ÁGUA PARA OS DESERTOS DO NOSSO TEMPO

O que se espera do mundo, antes que se destrua o planeta? O chamado de Jesus à samaritana evoca a força libertadora por parte de Deus. A criatura ameaçada, porém inconsciente, deve ouvir o grito da vida, e abrir-se para a chegada do Espírito. Luto e expectativa de ressurreição colocam-se entre os gemidos da natureza. A hibernação da morte e a espera da primavera se juntam na esperança e na fé.

******************************************************** jesus e a samaritana

Por respeito ao público ouvinte simples, literalista, é conveniente recordar com clareza que não estamos lendo simplesmente a narrativa de um diálogo banal, tal como foi, mas que se trata de uma sofisticada composição teológica, semiótica, joanina, com intenções mais profundas, e, às vezes, difícil de detectar. Exige-se prudência exegética e hermenêutica. Aonde temos que adorar? Em Jerusalém ou em Garizim?” Nenhuma religião reúne as exigências de representação do Reino de Deus. Nem o templo de Jerusalém, nem os lugares que freqüentariam os dissidentes do judaísmo. “Adoradores em espírito e em verdade” é uma resposta revolucionária: as religiões (todas) são relativas. Não há nenhuma que seja absoluta. Nenhuma ocupa o primeiro lugar, na preferência de Jesus. A única adoração absoluta é a “adoração em espírito e em verdade”.  Ao Deus da vida, Eterno, onde quer que for lembrado e reconhecido.******************

Agora, Jesus diz à samaritana – que hoje seria comparável a alguém de religião afro-brasileira – do culto recusado pela religião oficial. “Eu tenho a água verdadeira (údor), a outra ‘água’ não mata a sede… (údatos toûtou)”. No início de cada comentário de qualquer texto do evangelho de João, é bom recordar o estilo literário e simbólico inteiramente peculiar. Ele é um hebreu, pensa como um israelita bíblico. A conversa, aqui, é sobre a eternidade!, não na concepção grega. O entendimento requer uma localização nas raízes da linguagem e cultura do Antigo Testamento. ***********************************************
“Água para irrigar desertos humanos”, sugere o texto. O profeta Ezequiel, associando a água paradisíaca do “rio da vida” – entre os símbolos da eternidade – que leva à cidade santa, já ressaltara a importância da água: a água derramada pelo Senhor transforma os desertos, faz brotar a vida. A água provém da “Fonte de água viva” (Jr 2,13;17,13). Água de vida contínua, crescente, eterna. Mas é também a água que  irrompe em enchentes sobre terras secas, fazendo brotar plantas, produzindo um jardim maravilhoso de mil cores e perfumes. O Éden é restaurado. Com a água da vida… **********************************************************
Água, alimento e remédio para corpos enfraquecidos pelas doenças, pela fome ou por carências alimentares impostas econômica e socialmente, nas desigualdades e na exploração da Terra. E o paraíso bíblico, utópico, é alcançado pela Água, no Gênesis. Nas regiões mais áridas, desertos, as fontes de água viva fazem renascer prodigiosamente uma nova criação. O rio da vida atravessa o Éden de lado a lado. Quando a água doce (apsu) vence a água salgada (tehom), que não produz vida, e onde habitam criaturas perigosas, inimigas da vida, a morte será afastada por causa da presença da Água. Os frutos das árvores irrigadas pela fonte da vida alimentarão homens e mulheres, e todas as criaturas, enquanto suas folhas serão medicinais, podendo curar facilmente as doenças existentes.*
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Na cultura caribenha, latino-americana, brasileira, através de significados que não se extraem somente da escravidão, retorna a Água, evocada no que não se pode expressar exteriormente. Os mares serviram ao tráfico negreiro (Castro Alves). Porém, no “patoi” das plantações, nos nomes e nas palavras, e frequentemente conectada em suas taxonomias, identificando plantas e produtos agrícolas; na secreta estrutura da fala comum; nas histórias contadas às crianças, na designação das fontes e no culto das cachoeiras; na prática religiosa e nas crenças; na vida espiritual e nas artes, no artesanato, na música e nos ritmos da escravidão e da sociedade pós-emancipada, lembrando Leslie R. James, aparentemente silenciada, a Água permanece na memória e na experiência da escravidão como uma força libertária, em toda parte. **********
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No começo de toda experiência de salvação divina está um clamor da criação: Deus dá ouvidos ao clamor das profundezas, os gritos da terra aflita. Conduz seu povo da servidão à liberdade da terra prometida. Deus conduz o seu Cristo da morte à vida do mundo vindouro, pela ressurreição. Do mundo destruído deste planeta eleva-se hoje a Deus o gemido de todas as criaturas que querem viver e, apesar disso, têm de morrer: “A criação inteira geme (conosco) ainda agora nas dores do parto” (Rm 8,22). Ela sofre sob o poderio do tempo e morre sob o império da morte, clamando pela presença do Deus eterno, na qual possa viver e persistir (Jürgen Moltman). *****************************************
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A natureza da terra hoje está sendo cada vez mais submetida ao domínio e à exploração pela civilização humana. A libertação da natureza, e da dominação violenta das pessoas que comandam impérios econômicos (elas comandam e comportam 90% das riquezas e capitais do planeta), constitui um lado do clamor das profundezas, por vida. A eternidade das matas e dos bosques, violentados pela finitude associada ao pragmatismo de quaisquer tecnologias, apontam a opressão do tempo que gera a morte. A destruição da natureza é acompanhada, pari passu, pela destruição de culturas e povos. ***************
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As demandas da fome que exigem alimentos e energia crescem, no entanto, com a mesma rapidez com que as reservas decrescem. A multiplicação da população parte predominantemente de países do terceiro mundo (somos 7 bilhões, e chegaremos a 10 em menos de 20 anos), faz-nos lembrar da Fonte da Vida. E da Água que sacia todas as sedes. ***********************************
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A Água, como Jesus ensina, é relacionada ao que há de mais sagrado: a vida, o mundo, bem como o profundo mundo interior de cada um de nós. A água é também plenitude, eternidade, abundância incessante, vivida sem ameaças de conflitos, paz, relações justas entre pessoas e povos, inclusive no meio do povo eleito. A água é símbolo daquilo que dessedenta quem tem sede de Deus (…tal qual o cervo brama pela água, minha alma tem sede de Ti, ó Deus! – Sl 42,1). É também dessa água que fala Jesus, no seu encontro com a samaritana: “Quem beber da água que eu lhe der (údor), jamais terá sede; a água que eu lhe der será nele uma fonte que jorra para a vida eterna” (Jo 4,14). *****************
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[Derval Dasilio, Evangelho de Mateus, Teologia e Culto Cristão, 2014, Fonte Editorial – em preparo].

TERCEIRO DOMINGO DA QUARESMA – ANO A (2014)

Êxodo 17, 3-7 – Dá-nos água para beber
Salmo 95 –  Uma “quaresma”, quarenta anos de infidelidades no deserto
Romanos 5, 1-2,5-8 – O amor foi derramado como água em nós, pelo Espírito
João 4, 5-42 – Uma fonte de água que jorra para a vida eterna

 

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