OS JOVENS E SUAS VOCAÇÕES

Precisamos conversar com os jovens sobre testemunho cristão nos lugares onde estarão os cristãos vocacionados para servir a Deus, na missão do Reino, compreendendo claramente o missionário Jesus de Nazaré, através dos ministérios da igreja e na vida cotidiana. [Atenção: não deixe de ler os comentários sobre este texto]. Pedro Lísias, um jovem aluno no seminário teológico, num debate: “Vivemos numa sociedade segmentada e dividida. Nossas vidas são pressionadas pelos golpes que sofremos do sistema (ou sociedade autoritária). Ficamos preocupados por não ter que passar por crises. Na nossa vida eclesiástica, acabamos não dispondo de tempo para dedicação ou tomar iniciativas para servir ao Senhor nosso Deus. Encaro que a vocação só é descoberta quando aceitamos que os maiores sonhos que temos devem ser o que Deus sonha para nós: o sonho de Deus é influenciar nossa vontade para vivermos sempre movidos por sentimentos bons, buscando preparação para a missão, para a execução da missão (de Deus), e para a convivência cristã na experiência da inclusão (de todos: idosos, jovens, crianças; deficientes, diferentes racial ou sexualmente, etc.)”.

O sonho de Deus é que vivamos, porém, na igreja, a liturgia (culto), o ensino bíblico e teológico, a ética e a evangelização e a diaconia total, sócia, como cristãos. No serviço. Encaro a vocação como liberdade que Deus nos deu para servir (ou não servir). Mas vejo essa liberdade sempre como responsabilidade inescapável. Um pouco do que interpreto desta liberdade encontrei na carta de Tiago 2,1-13, mais especificamente no v. 12: …sereis julgados pela lei da liberdade. Contudo, nossa vocação está nesta liberdade. Nossa liberdade é uma vocação. É a vocação movida pelo Espírito Santo de Deus, uma grande e prazerosa responsabilidade”.

Carlos Calvani, colega, pastor anglicano, professor de teologia, atuando em Cuiabá – Mato Grosso, conta um caso interessante: “Um calouro do curso de teologia, perguntado sobre o chamado e o significado de sua vocação, respondia estupidamente: – “Não passei em nenhum dos muitos vestibulares que fiz, então comecei a pensar que Deus tinha um plano para mim, impedindo-me de ingressar na universidade; Deus queria que eu me dedicasse ao ministério”. É o contrário, acreditamos: Deus precisa dos mais habilitados, os jovens mais conscientes; os que possuem inteligência crítica, em favor do Reino de Deus, e não das sobras ou dos estúpidos.

Acho eu que o exemplo mostra o quanto os modismos atuais influenciam as vocações, especialmente os de origem carismática, que grassam nos ambientes eclesiásticos. É preocupante: o jovem toca uns acordes de guitarra, ou bate uma bateria animada, e já tem um “ministério”, que considera mais importante que o do pastor ou pastora. Os nomes de grupos musicais, são impressionantes, evocando o judaísmo combatido por Jesus e seu apóstolos: Trazendo a Arca; Diante do Trono; Pavio que Fumega; El Shamah. Lembram imagens que não constam nos textos e na religião do Novo Testamento. Mas afirmam seu apego à religiosidade contra a qual Jesus anunciou o desprezo do Pai.

Ouvi um líder de banda gospel, num culto, depois de quinze minutos de som ensurdecedor, explosivo, das caixas de “1000 wats RMS” espalhadas no altar transformado em palco, orar veementemente, repetindo os expoentes do mundo gospel, dando ordens a Deus para abençoar “este povo”… O moço achava que estava investido de autoridade para abençoar quem ele escolhesse, como aprendera nas excursões à Igreja Batista da Lagoinha.

Acham que têm as respostas, enquanto a multidão revira os olhos, sente a pele tremida, emocionada com a “viagem” do louvor gospel. Enquanto embriagam a multidão, instilam mais alienação, e se afastam ainda mais do culto cristão. E estamos conversados. Não tem diálogo. Eles sabem tudo! Tudo que o culto fundamentalista ensinou. O povo não precisa orar, e se quisesse não conseguiria, porque os ministros de louvor oram no lugar dele. Nem canta, eles cantam por ele.

