania apresenta a história bíblica, Deus menino, ser humano, que nasce numa estrebaria, cheirando a estrume, sofrendo e convidando ao sofrimento com causa (cada um tome a sua cruz e siga-me…), aparentemente “derrotado” pelos poderes do Mal. Recusado e perseguido pela sociedade herodiana. Mateus, evangelho dominante, quer mostrar a missão de Jesus, mestre da verdadeira Justiça. Essa missão se concentra na salvação dos pagãos, ou os diferentes da tradição original (Paulo, o apóstolo, entendeu-os muito bem, antes de Mateus: ofereceu-lhes a Igreja de Cristo, à revelia dos judeus-cristãos), aqui representados pelos “magos” (no desdobramento: párias sociais, sexualmente diferentes, prostitutas, doentes, deficientes, raças discriminadas, seriam chamados preferencialmente à inclusão, não pela “conversão”, mas pela conscientização da preferência de Deus pelos discriminados, desapoderados e socialmente oprimidos).

Era motivado o Culto Cristão, no 1o. século, pela reunião eucarística, a comunhão da Ceia do Senhor. Todos os domingos! E era só isso, ao que tudo indica. A Páscoa cristã, como tempo litúrgico, a partir do 2o. século, tem tudo a ver com o calendário judaico, se bem que muitos gostariam de esquecer esse fato, incluindo o abandono do AT histórico-profético (falando-se de liturgia, e não da moralidade farisaica que dá ibope nas igrejas; que tem voto favorável de muitos cristãos, hoje, apesar da luta de Jesus e dos apóstolos, porque recusaram a “reta doutrina” do judaísmo formativo em convivência com o cristianismos iniciante; para esses, parece que Jesus e os apóstolos não foram “bons cristãos” – de fato, não foram… sob o prisma da sociedade religiosa autoritária).

A Epifania aponta coerência com a nova forma de entender o mundo onde Deus habita, Emmanuel, (duas formas distintas de enfrentamento da moral do stablishment: a moral religiosa conserva os interesses da sociedade dominante sobre seus dependentes; a moral profética, ao contrário, trai e acusa o stablishment; possui potencial agressivo e insuportável ao mesmo. É preciso transgredir o que se diz ser “justiça”, “direito” consuetudinário da tradição judaico-cristã, na “fidelidade” aos princípios que sustentam as desigualdades, castas, privilégios sociais, como os evangelistas denunciariam seguidamente, embora nunca entendidos no cristianismo histórico, dentro da própria igreja apostólica, até os dias de hoje. O cristianismo primitivo foi construído fora da tradição judaísta cristã. E o cristianismo de hoje tende a informar, interessando-se por seus dogmas antes que a mensagem evangélica: “Jesus e os apóstolos não foram bons religiosos…”.

Derval Dasilio

 

 

 

Anúncios