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Cortesia: Sandro Xavier

A cena do Batismo de Jesus nos relatos evangélicos rompe o silêncio dos oprimidos, eles alcançam sua vez e voz a partir de Nazaré, cidadão miserável e insignificante vilarejo, zero à esquerda nos interesses dos poderosos e dominadores da terra. Estes, esforçando-se por manter privilégios históricos, na vida cidadã e na economia estrutural do momento. A inter- venção divina, assim, acontece graças à ação do Messias (Mashiah ou Christós), sem fugir-se das debilidades próprias da condição humana. Especialmente os com- ponentes da cidadania de segunda categoria, a classe baixa da sociedade excludente. A Graça é anunciada em sua plenitude, chegou a libertação na carne humana enfraquecida, alternativa ao desespero das desigualdades, para homens e mulheres imersos na noite escura dos tempos de opressão, que parece nunca terminar (Richard Shaull). Contudo, é preciso dar atenção ao sentido vocacional que o Evangelho imprime ao Batismo do Senhor.

A humanidade de Deus, corretamente compreendida, deve ter o significado de que Deus quer relacionar-se com o ser humano no seu sofrimento. Segundo Karl Barth, Deus quer ter com o ser humano um relacionamento de reciprocidade no Batismo.  De Deus vem a Promessa e o Mandamento, que Emil Brunner chamará de “imperativo divino”: “Ouve, ó Israel… diante de ti proponho dois caminhos” (shemah Ysrae’el). A liturgia do Batismo, então, celebrará corretamente a intervenção e a ação de Deus em favor do homem e da mulher, no batismo sacramental (nos ritos mais antigos, eram pronunciadas as perguntas do compromisso diante da pia batismal: “Renuncias ao diabo e suas artimanhas”?). 

Aqui, além do mais, está a força teológica da encarnação, entre os grandes mistérios da fé. O Batismo significará um compromisso de comunhão que mantém o batizando humano, enquanto Deus quer tão somente expressar-se em liberdade, a gratuidade que lhe é característica, na qual ele não quer nada mais nada menos que ser “humano” (K.Barth).

Mateus 3,13-17 – O Batismo de Jesus, relatado por Mateus, consta como uma dificuldade técnica de redação e sentido que necessita ser deslindada. São duas seções: o encontro de Jesus com João Batista (13-15), e a teofania, manifestação de Deus que se segue na narrativa. A teofania tem o caráter profundo de modelos apocalípticos e sapienciais escriturísticos. Como se observa na primeira leitura litúrgica deste domingo, existe uma tendência para assinalar como definitiva a vocação de Jesus pautada no Servo de Yahweh (Is 42), não há dúvida.

 

A vocação divina, mais que uma vocação profética, é construída sobre modelos apocalípticos, uma abertura do céu, e graças a ela uma Palavra definitiva produz, ao mesmo tempo, uma nova Criação. A criação mais recente, como em Gn 1, torna o Espírito presente (rûah) em forma de “uma ave pairando sobre a Criação” (parece-me que há um testemunho rabínico da mesma que fala também de uma “pomba”, como neste texto de Mateus; é preciso confirmar, no entanto). Também a literatura sapiencial da Bíblia Hebraica mostra a capacidade de uma intervenção divina para se realizar o intento divino de humanizar-se; de querer ser como o/um homem, através de outras atitudes e de outros conhecimentos. [Obs: Este substantivo, no NT, também se apresenta como batisma, batizo e bato; derivado da raiz “batis”, o qual pode ser traduzido por “batizar”, “imergir”, “banhar”, “lavar”, “derramar”, “cobrir” ou “tingir”].

 

Então, em Mateus se trata de “uma nova criação”, a mais recente, que se realiza em Jesus de Nazaré. Deus humaniza-se no batismo de João. É assim que os seres humanos podem adquirir as “características do novo ser humano”. O Batismo bíblico é sinalização dessa mudança. Dessa forma introduz-se um conceito novo de messianismo, remontando-se também ao tempo dos discípulos do (Segundo) Isaías (no exílio babilônico). Segundo ele, o Messias de Deus compartilha solidariamente a debilidade, vulnerabilidade e fraqueza, da condição humana.