E usamos a Bíblia somente para confirmar doutrinas eclesiásticas, enquanto apoiamos a analfabetização geral que se faz, sonegando o estudo bíblico sobre os fundamentos da fé cristã. E o preparo bíblico nos seminários, também, parece andar capengando, quanto à formação litúrgica para o culto cristão, a julgar pela visão teológica de alguns, perdida no fascínio por modismos importados, reavivalistas, carismáticos, propositistas (ensinamento da ganância como virtude), que refletem o ajustamento à mediocridade teológica que vem tomando conta de nossas comunidades. Personalidades pentecostais da religião da ganância interessam mais que Jesus Cristo (5º lugar no ranking da juventude, entre 1.960 jovens pesquisados pela revista Ultimato – set./out. 2010: detalhei o assunto no livro Pedagogia da Ganância, acabo de publicar).

Derval Dasilio

Nota: Na igreja onde atuamos a preocupação com o assunto juventude parece desencadear um interesse sobre o assunto (e incluímos a adolescência que vai-se dispersando, buscando as multi ofertas da religião, ou talvez até bem distante da mesma). Estudos sobre a cultura gospel — claramente independente das igrejas, como declarou um leader band gospel  –, e só as igrejas não compreendem que se tornaram tão simplesmente um mercado para essa tendência. Acrescente-se a presença da mídia da religião de mercado, plenamente aceita nos lares evangélicos, onde pastores e pastoras doutrinam a família toda para os seus fins.

Mateus 4,12-26 – Para a compreensão do ponto central da pregação de Jesus, ou seja, o Reino “dos céus” (ou “o Reino de Deus”, uma vez que a o evangelho de Mateus se dirige a judeus tradicionais, que consideravam aceitável, no máximo, o termo Senhor, Adonai), devemos remontar às experiências de soberania que as pessoas e o povo de Israel tiveram ao longo de sua história. O começo solene da pregação de Jesus só encontra semelhança no começo do ensinamento sobre a Paixão (e crucificação). Para as regiões mais expostas às duras situações criadas pelo poder dos impérios, o Primeiro Isaías, ou um de seus discípulos, anunciava a promessa de libertação de um imperialismo que é expressa adequadamente como “vara”… “jugo”… “bastão de comando”… “bota que pisa pesado”… “capa manchada de sangue” (Is 9,3-4).

RACISMO, EXCLUSÃO, HOMOFOBIA, PRIVILÉGIOS SÓCIO-RELIGIOSOS

Jesus se apresenta como a realização da libertação divina que destrói estes sinais do poder imperial e que, por conseguinte, pode ser descrita com as imagens da luz, da bênção e da alegria, seguidas da colheita e de uma vitória que se assemelha àquela obtida por Gedeão sobre os midianitas (גִּדְעוֹן, Gid’on) (Juízes 8). A relação com a religião subserviente aos poderes políticos, é uma evidência. A ação libertadora de Deus assume a forma de um fogo que destrói as forças do opressor.

Em Jesus, o triunfo sobre esses poderes do mal se realiza mediante a pregação do Evangelho do Reino que vai acompanhada pela cura de todas as enfermidades mentais e culturais do povo oprimido da Galiléia (possessão demoníaca e paralisia mental, preconceito, exclusão, etc.). Mas, por sua situação de maior aproximação à arbitrariedade dos poderes imperiais, os efeitos da ação libertadora de Jesus na Galiléia transcendem os limites desta, atingindo outras regiões de dentro e de fora de Israel. A mensagem do Reino mobiliza uma “grande multidão da Galiléia” mas também da Decápole, Jerusalém, Judéia e Transjordânia (v.25), e sua ressonância chega a “toda Síria” (v.24).

