NA MESMA SEMANA O POVO DISSE: CRUCIFICA-O!

Neste Domingo de Ramos abre-se a Paixão de nosso Senhor Jesus Cristo. A morte do Messias de Deus nos lembrará um Jesus paradoxal, ao mesmo tempo em que a Igreja (pois pretende ser nela que se encontra o “povo de Deus”), ainda não seduzida e cooptada, tende a absolver Barrabás e livrar a cara de Pilatos? Este, entrará na narrativa como quem não toma partido, aparentemente, mas serve à justiça de quem manda, servindo poderosos da política e da economia, e aos religiosos cooptados. No entanto, este povo e o próprio Pilatos estão no Credo.
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domingo de ramosJesus, o Messias de Deus, morre a morte dos mártires da justiça e da paz, enquanto os crentes do povo oscilavam no reconhecimento do “Deus fraco”, que não promove a redenção de seu povo por meio de sinais portentosos, ou milagres libertários individuais, emocionais ou psicológicos. Jesus não ensinava sobre uma “vida santificada” ou apelava para um “reavivamento” espiritual das pessoas, uma vida santificada para salvarem-se por si mesmas do mundo impiedoso sem justiça. Morre de um jeito não previsto, até ignóbil, enquanto sua vida jovem, todo o tempo dedicada à justiça, é trocada pelo livramento de um ladrão de estradas.
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Teria Jesus morrido por causa de Barrabás ou pela causa de Deus? Assusta a identificação com crentes em busca de livramento, de “avivamento”, hoje, com a sorte de Barrabás. Que cruz, que Cristo e que mundo nos motiva? Alguém quer a cruz dos mártires, ou quer livrar-se dela, na história da fé cristã? Ouvi uma pastora pentecostal dizer, num encontro de educadores teológicos: – “Chega de cruz, precisamos mesmo é de uma teologia da prosperidade e da felicidade…” 

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Jürgen Moltman escreve sobre o caminho messiânico da vida (na verdade um caminho de cruz…) de Jesus: “Pode-se, afinal, reconhecer Cristo sem o seguir até a cruz?” E a questão cristológica permanece sem solução, uma vez que a resposta religiosa agrada à maioria: “Deus, irado com o pecado moral, satisfaz-se com o sacrifício na cruz; o sangue miraculoso derramado na cruz, lava a humanidade convertida de todos os pecados” (John Stott). Pronunciar o nome do Cristo crucificado torna-se uma banalidade recorrente, nos sermões e nas cátedras. Mas a teologia do sofrimento pelo martírio não se dá dessa maneira, pois todos sabemos que o homem de Nazaré foi torturado num calabouço fétido, de todas as maneiras, mal podendo caminhar, já meio morto, enquanto o penduravam na madeira bruta. Porque fora apontado como candidato substituto da dinastia Herodes, que o nazareno nunca assumiu.  

