QUARESMA: UM ENÍGMA NA SINAGOGA

Derval Dasilio“É preciso crer, sim. É correto que ninguém conseguirá ouvir ou ver, ou falar teologicamente a não ser como pessoa libertada para a fé” (Karl Barth).                                              —————————————————————————
Na parede da memória, essa lembrança é o quadro que dói mais./ Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo que fizemos,/ Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais. / “Nossos ídolos ainda são os mesmos,/E as aparências não enganam não”. /[…]Você pode até dizer que eu estou por fora,  /Ou então que eu estou inventando./É você que ama o passado, e que não vê que o novo sempre vem./Hoje eu sei que quem me deu a ideia de /Uma nova consciência e juventude, está em casa guardado por “deus”, /Contando vil metal. Minha dor é perceber que /Apesar de termos feito tudo, tudo que fizemos, /Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais (Belchior).
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O diálogo com Nicodemos altera a lógica comum do evangelho joanino: diálogo e testemunho sobre a fé autêntica. Nicodemos respeita Jesus, mas se encontra dependente da primeira discussão, a “fé” que procura milagres. A “fé” que exige sinais não corresponde à fé num mundo novo possível, sob o governo de Deus. E Jesus propõe uma mudança radical, não um novo conceito de renovação da fé. Não uma renovação, mas uma inovação: começar tudo do zero! Do nada. Desaprender o que nos passa o catecismo! Nascer de novo. Começar como um nascituro, abraçar uma natureza nova (natus, nascido procede de natura, no latim). O tema se desloca para “razão” e “fé”. Nicodemos quer conversar logicamente, no uso da razão, do argumento e da prova, está em pauta a gnosis, o conhecimento humano. A salvação pelo conhecimento.

Não é possível, diria Jesus. É preciso desmontar a doutrina vigente, racionalizada, parafuso por parafuso, e construir tudo, de outra maneira.  Para compreender o Deus desafiador, imprevisível, irônico quanto ao saber humano, enquanto “acha” que pode definir o princípio e o fim da história humana, é preciso rasgar os projetos, chutar as latas de lixo doutrinário, e debruçar-se de novo sobre a prancheta, e ouvir sobre um futuro libertador. O Deus de Jesus está sempre fora do lugar que queremos (u-topos). Ele habita nos sonhos de liberdade e convive com quem imagina ser possível um mundo novo: “vejo vir vindo no vento, o cheiro da nova estação…” (Belchior).

Estamos discutindo sobre os graus de intensidade e estabilidade da fé (João 3,1-17). Uma fé incipiente, primária, pode ser dominada pela necessidade de sinais, milagres. Nos aspectos externos, pode parecer que estes apresentam segurança. Mas a questão permanece: se faltam sinais e milagres, o que sobrará dessa fé? O pastor pentecostal, desafiando Deus a realizar o milagre da prosperidade dirá: “se não fizeres, és incompetente”… Superficialmente, a autenticidade irrompe na discussão. Internamente, o eixo se desloca para a insegurança e a deficiência destes, uma vez que falta o essencial, que é a “confiança interior plena” (emmunah; pisteuo). “Deus não vê como os homens, estes vêem a aparência. O Senhor vê o coração”, isto é: Deus vê o íntimo do homem e das coisas (Pr 15,11; 1Sam 16,7; Sl 139,1-4).         

Nicodemos não parece um hebreu nato, e sim um gentílico afeito às categorias do pensamento dos antigos gregos. João retruca como um bom hebreu: Jesus discorre sobre as questões que se referem à origem da vida, o que há de mais fundamental pertencente ao homem, o ser-humano.  Perguntas importantes, implícitas, ou subentendidas: “O que eras antes do nascimento? Qual o lugar de onde tu vens? Que fazes, agora, para dar sentido à tua origem?”.