A menção destes no v.25 aparece para ressaltar que todos “seguiam” a Jesus. A partir dessa referência devem ser compreendidos (vv.18-22), que são relatos de vocação dirigida a dois pares de irmãos: Simão e André, primeiramente; e João e Tiago, a seguir. Tais relatos, e os que aparecerão posteriormente nos evangelhos, não têm outro paralelo véterotestamentario a não ser o relato da vocação de Eliseu (1Rs 19,19-21). Como neste relato, aparece o nome do chamado, do vocacionado, (do latim vocare), o ofício desempenhado até o momento, e uma referência ao chamado para o seguimento. Sem dúvida, um texto vocacional. Elias “vai e encontra” Eliseu. Jesus, “caminhando à beira do mar, viu Simão e André”. E, “seguindo, viu outros dois irmãos”. Eliseu “estava orando”, os dois pares de irmãos estavam ocupados com seu trabalho: “lançavam suas redes”, estavam em sua barca “consertando as redes”. No caso de Elias, o convite ao seguimento se realiza através do gesto de “jogar o manto em cima” daquele, ou daquela, que foi chamado ou chamada (como uma veste litúrgica).A forma com a qual se relata a vocação de Eliseu quer significar que ela é continuação da vocação de Elias, conforme aparece na passagem precedente: “Ungirás profeta a Eliseu para ficar em teu lugar” (1Rs 19,16). Não se confia ao chamado uma tarefa nova, mas esta consiste em continuar a tarefa. A vocação dos discípulos se entende, portanto, como chamado a continuar a tarefa iniciada por Jesus.

A densidade cristológica do texto é inigualável. Sabemos que o texto joanino não permite a dispersão dos títulos cristológicos de Jesus. Isso nos leva a considerar, pelo cuidado quanto às origens do movimento de Jesus, que estaríamos com uma orientação pedagógica dirigida aos discípulos da terceira geração da igreja inicial, considerando-se a formação documental do Novo Testamento (os redatores escreviam ao fim do I século).

A vida cristã só pode ser assumida como “seguimento de Jesus”, de sua vida e de seu projeto, atravé de outras vocações, além da vocação sacerdotal (povo de sacerdotes 1Pedro 2,5-9; Tito 2,5; Efésios 2,10). Esta centralidade do seguimento está na exortação antisacramental de Paulo aos membros da comunidade de Corinto (“…não fui chamado para batizar, mas sim para anunciar o Evangelho” – 1Cor 1,17). Forma para superar as divisões nascidas do esquecimento desta realidade fundamental sobre a unidade dos crentes. O esforço de não desvirtuar a cruz de Cristo, converte-se, portanto, na única forma de realização da unidade e da vida cristã. É preciso insurgir contra o autoritarismo moral, e as negações de cidadania aos mais fracos da sociedade humana.

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3o. Domingo do Tempo Comum depois da Epifania – Ano A
Isaías 9,1-4 – Continuará a obscuridade para a terra aflita
Salmo 27,1 e 4-9 – Senhor, não me escondas a tua face!
1Coríntios 1,10-18 – Não fui enviado para o batismo proselitista…
Mateus 4,12-26 – Vinde, eu vos farei pescadores de gente.

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ANO A – CALENDÁRIO, CICLOS E DOMINGOS LITÚRGICOS

CALENDÁRIO LITÚRGICO 2013-2014-2015-2016-2017

CICLO DO NATAL
1.1 ADVENTO
1.2 NATAL
1.2.1 EPIFANIA

1.3 CICLO DO TEMPO COMUM – 1a.Parte (Depois da Epifania)

2. CICLO DA PÁSCOA

2.1 TRÍDUO PASCAL

2.1.1 QUARESMA

2.1.1.1 DOMINGO DE RAMOS
2.1.1.2 QUARTA-FEIRA DE CINZAS

2.1.1.3 QUINTA-FEIRA DA PAIXÃO

2.1.1.4 SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO

2.1.1.5 VIGÍLIA PASCAL / DOMINGO DA RESSURREIÇÃO

2.1.2 TEMPO PASCAL

2.1.2.2 ASCENSÃO

2.1.2.3 PENTECOSTES

3. CICLO DO TEMPO COMUM – 2a.Parte (Depois de Pentecostes)
3.1 TRINDADE
3.2 AÇÃO DE GRAÇAS
3.3 REFORMA
3.4 CRISTO REI DO UNIVERSO

