QUARESMA: TEMPO DE TIRAR AS MÁSCARAS

Derval DasilioO Brasil é um país tropical, como diz Jorge Ben Jor: “abençoado por Deus, e bonito por natureza.  Mas que beleza…!”. Passou o Carnaval. De fato, somos brasileiros, e com tudo que há de diferente entre nós, comemos feijoada, muqueca capixaba, acarajé, churrasco, pato ao tucupi, tambaqui… e “dançamos”, literalmente dançamos o ano inteiro. No resto do ano tem forró, rock, funk, gospel, e somos católicos, protestantes, evangélicos, candobleístas, espíritas, graças a “deus”. Continuamos dançando. Um paraíso! Mas só para os que acreditam nisso. No entanto, não despregamos o olho das divindades que comandam esse modo de agir, culturamente, aquelas que vagam em outros domínios espirituais e dirigem os sistemas de pensar.                                                                                     

Enquanto alugamos nossas mentes para a religiosidade que vê os males do mundo como castigo divino, ou intervenções sobrenaturais do diabo; que vê com naturalidade a legitimação e consolidação do poder dos fortes, das desigualdades, das fraquezas dos empobrecidos, não entenderemos a religião como expressão de sofrimento real; que a religião pode ser protesto contra as dores impostas por modos de pensar conformados com as opressões.  As tentações diabólicas contra democracias solidárias e utópicas, entremeiam a vida, com a ausência da esperança por um mundo novo e melhor (Mt 4,1-11).

A religião  poderia ser o suspiro das criaturas oprimidas, inclusive nas manifestações populares. Mas, também, pode refletir um modo de tornar as pessoas submissas aos modos de pensar, como se vê, também, no Carnaval.  Chico  Buarque sugere: somos um povo de “mascarados… amanhã tudo volta ao normal; deixa o barco correr, pois é Carnaval”.

*Se admitirmos a religião como parte do coração de um mundo sem coração, espírito onde não mais se admite espiritualidade e transcendência,  estaremos endossando o pensamento que coloca a religião como uma ilusão (Sigmund Freud), ou como o ópio do povo (Karl Marx). Não é essa a religião dos profetas, na história do povo bíblico, certamente. Todos os argumentos contra isso serão mistérios sob desígnios insondáveis, e toda a miséria, opressão, injustiças, serão o corolário da virtude de uma “paciência evangélica”, na espera da salvação das almas, porque o corpo… ah, o corpo, já era! E os poderosos continuarão a usar as mesmas palavras para oprimir o corpo: … “o sofrimento sempre existiu; a guerra e a rapina, a destruição da natureza, são justificadas, pelo progresso”.

Mas, 4/5 da humanidade ainda não viram medicina de ponta, tecnologias para saciar a fome de 2 bilhões de habitantes do planeta, urbanização e habitação humanizada, entre as conquistas  dos últimos 100 anos. Em contrapartida, dos 7 bilhões de habitantes do planeta, entre as pessoas mais ricas,  1 % dos habitantes controlam e concentram as riquezas provenientes do progresso tecnológico desigual  para o resto da humanidade. Da população brasileira, 10% ganham por mês o equivalente a metade de toda a renda recebida pela totalidade dos brasileiros. Os mais ricos levam 44,5% de todos os rendimentos da população, somados. Como pode a religião considerar-se equidistante, sem compromisso com o destino do planeta e dos que nele habitam?

Não se sabe o por quê, mas compreende-se porque “salvam” os interesses dos  quais a religião abre mão, se bem que nem tanto, e nem todas as vezes. O vil metal, interesses comuns em todas as línguas e em todas as culturas, comandam as festas dos ricos e dos pobres.  Mas contamina também o novo cenário religioso, onde anjos servem à lógica do mercado. Nunca vimos tantos evangélicos presos por corrupção, ou em prisões comuns, como nos últimos anos.

*Além disto, fica claro que os textos propostos na liturgia deste domingo estão sempre à disposição para uso livre. São como uma poesia ou uma imagem simbólica: cada comunidade é livre de abordá-los a partir do ponto de vista que preferir, e é quase impossível que dois cristãos, dois biblistas, ou professores da escola dominical, encontrem a mesma ressonância diante de um mesmo texto. Cada um terá orientações e sugestões de ação diferentes. Com isso não queremos dizer que nossos pregadores e liturgistas se transformem em animadores de auditório, para obterem reverência a si mesmos, mas que estejam mais atentos à palavra bíblica, quanto à autenticidade teológica cabível (cf. texto exegético abaixo).

*“Que farei, pois? Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento; cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento” (1Co 14,15). Nossa tarefa, enquanto responsáveis pela continuidade da tradição litúrgica da Igreja, se estende aos tempos atuais? Nesse caso, torna-se necessário manter as orientações que nos vêm desde o princípio da Igreja, histórica e teologicamente. Uma ideia importante sobre o Culto Cristão é que o Espírito Santo permanece agindo no tempo litúrgico. É ele que nos faz reconhecer a presença de Deus na comunhão dos fiéis. Qualquer coisa que contrarie a isso, de fato, nos desviará do ensino bíblico sobre o culto. O culto é o testemunho vivo da fé da Igreja de Jesus Cristo, pela presença do Espírito Santo.

*Mateus 4,1-11 – A tentação é uma advertência que todos devemos levar em conta. Há um cuidado em apontar que Israel (o bíblico, antigo, e não o atual Estado agnóstico e ateu, discriminador de palestinos, árabes e asiáticos vizinhos) teve que sofrer as dolorosas consequências de sua infidelidade e inclinação aos ídolos, Jesus, por sua vez, triunfou sobre a tríplice tentação. Göethe, no Fausto, mostra o homem, o ser-humano, que vende sua alma a Mephisto, o diabo. Mateus mostra Jesus fazendo o contrário, convidando-nos a seguí-lo. Custe o que custar.

Cf. Comentário abaixo:  Mateus Mateus 4,1-11 .

[Derval Dasilio, Evangelho de Mateus, Teologia e Culto Cristão, 2014, Fonte Editorial – em preparo].

 

 

 

 

 

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