PÁSCOA – SOFRER E PARTICIPAR DAS DORES DO MUNDO?

pessachCelebrar a Páscoa é reafirmar a nossa fé na ressurreição de Cristo e na própria ressurreição, e em todos os nossos projetos de justiça. A Páscoa é a certeza de que a Vida vence a Morte. A Ressurreição de Jesus Cristo desmascara todos os mecanismos de violência e injustiça da ação humana e revela a face de um Deus que não se detém ante o pecado humano, mas usa de misericórdia, da restauração ao convidá-lo à conversão ao Evangelho da vida plena.

A Páscoa nos diz que Cristo sofreu nossas dores, para que ninguém mais precisasse ser condenado, preso e sucumbir diante da tortura, da dor e do sofrimento.  A Páscoa nos convida a ser como Jesus e contribuir com Ele no propósito de salvar o mundo e promover a vida para todas as pessoas. A Páscoa nos alerta para o compromisso com a verdade, a justiça e a misericórdia. Contrariando muitas pessoas que se sentem incomodadas com a justiça do Evangelho, a Justiça que restaura relações com o irmão (e a irmã!), com Deus e com a esperança. A Páscoa nos exorta a nos preparar para assumir os riscos do anúncio das Boas-Novas e das denúncias das injustiças, e tomar a nossa cruz, na confiança da presença de Deus sempre conosco. Por mais árdua que sejam as lutas diárias, há certeza de que venceremos com Cristo, escreveu o padre Valdir João Silveira, potencializando a Páscoa Cristã.


No culto evangélico afirma-se, ignorando-se  a Páscoa bíblica  com acentos em altos decibéis, a guerra e vitória certa contra as carências humanas, o sofrimento e o mal, de outra forma. Uma luta que descarta a possibilidade do sofrimento com causa, de fracasso, como o que parte da cruz de cada dia que integra a caminhada cristã; de teologia centrada, no sucesso pessoal do crente, em formas abstratas exibidas ostensivamente; troca-se a fé bíblica no Deus que sofre, aparentemente “derrotado” pelos poderes do Mal, antes da ressurreição, pelo exemplo da prosperidade, saúde emocional e física, “curas” espirituais, e principalmente o sucesso financeiro ou profissional; troca-se o arrependimento por expressões como: “Eu posso, eu alcanço vitória com o Deus Poderoso. Eu mereço, por minha vida consagrada e de santidade”. E, Pelágio exultaria no túmulo histórico a que foi condenado por Lutero, depois de mais uma vez vencer Agostinho em seu acento de difícil defesa da gratuidade divina.

Trata-se de uma teologia que acentua a arrogância espiritual, comparando bem sucedidos de um lado e fracassados do outro. Teologia que cobra veementemente favores pela vida consagrada e pela santidade interesseira, incompreensível diante do exemplo de humildade do Senhor do culto.  O anedotário sobre pastores que “mandam” Deus fazer, abençoar, etc., vai se tornando volumoso. Os liturgos dirigem o louvor imitando-os nos gestos e nas palavras.


É um culto onde o desprezo à comunidade e à coletividade, através aparelhos de som possantes, em altos decibéis, microfones, com os dirigentes, que “comandam” o louvor como um showman da televisão. E o povo, passivamente, faz o papel da “claque”: (– “Repitam, agora, vocês!…”), afirmando-se o individualismo que adotam os adeptos do culto pentecostal gospel, das expressões emocionais e dos gritos de êxtase religioso. Ignoram a comunidade humilhada, normalmente trabalhando com dificuldades de toda ordem; irmãos empobrecidos, doentes, desempregados, deficientes, idosos desassistidos, murchos, fracassados “porque não alcançam vitória pelo louvor…”, porque incapacitados de apresentar os sinais de prosperidade da “vida  consagrada” que o culto pentecostal-gospel proclama.

A Páscoa passa a ter o significado comercial besuntado de chocolate, com o qual empaturramos as crianças, e nós mesmos, depois do obrigatório passeio no shopping center. Moro em frente a um Wall Mart  e uma gigantesca catedral da IURD. Na Semana da Paixão, o primeiro esteve cheio, todos os dias, e o segundo vazio… As famílias preocupavam-se com doces, ovos da páscoa, enfeites onde prevalecem os coelhinhos. Esquecemos que coelhos são criados para, finalmente, ir para a panela.