 

É a total coerência com essa condição: “Deus conosco”, humano, que habita no meio de nós, do princípio ao fim (Mt 1,23 e 26,20). Esta alusão ao Servo sofredor nos coloca diante de um projeto denominado: “o Messias (Cristo) será luz das nações”, surgido ainda nos tempos babilônicos. A parte anterior do relato neotestamentário serve para colocar em relevo a divergência que existe entre a concepção messiânica e todas as outras formas de messianismos. Sob as diversas atitudes de João e de Jesus a respeito do batismo do nazareno, também desponta uma concepção do Reino de Deus. Diferente das outras, sim, como função do Messias, em particular, nos pontos:

 

1. O movimento do Batista via a instauração do Reino como a chegada do Juízo de Deus. O ser humano pecador devia ter em vista a irrupção do reinado divino como uma dinâmica de “purificação” na qual o Batismo assumia um papel de suma importância, quando recebido. A intervenção divina, assim, se levava a cabo graças à ação do Messias, com exceção das debilidades próprias da condição humana. Devido à surpreendente reação de João diante de Jesus (v.14): “vens a mim, se sou eu quem necessita que tu me batizes?”… fica claro que João Batista concebe o Reino e o Messias a seu modo. A continuação do relato esclarece suas opiniões: a atenção sobre o juízo divino desloca-se para a realização da justiça “conforme Deus quiser” (v.15), o Batista submete-se. Assim, a atenção sobre a realização dessa justiça se desloca para o momento presente.  Se o homem sofre, Deus sofre com ele; se o testemunho (martyria) ocasiona a morte, também Deus morre para testemunhar o valor do seu Reino.

 

2. A entrega incondicional (Batismo!) só pode fazer-se por meio do Espírito do Deus solidário que compartilha a dura condição de todos os que sofrem em conseqüência do “espírito diabólico” que reina e que oprime os seres humanos (cf. o comentário acima, sobre Atos 10).  E o evangelista João completaria: “a Palavra se fez carne e habitou entre nós”. O logos é também davar*. Com a justiça tudo tem sentido, porque a Palavra penetra e é ela que cria os meios, as ações que libertam consciências Assim se experimenta o verdadeiro sabor da vida de fé e da liberdade em Cristo. A Escritura está subordinada ao testemunho dos apóstolos sobre o Batismo, não à letra morta (catecismo) da Lei. A Palavra viva concretiza o testemunho da Bíblia, finalmente.

 

BATISMO DO SENHOR – ANO “A” [Tempo Comum depois da Epifania] 

Isaías 42,1-9 – És meu filho, fui eu que te gerei

Salmo 29 – Sobre as águas ouve-se a voz do Senhor

Atos 10,34-43 – Ele tem autoridade para atuar em favor dos oprimidos

Mateus 3,13-17 – Realize-se a justiça conforme Deus quiser

 

*[Nota: Não devemos nos esquecer que o ‘logos’ corresponde a ‘davar’, na Bíblia, assim compreenderemos os sentidos: a teologia de João reflete o pensamento de um hebreu, pensa na tradição escriturística da Bíblia Hebraica e conta com os reforços do Thalmud, insurgindo-se contra a escritura legalista regimental da religião inaugurada depois do exílio babilônico. Ali, reagindo às imposições da religião – ou legalismo deísta ao estilo do escolasticismo da ortodoxia no Iluminismo – o logos bíblico dá forma e consistência a todas as coisas; é ‘davar’, significa “promessa”, “esperança”, “ordem”, “mandamento”, “conselho”; e continua a definição bíblica: ‘davar’ é a palavra que provoca um acontecimento, um fato, uma ação concreta; ‘davar’ é também “uma causa”, “um motivo”, e bem poderíamos dizer que ‘davar’ é a palavra que torna perceptível a chegada do Reino, a causa de Deus representada em Jesus Cristo].

 

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