arrmarás o próximo.ℜuy Βarbosa disse: “Precisamos de leis que protejam o meu inimigo. Se elas não o protegem, também não protegem a mim”. Um grande pensamento, demonstrando que nossos adversários, opositores, e até detratores, habitam o mesmo mundo onde nos encontramos. Mundo da coletividade humana. No entanto, o Evangelho de Jesus vai além, quando nos lembra que os limites de nossa existência são demarcados para além das distâncias do meu grupo social ou familiar; para além dos nossos interesses de classe social, de etnia ou nacionalidade; além das escolhas e opções e orientações sexuais, por exemplo.

Jesus diz que não há vantagem nenhuma em amar “iguais”. Aqueles que parecem não merecer amor, respeito, dignidade; adversários, opositores e inimigos, desafiam nosso “orgulho próprio”. A perfeição do amor  é encontrada no Pai, em cuja expressão não há discriminação nem mesmo dos que nos excluem de seu círculo. A “lei de Talião”, no entanto, dirá o contrário: “olho por olho, dente por dente”. A “resposta à altura da ofensa”, vingança, represália, retaliação, contudo, não cabem nos ensinamentos de Jesus. Ao contrário, a justiça, a compaixão, a mise- ricórdia, a solidariedade nas desgraças, marcam o amor verdadeiro, à semelhança do amor do Pai.

O ser, homem ou mulher, é fundamentalmente distinto do ser natural percebido na visão comum, que os vê tão somente como uma parte dos seres naturais. Devemos designar o “ser”, espe- cificamente humano como existência, como ensina Heidegger. E aí o termo “existência” não será entendido como mero “ser”, entre plantas e animais. Mas, como a forma de ser-humano.

O ser-humano tem que assumir sua existência, privilegiado pela liberdade de escolhas e consciência de ser responsável por si mesmo. Amar significa conceder  tempo e espaço à vida do outro. Sem espaços de liberdade, a liberdade individual nem pode desenvolver-se (Jürgen Moltman). Isso significa que a vida humana é história, e faz história. Sua história, por meio de decisões, em cada caso, permite um futuro no qual o ser humano escolhe a si mesmo, e sua liberdade. As decisões são tomadas de acordo com a maneira como uma pessoa entende a si mesma, de acordo com aquilo no qual ela vê a realização de sua vida. Incluem o próximo, seja ele quem for.  O adversário, o opositor, o inimigo, é também um “próximo”.  Mas ele não pode impedir que eu seja livre, inclusive para amá-lo. Devo amá-lo, como ensina o Evangelho. Ele faz parte de minha própria história, queira eu ou não.

Na realidade, se admitimos essa afirmação, a experiência de Deus não deveria ser outra coisa senão a tentativa – magnífica tentativa! – de fazer vir à luz nossas inclinações imediatas, diante da ofensa, da perseguição, desqualificação, ou difamação, da parte de alguém. E, no final das contas, o evangelho afirma que o próprio Deus é amor.  A realidade humana, no testemunho da fé, é amor. Ser “humano” é esforçar-se por viver no amor (Andrés Queiruga). Por isso nos humanizamos quando fugimos do ódio, da ira, da desqualificação do inimigo. Amando-o, nós o humanizamos.

Eis a mensagem do evangelho de Mateus. E mensagem não simplesmente deduzida por artifício lógico, usando a razão, mas expressa, múltipla e infatigavelmente repetida: desde o resumo solene, no  programa e no discipulado de Jesus: – “nestes dois mandamentos consistem a Lei e os Profetas” (Mt 22,40) –, passando pela proclamação entusiasmada de Paulo – “…o maior dos dons é o amor” (1Cor 13,13) –, até as consequências surpre-endentes de João.

João relata a experiência mais íntima de Jesus, situando-nos no caminho justo, sob a condição humana. Num longo itinerário reflexivo, alimentado por uma profunda e calorosa convivência comunitária, tantas vezes difícil, iniciou uma tarefa que nunca deveríamos ter deixado de lado. Nele já está iniciado tudo: o amor, origem da realidade, motivo da salvação, meio da comunhão, fonte da atividade, é critério da vida humanizada.

Porém, a força simbólica e o calor humano permitem entrever magnificamente a força irradiante dessa afirmação fulgurante: “Filhinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas com obras, de verdade…”, sem dissimulações. Desse modo saberemos que estamos do lado da verdade; e diante de Deus poderemos tranquilizar nossa consciência; e isso, ainda que a nossa consciência nos condene, porque Deus é maior do que a nossa consciência, e ele conhece todas as coisas” (1Jo 3,18-20). Por tudo isso, as palavras de Jesus nos desafiam: “Amem os seus inimigos”.

Amar e perdoar, é reconhecer uma abertura infinita, em nós e em quem nos ofende, por isso não se pode reduzir a questão a um virar as costas e ignorar as consequências da ofensa. Perdoar significa libertar o ofensor, o detrator, o perseguidor, de sua dívida. Mesmo quando o mesmo não deseja sair do compartimento em que está preso. Pelo ódio, pela ira, pela pulsão incontrolável de ferir, de matar, de destruir o outro. Amar é permitir que o amor flua de novo, torneiras abertas; é permitir que a generosidade tome o lugar da avareza; que temos de entregar ou repartir o amor que recebemos do Pai. Por isso oramos como Jesus ensinou: “Perdoa as nossas ofensas assim como perdoamos os nossos devedores… e não nos deixes cair em tentação (de não perdoar), mas livra-nos do mal”.

SEXTO Domingo do Tempo Comum depois da Epifania

Levítico 19,1-2, 9-18;
Salmo 119,33-40;
1Coríntios 3,10-11, 16-23;
Mateus 5,38-48

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