ENCURRALADOS NUM MUNDO SEM COMPAIXÃO
João 9, 1-41 – O cego lavou-se e voltou enxergando
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É curioso é que a meditação profunda nos revele algo do olhar de Deus: Jesus  não se fixa nas aparências, diz o texto bíblico. A razão diz que o homem está só no universo, pode apenas contar consigo mesmo. A fé, de outro modo, dirá que há um Tu, um Deus solidário e dialogante, que perpassa nossa existência, constantemente. Não estamos sós na imensidão do tempo. Deus vê o fundo da alma e até as profundezas do coração.
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Conhece as intenções mais secretas, os sinais externos de grandeza não o enganam, nem os aspectos físicos, beleza ou feiúra, saúde ou enfermidade, normalidade ou deficiência. Máscaras aparentes e cotidianas com as quais nos apresentamos. Os cegos poderão andar, surdos ouvir, entrevados agir. Deus  escolhe por puro amor, sem mérito algum de nossa parte, sem que importem, para tanto, aparência ou qualidades de quaisquer tipos. Conhecendo nossas enfermidades, deficiências, fraquezas, limitações, Deus se dignou chamar-nos à sua Graça e ao seu Amor. Orar é reconhecer quem somos diante de Deus, enquanto nos submetemos às tarefas do Reino.
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fazer ver de novoSomos cegos, surdos e entrevados? Quem somos? Somos ao mesmo tempo o velho e o novo, na verdade. Sempre comparecemos na vida como sapiens e demens, sábios e dementes, orientados e desorientados, confiantes e desesperados. Poucas vezes somos generosos, compassivos, ternos e cuidadosos com o outro e a outra. Na maior parte do nosso tempo, somos seres egoístas, homens e mulheres de “visão”, “perspicazes”, “dinâmicos”, que se justificam com direito de disputar seu espaço a qualquer custo, disputando lugares privilegiados, como que envolvidos numa questão de direito à sobrevivência.
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Na oração todos os homens e mulheres se encontram, em qualquer religião ou nos credos mais diversos. Diante de Deus estamos cara a cara com o Mistério que alcança todos os seres da Criação. Algo que ninguém tem capacidade de expressar.  E aí somos iguais, e procuramos um caminho libertador. Porque a oração ilumina nossos dramas, e demarca o sentido que precisamos dar às nossas vidas. Não há maior liberdade, mesmo quando devorados por ansiedades e queimados pelo fogo da reflexão sempre dolorosa sobre a condição humana, a nossa e a dos demais. Dizia o poeta orante: “vejo vir vindo no vento, o cheiro da nova  estação”, todos os anseios do mundo serão pacificados na ferida viva do coração angustiado e sofredor.
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Porque todo o tempo de nossa existência é um trilhar peregrino, o percorrer de um caminho sob pressões, tempestades, obstáculos, riscos, perigos de morte. Dramas existenciais. Há barreiras para serem ultrapassadas, horizontes a serem alcançados, porque, como Leonardo Boff diria, somos “um projeto de infinito encurralados no finito”. O salmo diz, inclusive: “O Senhor sabe que somos feitos do pó” (Sl 103,12-14).
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Pela oração choramos, lamentamos, expomos os tormentos que nos tomam, gritamos por socorro desde o profundo interior da alma. Até porque não nos restaria outra coisa a fazer. Aprendemos sobre a compaixão (miserere cordis), sentimento que brota do fundo dos corações; sobre a misericórdia, que é compadecer-se dos desgraçados (misere); dos que necessitam compaixão, trazendo à luz os sentimentos mais nobres do coração (cordis). Pela oração, saímos de nós e nos entregamos à solidariedade, e aprendemos o sentido da misericórdia e da compaixão. Mas, também agradecemos, reverenciamos e nos entregamos por inteiro ao Mistério que nos socorre, que se revela a nós por pura misericórdia e compaixão (hesed = graça).
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É assim que estamos diante de Deus, vivendo em altos e baixos.  Abismos e picos agudos, como se chama o lugar onde nasci (Pontões).  São a nossa geografia espiritual. Tudo isso está em nós. Por isso devemos enfatizar a importância da oração que brota das essências profundas do nosso ser. A oração é que facilita o vôo do espírito. Recebemos asas que permitem voar e tornar suportável os limites e os extremos. As contradições, ambiguidades, polaridades, determinismos, que nos submetem e condicionam no mundo finito.
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A oração nos posiciona num mirante, nas alturas, bem acima dos muros existenciais concretos. Podemos falar com o Autor da vida, orando. Dessa elevação podemos contemplar os abismos, enquanto podemos alcançar os mais distantes pontos nos nossos horizontes. Pela oração, sabemos que “tudo é possível ao que crê”; que um mundo novo é possível, transcendendo nossas realidades e finitudes.  Os cegos vêem, os surdos ouvem e os coxos caminham, sem impedimentos.
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Mas, custa-nos aceitar as extremidades. Por exemplo, a morte, as limitações do tempo e do espaço. A finitude. Precisamos diferenciar aquilo que é finito, provisório, e separá-lo das coisas infinitas e eternas. A morte traz os ventos e os cheiros da nova estação, como o perfume das rosas de abril (Dorival Caymi). Nossos parâmetros de sobrevivência, pessoais, não mudarão o futuro do ser humano e a do universo. Mas a oração nos ensina sobre ressurreições, porque nela exala o cheiro brotado das flores novas que geram frutos, dos frutos que geram sementes, das sementes que geram árvores. E das árvores que geram novas florestas e matas, nos sinais da eternidade. Relação que podemos retirar da leitura sobre a fé e o novo modo de ver a vida, no Evangelho. Como símbolo “de um novo começo”, para tornar a fé mais significativa, hoje, o texto nos remete ao “cego que tem fé”. Estamos diante do milagre  de uma nova consciência.

No final, as palavras de Jesus nos põem diante de uma escolha: se virmos nele o Filho de Deus, enviado para revelar a vontade amorosa e salvadora do Pai; se estivermos dispostos a adorá-lo, ou seja, se estamos dispostos a segui-lo, a viver conforme o seu Evangelho; se estivermos dispostos a reconhecer nele aquele que tem o poder de revelar-nos, com sua luz, o verdadeiro valor das pessoas e das coisas; de fazer-nos passar das trevas do egoísmo, da soberba e da corrupção, para a luz amorosa do amor de Deus manifestada por Jesus, teremos encontrado a suprema realidade de Deus. Ver, ouvir, agir, são consequências que se esperam desse encontro: um mundo novo é possível… tudo é possível, desse momento em diante. LEIA COMENTÁRIO BÍBLICO  ABAIXO:        [COMENTÁRIO – LEIA MAIS].
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[Derval Dasilio, Evangelho de Mateus, Teologia e Culto Cristão, 2014, Fonte Editorial – em preparo].

4o. DOMINGO DA QUARESMA – ANO “A”
1Samuel 16, 1b.6-7.10,13a – O frágil Davi é ungido rei de Israel
Salmo: 23 – O Senhor é o meu pastor, não me falta nada
Efésios 5, 8-14 – Levanta-te, e sobre ti Cristo resplandecerá
João 9, 1-41 – O cego lavou-se e voltou enxergando

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