jesus sermão montanha (3)Das coisas que permitem ver e sentir a infinita generosidade de Deus para com seus filhos e filhas, a vida de Jesus de Nazaré exemplifica com atitudes e comportamentos que fazem presentes o que é a providência divina no sentido da Graça, a vida bem-aventurada em abundância. Certamente sem ganância; sem pretensões exibicionistas de “conquistas”, vitórias por consagrações, méritos funcionais, pagamentos de promessas para a retribuição de Deus. O evangelho de Mateus nos apresenta a delicadeza de Deus, a ternura com filhos e filhas, na oferta da Graça sem apontar retribuições consequentes. Podemos chamar a ofertada Graça como Providência espontânea de Deus! O exercício da fé é também um encontro com um Deus provedor que não abandona seus filhos e filhas. Disse Jesus: “se vocês que são perversos socorrem seus filhos, quanto mais o Pai de vocês – Pai dos céus e das bem-aventuranças – lhes dará coisas boas” (par. Mt7,11).   

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Outro ponto é a crença que Deus “deve intervir nas leis naturais”, apagar o sol escaldante, trazer a chuva às secas;impedir terremotos, maremotos, tempestades, inundações e epidemias, não se importando com as vítimas que sucumbem aparentemente “sem fé”. Perguntas seriam feitas, também, sobre a ausência de Deus no apartheid,África do Sul ou EUA.
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Essa crença nos faria perguntar sobre a ausência de Deus em Auschwitz, Gulag, Bósnia; nas guerras civis e lutas em Ruanda e Barudi, na África, por exemplo; no massacre em Juazeiro, Bahia; Carandiru, SP; nas chacinas na Candelária; em Corumbiara, o massacre nos presídios do Norte do Brasil, sob a responsabilidade de governos brasileiros. Outras perguntas seriam feitas: por que Deus não impede a existência de um Hitler, um Stalin, um Garrastazu Médice, um Pinochet, um Bush, e tantos exterminadores da espécie humana?
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Vai além da capacidade que nos é dada, lidar com assuntos tão complexos. Vem dos púlpitos, a exploração do medo e das perplexidades do imponderável. Antes de ser um problema para a razão utilitária, que busca a providência programada, seletiva, para os que crêem, o mal é uma questão posta pelo desespero dos homens, em infinitos clamores sobre o sofrimento no mundo (J.Bosc). Não há respostas fáceis, como não há explicações satisfatórias sobre o sofrimento, a não ser o concreto, visível, das desigualdades, dos preconceitos e discriminações entre os homens. Porém, há a salvação do sofrimento, dentro da existência humana.
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Dietrich Bonhoeffer, contrariando a crença comum num Deus imparcial, insensível ou isento, imune ao sofrimento dos homens; que permite a luta entre irmãos, a dor, a doença e a morte, disse: “só um Deus que sofre conosco pode salvar-nos”. De nós mesmos, da razão instrumental, política, ou do progresso tecnológico como privilégio para alguns, apenas, nas crenças que arbitram sem autorização a intervenção de Deus seletivamente.
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Definitivamente, para escalar a degradante vertente do instinto, ou dos atavismos da violência, ou seja, a resposta do ser humano, tudo isso se põe na fatura cobrada do credicard da religião bancária que financia as bem-aventuranças e cobra juros, além do principal. Colocamos Deus como fiador imaginário de uma dívida, da qual poderíamos nos livrar por nós mesmos, com novos créditos divinos. A profunda falsidade desta visão se mostra claramente.A presença de Deus aparece como salvação, e nada mais do que salvação. Como amor sem reservas e gratuidade puras. Deus não agrava a vida humana, já difícil e dura por si mesma. Também não suprime as dificuldades do viver humanamente, num mundo sem piedade, nas rejeições à compaixão, à gratuidade, ao próprio anúncio da salvação no sofrimento.
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Nem nos exime da luta contra o sofrimento e o desespero. A livre responsabilidade continua sendo a essência da vida em fé. Mas o homem que crê sabe que não está só, no exercício de sua liberdade. Sabe que Alguém o acompanha – Energia maior do que todas as forças do caos –, enquanto experimenta no contato com Ele a “coragem de existir”. Ou, a coragem de ser cristão (João Dias de Araújo).
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A Providência pretendida na materialidade – pragmatismo e objetividade dos bens econômicos; na vida consagrada exigente de retribuição; na expressão e exibição de bens alcançados na bajulação interesseira, de Deus; nas pressões da “oração de poder” a um “deus ex-machina” –, é resultado da vida ímpia, como no discipulado da ganância.
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A revelação de Deus, tal como se nos mostra em Jesus, permite desmascarar o equívoco mais grave e transcendental: o da isenção ou indiferença de Deus. Uma imagem de Deus e da vida de fé com “provações”que vêm sobrecarregar a vida dos homens e das mulheres. E se não passamos na“prova”, que acontecerá conosco? Perderemos a salvação? A fé na Providência deve ser reformulada, especialmente no anúncio da Graça, bem-aventuranças gratuitas, quanto à desprezada intervenção solidária de Deus no sofrimento.

8o. Domingo do Tempo Comum depois da Epifania – Ano A
Isaías 49,8-16(a). Salmo 131; 1Coríntios 4,1-5; Mateus 6,24-34

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