Em sua teologia egocêntrica, falta a ênfase na evangelização integral, ação na sociedade, de denúncia, na efetividade ética, no compromisso cristão, na exigência de políticas públicas corretivas da violência e da miséria; de cidadania, dignidade social para todos, enquanto omite o Evangelho bíblico da Graça, da misericórdia divina, da compaixão de Deus que alcança o homem e a mulher vitimados pelo sofrimento das desigualdades e opressões espirituais constantes num mundo impiedoso e sem fé no reinado de Deus, e sem esperança de um mundo transformado.


Por desconsiderar as necessidades dos pobres e oprimidos, confrontados com poderes injustos, desigualdades sociais; por adotar a ganância ensinada desde a sociedade civil e agora enfatizada nas “igrejas com propósito”, gananciosas, que desprezam a comunhão dos salvos em favor de sucessos matemáticos e numéricos, não se pergunta: que propósito, além de arrecadar fundos financeiros no culto? Para quê se precisa tanto de dinheiro, senão para locupletar pastores exibicionistas que moram em apartamentos de luxo e mansões nababescas?


É egocêntrica, porque trata com indiferença a teologia profética contida no Antigo e Novo Testamentos. Preferem uma interpretação literal da Bíblia, em citações sem contexto, convenientemente ao que pretendem… Esquecidas, nas aclamações de louvor sem causa, e no conteúdo das mensagens dos animadores e avivados do culto gospel (novos “levitas”), aplicam uma teologia ideológica sem cuidado sobre a vida cristã. Ignoram deliberadamente a essência do ministério de Jesus, anunciando a justiça e a verdade do reinado de Deus sobre a Igreja, baseada na misericórdia do Pai, no despojamento, na disposição da vida de cruz, enfrentando o sofrimento com causa ensinado no Evangelho.

Um ministério calcado na ganância, em favor de ideias materialistas sobre possibilidades salvadoras: “vida íntima de santidade”, sem compromisso social; “vida consagrada” em ministrações de louvor abstrato, porém envolto em bajulação interesseira, distanciado das realidades que a salvação, é um ministério que não confere com os evangelhos bíblicos. Não há, assim — na preferência evangélica religiosa dos dias de hoje –, lugar para Deus, se Ele for o Deus dos humildes, pobres, despojados, esvaziados de riqueza e poder. Evangélicos querem “um deus rico e poderoso”; “deus que me dá a vitória”; “deus de quem eu posso comprar bem-aventuranças”…


No entanto, era motivada, a Páscoa Dominical, no primeiro século cristão, pela reunião eucarística, a comunhão na Ceia do Senhor, todos os domingos! E era só isso, ao que tudo indica. A Páscoa cristã impregna o culto cristão, como tempo litúrgico. A partir do segundo século, o culto tem muito a ver com o calendário judaico, se bem que muitos gostariam de esquecer esse fato, abandonando o AT (Páscoa com os temas do êxodo; o Pacto da Aliança; o Povo eleito, etc.), embora incorpore elementos do judaísmo combatido no Novo Testamento (regulamento de pureza cultual e religiosa, santidade superficial, exclusão da mulher, do estrangeiro, do diferente…).


Estamos falando de liturgia, na Páscoa, não de moralidade farisaica. O judaísmo pré-cristão, também deve ser dito, tem voto favorável de muitos cristãos evangélicos, hoje, apesar da luta de Jesus e dos apóstolos contra a “reta doutrina” da religião dominante. Para esses doutrinadores, Jesus e os apóstolos poderiam não ter sido “bons cristãos”, por recusarem as regras e o legalismo do judaísmo formativo nas restrições ao culto. Felizmente, não foram, e a Páscoa libertária prevaleceu.

Derval Dasilio

[Derval Dasilio, Evangelho de Mateus, Teologia e Culto Cristão, 2014, Fonte Editorial – em preparo].

 

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