Importa não paramos os questionamentos sobre o sentido da vida, desde o primeiro sopro. Conhecendo as nossas origens, os lugares existenciais desde o início, inevitavelmente conheceremos nosso fim e quem somos realmente (Pois ele conhece a nossa origem, sabe que viemos do pó – Sl 103,14). Portanto, é “necessário nascer de novo!”, é preciso tomar uma nova consciência. Paulo dirá de outra maneira, do mundo principial: “O mundo tal qual vocês o veem está em via de desaparecer… ”.  A razão diz que o homem está só no universo, pode apenas contar consigo mesmo. A fé, no entanto, dirá que há um Tu, um Deus solidário e dialogante, que perpassa nossa existência, constantemente.

No portal da eternidade está escrito um nome: Deus, Energia presente no universo, muito além e muita acima das realidades sujeitas às ilusões do conhecimento empírico. Algo que só a fé e o amor percebem. Todos os seres vivos podem testemunhar esta Energia criadora. Os pássaros cantam ao amanhecer, os grilos e as cigarras no entardecer. Oram, em exaltação de bem-estar e reconhecimento agradecido pela existência (Nilton Bonder). Os Salmos falam desse Deus: “Tudo que é vivo exalta o Criador”! Aqui está, praticamente, uma discussão rabínica, dirigida ao Thalmud ou à Torah: “be-reshit” e “en arché”, no princípio! Uma entrada no mundo temporal. Mas há algo de novo no recomeço de nossos atos, na origem dos pensamentos, de nossas sensibilidades quanto aos sentimentos de estar-no-mundo? O que existe no começo de uma nova pulsão, de um grito de angústia, de uma reforma no ser primal? O que existe no começo de uma nova utopia, de um sonho novo, um devaneio libertário (Bachelard)? 

A proposta de Jesus a Nicodemos é radical: ver tudo de novo, desde a origem, coloca-nos em uma situação peculiar diante da vida. Fraternidade, solidariedade, cuidado, partilha, substituem o individualismo, a desconfiança em relação aos outros, a indiferença, o desprezo ou o abandono do outro e da outra. A ignorância do próximo e do distante.

Jesus responde rigorosamente à objeção de Nicodemos. Tão comum em tantas culturas: argumenta sobre a “água”, seio materno da criação, fonte de vida, água batismal. Porém, água fecundada pelo Espírito, nos escritos bíblicos. A figura do ventre materno (voltar ao ventre e nascer de novo), também comum noutras culturas não-bíblicas, na tradição apostólica, evocará a feminilidade criadora da mulher (no Gênesis, o Espírito é “ruah”, que no hebraico é uma palavra feminina; a água que abriga a vida , ventre criador de Deus tem atributos femininos e maternais…). 

Também a mulher que gera é como um poço ou manancial (Pr 5,15 e 18; Cantares 4,12 e 15). A função do Espírito (ruah) é essencial, justifica o paralelismo água/espírito/fertilidade. Desde o Êxodo, ainda no exílio, a função “principial” do Espírito é uma indicação de liberdade criadora. Quem nasce desse Espírito/Vento novo, experimenta o que Edu Lobo ensina na canção: “… o vento vira e, do vendaval, /Surge o vento bravo… / Como um sangue novo, / Como um grito no ar /Correnteza de rio / Que não vai se acalmar…/ Não vai se acalmar!” Enquanto a Criação for humilhada; enquanto houver opressão, desigualdade, no mundo criado, não haverá respostas suficientes para o descontentamento de Deus. 

[Derval Dasilio, Evangelho de Mateus, Teologia e Culto Cristão, 2014, Fonte Editorial – em preparo].

SEGUNDO DOMINGO DA QUARESMA – ANO A (2014)
Gênesis 12, 1-4a –  Vocação de Abraão, pai do povo de Deus.
Salmo 121 – O Senhor guardará a sua entrada e a sua saída…
Romanos 4,1-5;13-17 – A fé é uma história nova a cada dia
João 3,1-17 – Novo nascimento, um novo começo

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Gênesis 12, 1-4a –  Vocação de Abraão, pai do povo de Deus.

Salmo 121 – O Senhor guardará a sua entrada e a sua saída…

Romanos 4,1-5;13-17 – A fé é uma história nova a cada dia

o 3,1-17 – Novo nascimento, um novo começo

 

 

 

 

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