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VOCAÇÃO E VOCAÇÕES

entra e sai igrejaPrecisamos conversar com os jovens sobre testemunho cristão nos lugares onde estarão os cristãos vocacionados para servir a Deus, na missão do Reino, compreendendo claramente o missionário Jesus de Nazaré, através dos ministérios da igreja e na vida cotidiana. Pedro Lysias, um jovem aluno no seminário teológico, num debate: “Vivemos numa sociedade segmentada e dividida. Nossas vidas são pressionadas pelos golpes que sofremos do sistema (ou sociedade autoritária). Ficamos preocupados por não ter que passar por crises. Na nossa vida eclesiástica, acabamos não dispondo de tempo para dedicação ou tomar iniciativas para servir ao Senhor nosso Deus. Encaro que a vocação só é descoberta quando aceitamos que os maiores sonhos que temos devem ser o que Deus sonha para nós: o sonho de Deus é influenciar nossa vontade para vivermos sempre movidos por sentimentos bons, buscando preparação para a missão, para a execução da missão (de Deus), e para a convivência cristã na experiência da inclusão (de todos: idosos, jovens, crianças; deficientes, diferentes racial ou sexualmente, etc.).
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O sonho de Deus é que vivamos, porém, na igreja, a liturgia (culto), o ensino bíblico e teológico, a ética e a evangelização e a diaconia total, sócia, como cristãos. No serviço. Encaro a vocação como liberdade que Deus nos deu para servir (ou não servir). Mas vejo essa liberdade sempre como responsabilidade inescapável. Um pouco do que interpreto desta liberdade encontrei na carta de Tiago 2,1-13, mais especificamente no v. 12: …sereis julgados pela lei da liberdade. Contudo, nossa vocação está nesta liberdade. Nossa liberdade é uma vocação. É a vocação movida pelo Espírito Santo de Deus, uma grande e prazerosa responsabilidade”.
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Carlos Calvani, colega, pastor anglicano, professor de teologia, atuando em Cuiabá – Mato Grosso, conta um caso interessante: “Um calouro do curso de teologia, perguntado sobre o chamado e o significado de sua vocação, respondia estupidamente: – “Não passei em nenhum dos muitos vestibulares que fiz, então comecei a pensar que Deus tinha um plano para mim, impedindo-me de ingressar na universidade; Deus queria que eu me dedicasse ao ministério”. É o contrário, acreditamos: Deus precisa dos mais habilitados, os jovens mais conscientes; os que possuem inteligência crítica, em favor do Reino de Deus, e não das sobras ou dos estúpidos.
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Acho eu que o exemplo mostra o quanto os modismos atuais influenciam as vocações, especialmente os de origem carismática, que grassam nos ambientes eclesiásticos. É preocupante: o jovem toca uns acordes de guitarra, ou bate uma bateria animada, e já tem um “ministério”, que considera mais importante que o do pastor ou pastora. Os nomes de grupos musicais, são impressionantes, evocando o judaísmo combatido por Jesus e seu apóstolos: Trazendo a Arca; Diante do Trono; Pavio que Fumega; El Shamah. Lembram imagens que não constam nos textos e na religião do Novo Testamento. Mas afirmam seu apego à religiosidade contra a qual Jesus anunciou o desprezo do Pai.
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Ouvi um líder de banda gospel, num culto, depois de quinze minutos de som ensurdecedor, explosivo, das caixas de “1000 wats RMS” espalhadas no altar transformado em palco, orar veementemente, repetindo os expoentes do mundo gospel, dando ordens a Deus para abençoar “este povo”… O moço achava que estava investido de autoridade para abençoar quem ele escolhesse, como aprendera nas excursões à Igreja Batista da Lagoinha.
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Acham que têm as respostas, enquanto a multidão revira os olhos, sente a pele tremida, emocionada com a “viagem” do louvor gospel. Enquanto embriagam a multidão, instilam mais alienação, e se afastam ainda mais do culto cristão. E estamos conversados. Não tem diálogo. Eles sabem tudo! Tudo que o culto fundamentalista ensinou. O povo não precisa orar, e se quisesse não conseguiria, porque os ministros de louvor oram no lugar dele. Nem canta, eles cantam por ele.
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E usamos a Bíblia somente para confirmar doutrinas eclesiásticas, enquanto apoiamos a analfabetização geral que se faz, sonegando o estudo bíblico sobre os fundamentos da fé cristã. E o preparo bíblico nos seminários, também, parece andar capengando, quanto à formação litúrgica para o culto cristão, a julgar pela visão teológica de alguns, perdida no fascínio por modismos importados, reavivalistas, carismáticos, propositistas (ensinamento da ganância como virtude), que refletem o ajustamento à mediocridade teológica que vem tomando conta de nossas comunidades. Personalidades pentecostais da religião da ganância interessam mais que Jesus Cristo (5º lugar no ranking da juventude, entre 1.960 jovens pesquisados pela revista Ultimato – set./out. 2010: detalhei o assunto no livro Pedagogia da Ganância, acabo de publicar).
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Mateus 4,12-26 – Para a compreensão do ponto central da pregação de Jesus, ou seja, o Reino “dos céus” (ou “o Reino de Deus”, uma vez que a o evangelho de Mateus se dirige a judeus tradicionais, que consideravam aceitável, no máximo, o termo Senhor, Adonai), devemos remontar às experiências de soberania que as pessoas e o povo de Israel tiveram ao longo de sua história. O começo solene da pregação de Jesus só encontra semelhança no começo do ensinamento sobre a Paixão (e crucificação). Para as regiões mais expostas às duras situações criadas pelo poder dos impérios, o Primeiro Isaías, ou um de seus discípulos, anunciava a promessa de libertação de um imperialismo que é expressa adequadamente como “vara”… “jugo”… “bastão de comando”… “bota que pisa pesado”… “capa manchada de sangue” (Is 9,3-4).

