IGREJA: COMUNHÃO DE TODOS OS QUE CRÊEM 

eucaristia“A Igreja é humana e pecadora”, diria Karl Barth interpretando o que escrevera Calvino em seu Catecismo. Se muitos pensam que a fé cristã é assunto pessoal, individual, assunto “religioso”, os textos de hoje tratariam de contradizê-los numa espécie de resumo ou de visão panorâmica da vida da igreja, já em seus inícios – dias, meses, anos – depois da ressurreição do Senhor. Poderíamos acompanhar os estudiosos que chamam estas passagens de “sumários” (Atos  2, 22-47), e nos indicam, além do que lemos hoje, outros, como Atos 4,32-25 e 5,12-16, que apontam na mesma direção. A questão do kérigma permanece viva na comunidade de fé (R.Bultmann). A Igrejaé relevante ou curva-se, hoje, como ocorreu em todos os tempos, diante do que ela tem de mais humano e pecador: o ódio racial, a intolerância, a homofobia, o exclusivismo, o alheamento da realidade sócio-política-cultural, sem autocrítica e sem vontade de purificar-se das influências  perniciosas que a acometem, sempre, em todas as épocas?

Devemos concordar com Karl Barth, quando nos lembra daquilo que a Igreja deve representar, em termos do Batismo compromissado, da Comunhão e Hospitalidade Eucarística; da vida profética face às sempre presentes realidades opressoras, cegas, que agem sobre o homem e a criação. A humanidade e o mundo criado esperam por Redenção, pelo resgate divino que o Senhor da Igreja promete e realiza, sacrificialmente.  O Senhor da Igreja é o homem Jesus Cristo, que andou pelos caminhos da terra, sempre rejeitado pelos poderes reinantes, desde a Religião, a Economia e a Política do seu tempo.  O Ressuscitado está presente na Igreja, hoje, ou foi escondido atrás da cortina nebulosa da religião multifacetada dos dias de hoje? 

É nele, o Ressuscitado, que os pecados de todos os homens e mulheres são perdoados; todas as contradições ao Criador superadas. Dentro e fora da Igreja. É nele que se torna possível a reconciliação com Deus e suas intenções salvíficas. Anunciar esse evento é próprio de sua realidade, é agir sob a obediência da fé que movimenta a Igreja e a torna viável, visível, diante das realidades opressoras que parecem reavivar constantemente a força do paganismo idolátrico que se esconde, disfarçado, dentro e fora da Igreja. 

A fé em Jesus Cristo ressuscitado e o fato de termos recebido o Espírito Santo nos incorporam necessariamente à comunidade cristã, à Igreja, que não se reduz, como tantas vezes pensamos e dizemos, ao que se denomina de “igreja visível,” à chamada “hierarquia”, “autoridade dos ministérios”; “autoridade dos conselhos e concílios”, ao abrigo do conceito sociológico ou político.

A Igreja é constituída por todos os que crêem: homens e mulheres de todas as idades, de todas as procedências, que exercem nela diversos ministérios e experimentam diferentes formas de vida, de dons, em diversidade e pluralidade (Karl Barth). Têm muitas coisas em comum, isto é verdade, e é precisamente isso que hoje nos apontava a leitura do livro dos Atos dos Apóstolo.

O ENSINAMENTO DOS APÓSTOLOS E A EUCARISTIA

Em primeiro lugar está a fé comum, “o ensinamento dos apóstolos” (kérigma), o Evangelho, que remonta, através dos apóstolos, às palavras do próprio Jesus sobre o Reino de Deus. Em segundo lugar, a comunhão de bens, característica bem chamativa da comunidade primitiva (koinonia), chegando-se até a vender propriedades para se depositar o resultado da venda no fundo comum com o qual se proviam as necessidades de todos e de cada um, de forma que ninguém passasse necessidade, e ninguém fosse excluído por qualquer motivo econômico-social. Em terceiro lugar, “a fração do pão”, partilha da mesa da comunhão (eukaristia).

Isto é a celebração eucarística nessa partilha igualitária durante uma refeição comunitária na qual se consumiam alimentos diversos e no meio do qual se pronunciava a memória de Jesus, de sua morte e ressurreição, evocava os gestos do Cristo de Deus, bem como as palavras da “sua” Ceia, instituída na última refeição comum com os discípulos. A Ceia é do Senhor, não da Igreja, portanto. Na concepção de Lucas, a exclusão da mesa pode ser um ato reprovável… Jesus, no entanto, nunca excluiu qualquer discípulo de “sua” Ceia, nem mesmo o traidor (cf. também Lc 14,12-23:  “quando deres um banquete, convida preferencialmente os pobres, aleijados, coxos, os cegos. […] Tua recompensa virá na ressurreição dos justos”). 

Duvidaremos sempre que a primeiríssima comunidade cristã tenha sido tão perfeita como se descreve na leitura idealizada, ou mesmo simbólica? O mesmo livro, Atos dos Apóstolos, em outras passagens, fala de suas imperfeições e seus problemas, enquanto as comunidades vão se estendendo pelo Oriente e o Ocidente: África, Ásia Menor, Europa. Paulo, que escreveu antes de Lucas, se dedicara a corrigir as comunidades que fundou. Mas Lucas quis deixar este retrato ideal, este espelho da perfeição cristã, no qual todos devem olhar e levar em conta que “estamos bem distantes do modelo inicial” (!). É preciso cuidar, no entanto, desta igreja humana e pecadora. Além de tudo, estar atento para que a Igreja e as igrejas permaneçam “cristãs”. Tarefa cada vez mais difícil. 

Por exemplo. As igrejas latino-caribenhas oferecem um cenário de pluralismo seguramente mais importante que o da tradição ocidental antes do Movimento Ecumênico (em 2008 comemoramos os 60 anos do CMI; o CONIC acaba de comemorar 25 anos, o CLAI também). Mas o ponto central já fora denunciado por Karl Barth (A Igreja e as igrejas, in: Dádiva e Louvor, Sinodal, p.203):

“Lembramos que a Igreja, desde as áreas de origem, encontra-se num confronto com muitas religiões recém-criadas – (inclusive no interior do Cristianismo) – e ainda em fase de surgimento (o evangelicalismo neopentecostal, por exemplo). Religiões que superam em brilho e vigor os antigos paganismos justamente pela razão de, na maioria dos casos, se apresentarem como religiões encapuçadas, disfarçadas em empreendimentos salvíficos, moralistas, estéticos (midiáticos?), sanitários, sócio-políticos, apenas ocasionalmente mostrando seus demonismos religiosos – especialmente em seus representantes tolos e desprecavidos”. Os parêntesis são nossos.

Derval Dasilio

LIVRO: O EVANGELHO DE MATEUS – TEOLOGIA E CULTO CRISTÃO  (Fontes Editorial, Em Preparo). *********************************                                                   

 

 


 

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