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Um cristianismo anestesiado, sem dor, sem indignação, sem cruz, pragmático e sob oferta constante de resultados materiais imediatos, é a oferta do momento, carismática ou pentecostal. Nesse caso, a mensagem de Jesus, sob sofrimento e martírio na cruz, passa a ser indesejável. Essa mensagem, de violência contra o inocente, impede a felicidade da religião conformada aos padrões do “consumismo sagrado”. A multidão quer um milagreiro à frente de negócios milionários, um mágico, um prestidigitador, um médico comportamentalista, um acomodador oportunista, para a felicidade neste mundo. Se Jesus não faz tudo isso, a multidão responderá, como fez a Pilatos, no plebiscito: “vocês preferem Barrabás ou Jesus?” 
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E aí começa a Paixão, a crucificação do mártir de Deus. O assassinato do inocente. Interessante, “... ninguém segue a Cristo a não ser que o siga na vida”, disse Hans Denk. Por que não está interessando mais aos evangélicos e carismáticos essa proposta original? O Messias, porém, é um personagem público, na Bíblia, volta-se para uma sociedade em sua totalidade, com seus problemas religiosos, políticos e econômicos indissociáveis. Não uma figura religiosa, um símbolo estático, como imagem mental representativa de um deus distante a quem se adoraria por dever de santificação. Negação do Deus de Israel, Deus de Jesus e dos apóstolos, dos pactos, das leis que estabelecem a justiça econômica e social no meio do assim chamado “povo de Deus”; negação da posição de Jesus, dos apóstolos, dos profetas, que reclama justiça antes que sacrifícios cultuais, velas, incenso e adoração interesseira, de fato, conflita com os anseios populares.
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Ontem, como hoje, a religião apreende as lições dos imperadores, transformando o culto em “panis et circences”, que, convenhamos, agrada muito mais aos populares.  É bom refletir um pouco… O exemplo clássico diz que Deus “consente” o sofrimento no sofrimento do Messias e do mundo, e não fala sobre sua origem. Mas, dizem sobre as escolhas humanas. Somos nós, homens e mulheres, que “inventamos” e produzimos o mal e o sofrimento.  A presença do sofrimento é uma constante, com o açoite que intensifica a dor moral da desigualdade, e da sonegação de direitos fundamentais: “É o pão que nunca falta à mesa… onde estiver o homem, ali estará, como uma sombra, o sofrimento” (Larrañaga). Mas, longe de aceitá-lo com naturalidade, entendemos que o sofrimento é inimigo, escândalo atentatório à condição humana, adversário do anseio de liberdade dos homens e das mulheres. Consequentemente, o sofrimento força o cristão a uma dupla tarefa: enfrentar sua crueza imediata e, além disso – se convertido em angustiante problema humano –, racionalizá-lo em busca de explicação.

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Mais uma vez, a responsabilidade é nossa. Jesus Cristo, Deus solidário, esvaziado de poderes sobrenaturais, identificando-se com a nossa luta, percorre conosco o caminho do sofrimento em favor da justiça. “Em tempos passados, invocava-se o nome de Deus como fundamento da ordem política. Mas Deus foi exilado e o ‘povo’ tomou o seu lugar: a democracia é o governo do povo. Não sei se foi bom negócio; o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade. Basta ver os programas de TV que o povo prefere”, declarou Rubem Alves. 
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No Domingo de Ramos, o povo recebe Jesus com festa, estendendo tapetes e flores à sua passagem, como se fora ele um guia espiritual capaz de portentos, milagres individuais, econômicos, emocionais e psicológicos, para salvá-lo. Como se recebe hoje um pregador midiático milionário, prometendo a felicidade anunciada no evangelical show business. Pouco depois, no mais famoso plebiscito da história do Cristianismo, dirá, coletivamente: “Crucifica-o”!
A própria Bíblia aponta a traição do povo. Uma hora acompanha Moisés para uma vida difícil, até a conquista da Terra Prometida. Outra hora entrega seus últimos tostões para construir um bezerro de ouro que seria símbolo de uma prosperidade inútil, sem solidariedade ou partilha. Na Bíblia, o povo e Deus andam sempre em direções opostas. Menino na roça, na infância, evitávamos as moitas e ramos de arranha-gato… O epíteto Domingo de Ramos deveria ter outra denominação: “domingo de espinhos”. Corresponderia melhor à traição de seu próprio povo.
DERVAL

DASILIO

DOMINGO DE RAMOS E DA PAIXÃO – QUARESMA – Ano “A”  (2014)
Salmo 118,1-2;(…) 18-19 –Entrarei pelas portas da justiça, e louvarei o Senhor
Isaías 50, 4-9a – O sofrimento com causa e a confiança de salvação.
Filipenses 2,5-11 – Aniquilou-se, humilhou-se até à morte na cruz.
Mateus 26,14-27 e 57-66 – Paixão de nosso Senhor Jesus Cristo.

 

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