Derval Dasilio

 

 

Jesus se apresenta como a realização da libertação divina que destrói estes sinais do poder imperial e que, por conseguinte, pode ser descrita com as imagens da luz, da bênção e da alegria, seguidas da colheita e de uma vitória que se assemelha àquela obtida por Gedeão sobre os midianitas (גִּדְעוֹן, Gid’on) (Juízes 8). A relação com a religião subserviente aos poderes políticos, é uma evidência. A ação libertadora de Deus assume a forma de um fogo que destrói as forças do opressor. Em Jesus, o triunfo sobre esses poderes do mal se realiza mediante a pregação do Evangelho do Reino que vai acompanhada pela cura de todas as enfermidades mentais e culturais do povo oprimido da Galiléia (possessão demoníaca e paralisia mental). Mas, por sua situação de maior aproximação à arbitrariedade dos poderes imperiais, os efeitos da ação libertadora de Jesus na Galiléia transcendem os limites desta, atingindo outras regiões de dentro e de fora de Israel. A mensagem do Reino mobiliza uma “grande multidão da Galiléia” mas também da Decápole, Jerusalém, Judéia e Transjordânia (v.25), e sua ressonância chega a “toda Síria” (v.24).

 

A menção destes no v.25 aparece para ressaltar que todos “seguiam” a Jesus. A partir dessa referência devem ser compreendidos (vv.18-22), que são relatos de vocação dirigida a dois pares de irmãos: Simão e André, primeiramente; e João e Tiago, a seguir. Tais relatos, e os que aparecerão posteriormente nos evangelhos, não têm outro paralelo véterotestamentario a não ser o relato da vocação de Eliseu (1Rs 19,19-21). Como neste relato, aparece o nome do chamado, do vocacionado, (do latim vocare), o ofício desempenhado até o momento, e uma referência ao chamado para o seguimento. Sem dúvida, um texto vocacional. Elias “vai e encontra” Eliseu. Jesus, “caminhando à beira do mar, viu Simão e André”. E, “seguindo, viu outros dois irmãos”. Eliseu “estava orando”, os dois pares de irmãos estavam ocupados com seu trabalho: “lançavam suas redes”, estavam em sua barca “consertando as redes”. No caso de Elias, o convite ao seguimento se realiza através do gesto de “jogar o manto em cima” daquele, ou daquela, que foi chamado ou chamada (como uma veste litúrgica).A forma com a qual se relata a vocação de Eliseu quer significar que ela é continuação da vocação de Elias, conforme aparece na passagem precedente: “Ungirás profeta a Eliseu para ficar em teu lugar” (1Rs 19,16). Não se confia ao chamado uma tarefa nova, mas esta consiste em continuar a tarefa. A vocação dos discípulos se entende, portanto, como chamado a continuar a tarefa iniciada por Jesus.
A densidade cristológica do texto é inigualável. Sabemos que o texto joanino não permite a dispersão dos títulos cristológicos de Jesus. Isso nos leva a considerar, pelo cuidado quanto às origens do movimento de Jesus, que estaríamos com uma orientação pedagógica dirigida aos discípulos da terceira geração da igreja inicial, considerando-se a formação documental do Novo Testamento (os redatores escreviam ao fim do I século).

A vida cristã só pode ser assumida como “seguimento de Jesus”, de sua vida e de seu projeto, atravé de outras vocações, além da sacerdotal (povo de sacerdotes 1Pedro 2,5-9; Tito 2,5; Efésios 2,10). Esta centralidade do seguimento está na exortação antisacramental de Paulo aos membros da comunidade de Corinto (“…não fui chamado para batizar, mas sim para anunciar o Evangelho” – 1Cor 1,17). Forma para superar as divisões nascidas do esquecimento desta realidade fundamental sobre a unidade dos crentes. O esforço de não desvirtuar a cruz de Cristo, converte-se, portanto, na única forma de realização da unidade e da vida cristã.

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3o. Domingo do Tempo Comum depois da Epifania – Ano A
Isaías 9,1-4 – Continuará a obscuridade para a terra aflita
Salmo 27,1 e 4-9 – Senhor, não me escondas a tua face!
1Coríntios 1,10-18 – Não fui enviado para o batismo proselitista…
Mateus 4,12-26 – Vinde, eu vos farei pescadores de gente.

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O BATISMO DO SENHOR (Segundo Domingo do Tempo Comum)                   O contraste entre os dois, Jesus de Nazaré e João Batista, é tão patente quanto a madrugada, antes do amanhecer, e o sol-a-pique do meio-dia; quanto sombra e luz; quanto água e Espírito. Fica claro que o batismo de João compreende a conversão, mas Jesus vai além. Seu batismo é uma novidade radical: o Espírito está na conversão, mas segue construindo a vida do Reino.  Um é “ritual e externo”, o outro é profundo, atua no interior. Na profundidade das realidades humanas (Tillich, The New Being). Tudo precisa do Espírito, sem ele não há nada acontecendo, apenas um ritual religioso como muitos.  Sabe-se que o “batismo” de João não era propriamente original, praticado em movimentos religiosos marginais, radicais. O batismo de Jesus é messiânico, profético. O Messias de Deus iguala-se à humanidade, enquanto Deus nele se “re-vela”.

Um manso cordeiro, (biblicamente: o mesmo que meiguice, doçura, ternura), realiza a remissão dos pecados do mundo. Mas simbolicamente. Os pecados do mundo, porém, são estruturais, afeitos à responsabilidade política, social, religiosa. Mundo e humanidade acompanham uma sinonímia inevitável. A força está na fraqueza aparente do mártir da causa de Deus: um cordeiro pronto a ser degolado encerra os conteúdos da não-violência, não-represália ou da não-vingança, quanto aos poderes deste mundo. A doutrina de Anselmo (séc.XII), portanto medieval, da “satisfação”, individualista, (interpretada brutalmente no cinema por Mel Gibson, com abundância de sangue e violência, como agrada ao mundo fundamentalista, reavivada pelo teólogo pregador John Stott, conservador, não-fundamentalista, porém, não encontra apoio aqui: “… altares foram erigidos, animais foram sacrificados, e seu sangue derramado no período anterior à lei mosaica. (…) sem derramamento de sangue não há remissão… ”- (J.Stott, Cristianismo Básico, Ultimato, 2007).

O Cordeiro de Deus morre pela causa do Reino, não apenas por indivíduos, como quer essa teologia. O enfoque de João é o mundo (tou kosmou), e não um homem, individualmente identificado como tal (andros). “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”(Jo 1,29): [cf. Novo Testamento Interlinear Grego-Português, SBB, 2007: …’ide ’o amnos tou Theou ’o airwn tem ’armartiav tou kosmou]. Ver, aqui, comentário e complemento da análise ao 2o. Domingo Litúrgico do Tempo Comum – Ano “A”.

Ano “A”  2o. DOMINGO DO TEMPO COMUM

Isaías 49,1- Luz para até os confins da terra. 

 Salmo 40,1-11 – Não quiseste holocaustos e ofertas, mas a tua graça…
1Coríntios 1,1-9 – É fiel o Deus que vos chamou à comunhão
João 1,29-42 – Eis o Cordeiro que tira o pecado do mundo

 

 

 

 

 

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BATISMO: JESUS É DECLARADO UM SER HUMANO

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Cortesia: Sandro Xavier

A cena do Batismo de Jesus nos relatos evangélicos rompe o silêncio dos oprimidos, eles alcançam sua vez e voz a partir de Nazaré, cidadão miserável e insignificante vilarejo, zero à esquerda nos interesses dos poderosos e dominadores da terra. Estes, esforçando-se por manter privilégios históricos, na vida cidadã e na economia estrutural do momento. A inter- venção divina, assim, acontece graças à ação do Messias (Mashiah ou Christós), sem fugir-se das debilidades próprias da condição humana. Especialmente os com- ponentes da cidadania de segunda categoria, a classe baixa da sociedade excludente. A Graça é anunciada em sua plenitude, chegou a libertação na carne humana enfraquecida, alternativa ao desespero das desigualdades, para homens e mulheres imersos na noite escura dos tempos de opressão, que parece nunca terminar (Richard Shaull). Contudo, é preciso dar atenção ao sentido vocacional que o Evangelho imprime ao Batismo do Senhor.

A humanidade de Deus, corretamente compreendida, deve ter o significado de que Deus quer relacionar-se com o ser humano no seu sofrimento. Segundo Karl Barth, Deus quer ter com o ser humano um relacionamento de reciprocidade no Batismo.  De Deus vem a Promessa e o Mandamento, que Emil Brunner chamará de “imperativo divino”: “Ouve, ó Israel… diante de ti proponho dois caminhos” (shemah Ysrae’el). A liturgia do Batismo, então, celebrará corretamente a intervenção e a ação de Deus em favor do homem e da mulher, no batismo sacramental (nos ritos mais antigos, eram pronunciadas as perguntas do compromisso diante da pia batismal: “Renuncias ao diabo e suas artimanhas”?). 

Aqui, além do mais, está a força teológica da encarnação, entre os grandes mistérios da fé. O Batismo significará um compromisso de comunhão que mantém o batizando humano, enquanto Deus quer tão somente expressar-se em liberdade, a gratuidade que lhe é característica, na qual ele não quer nada mais nada menos que ser “humano” (K.Barth).

Mateus 3,13-17 – O Batismo de Jesus, relatado por Mateus, consta como uma dificuldade técnica de redação e sentido que necessita ser deslindada. São duas seções: o encontro de Jesus com João Batista (13-15), e a teofania, manifestação de Deus que se segue na narrativa. A teofania tem o caráter profundo de modelos apocalípticos e sapienciais escriturísticos. Como se observa na primeira leitura litúrgica deste domingo, existe uma tendência para assinalar como definitiva a vocação de Jesus pautada no Servo de Yahweh (Is 42), não há dúvida.

 

A vocação divina, mais que uma vocação profética, é construída sobre modelos apocalípticos, uma abertura do céu, e graças a ela uma Palavra definitiva produz, ao mesmo tempo, uma nova Criação. A criação mais recente, como em Gn 1, torna o Espírito presente (rûah) em forma de “uma ave pairando sobre a Criação” (parece-me que há um testemunho rabínico da mesma que fala também de uma “pomba”, como neste texto de Mateus; é preciso confirmar, no entanto). Também a literatura sapiencial da Bíblia Hebraica mostra a capacidade de uma intervenção divina para se realizar o intento divino de humanizar-se; de querer ser como o/um homem, através de outras atitudes e de outros conhecimentos. [Obs: Este substantivo, no NT, também se apresenta como batisma, batizo e bato; derivado da raiz “batis”, o qual pode ser traduzido por “batizar”, “imergir”, “banhar”, “lavar”, “derramar”, “cobrir” ou “tingir”].

 

Então, em Mateus se trata de “uma nova criação”, a mais recente, que se realiza em Jesus de Nazaré. Deus humaniza-se no batismo de João. É assim que os seres humanos podem adquirir as “características do novo ser humano”. O Batismo bíblico é sinalização dessa mudança. Dessa forma introduz-se um conceito novo de messianismo, remontando-se também ao tempo dos discípulos do (Segundo) Isaías (no exílio babilônico). Segundo ele, o Messias de Deus compartilha solidariamente a debilidade, vulnerabilidade e fraqueza, da condição humana.

 

É a total coerência com essa condição: “Deus conosco”, humano, que habita no meio de nós, do princípio ao fim (Mt 1,23 e 26,20). Esta alusão ao Servo sofredor nos coloca diante de um projeto denominado: “o Messias (Cristo) será luz das nações”, surgido ainda nos tempos babilônicos. A parte anterior do relato neotestamentário serve para colocar em relevo a divergência que existe entre a concepção messiânica e todas as outras formas de messianismos. Sob as diversas atitudes de João e de Jesus a respeito do batismo do nazareno, também desponta uma concepção do Reino de Deus. Diferente das outras, sim, como função do Messias, em particular, nos pontos:

 

1. O movimento do Batista via a instauração do Reino como a chegada do Juízo de Deus. O ser humano pecador devia ter em vista a irrupção do reinado divino como uma dinâmica de “purificação” na qual o Batismo assumia um papel de suma importância, quando recebido. A intervenção divina, assim, se levava a cabo graças à ação do Messias, com exceção das debilidades próprias da condição humana. Devido à surpreendente reação de João diante de Jesus (v.14): “vens a mim, se sou eu quem necessita que tu me batizes?”… fica claro que João Batista concebe o Reino e o Messias a seu modo. A continuação do relato esclarece suas opiniões: a atenção sobre o juízo divino desloca-se para a realização da justiça “conforme Deus quiser” (v.15), o Batista submete-se. Assim, a atenção sobre a realização dessa justiça se desloca para o momento presente.  Se o homem sofre, Deus sofre com ele; se o testemunho (martyria) ocasiona a morte, também Deus morre para testemunhar o valor do seu Reino.

 

2. A entrega incondicional (Batismo!) só pode fazer-se por meio do Espírito do Deus solidário que compartilha a dura condição de todos os que sofrem em conseqüência do “espírito diabólico” que reina e que oprime os seres humanos (cf. o comentário acima, sobre Atos 10).  E o evangelista João completaria: “a Palavra se fez carne e habitou entre nós”. O logos é também davar*. Com a justiça tudo tem sentido, porque a Palavra penetra e é ela que cria os meios, as ações que libertam consciências Assim se experimenta o verdadeiro sabor da vida de fé e da liberdade em Cristo. A Escritura está subordinada ao testemunho dos apóstolos sobre o Batismo, não à letra morta (catecismo) da Lei. A Palavra viva concretiza o testemunho da Bíblia, finalmente.

 

BATISMO DO SENHOR – ANO “A” [Tempo Comum depois da Epifania] 

Isaías 42,1-9 – És meu filho, fui eu que te gerei

Salmo 29 – Sobre as águas ouve-se a voz do Senhor

Atos 10,34-43 – Ele tem autoridade para atuar em favor dos oprimidos

Mateus 3,13-17 – Realize-se a justiça conforme Deus quiser

 

*[Nota: Não devemos nos esquecer que o ‘logos’ corresponde a ‘davar’, na Bíblia, assim compreenderemos os sentidos: a teologia de João reflete o pensamento de um hebreu, pensa na tradição escriturística da Bíblia Hebraica e conta com os reforços do Thalmud, insurgindo-se contra a escritura legalista regimental da religião inaugurada depois do exílio babilônico. Ali, reagindo às imposições da religião – ou legalismo deísta ao estilo do escolasticismo da ortodoxia no Iluminismo – o logos bíblico dá forma e consistência a todas as coisas; é ‘davar’, significa “promessa”, “esperança”, “ordem”, “mandamento”, “conselho”; e continua a definição bíblica: ‘davar’ é a palavra que provoca um acontecimento, um fato, uma ação concreta; ‘davar’ é também “uma causa”, “um motivo”, e bem poderíamos dizer que ‘davar’ é a palavra que torna perceptível a chegada do Reino, a causa de Deus representada em Jesus Cristo].

 

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