O PASTOR QUE APASCENTA A VIDA ETERNA 

o bom pastor“As minhas ovelhas escutam a minha voz; eu as conheço, elas me seguem. Eu lhes dou a vida eterna, e por isso ninguém pode arrancá- las de mim. O poder que o Pai me deu é maior do que tudo, e ninguém pode tirá-las da mão dele” (BLH – João 10,27-29).

Ainda que eu andasse pelo vale da morte, não temeria mal algum (Salmo 23).

Se olharmos à nossa volta, constatamos que a morte é a grande senhora de tudo ao redor, o que é criado, o que é real e histórico, pois tudo é submetido às leis da termodinâmica. A entropia demonstra que a vida vai gastando seus acúmulos energéticos, declinando até morrer. A vida mesma é um grande mistério. Depende do equilíbrio para reorganizar-se em situação de caos. Escrevia Leonardo Boff: “de dentro do caos, irrompe uma ordem superior que se autoregula e se reproduz: é a vida”.

Carl Jung, porém, permitindo um mergulho nas profundezas do ser, admite uma reflexão aceitável para uma força e energia criadora a quem nos rendemos, como organizadora do caos. Uma Energia que compreende a participação humana na continuidade e utilização dessa força e dinâmica na obra da criação dentro do caos. Há um tempo para todas as coisas… As forças caóticas ainda não completaram seu serviço desorganizador, quanto ao futuro da humanidade (Nilton Bonder). Portanto, em relação ao equilíbrio do campo coletivo, humano, devemos ser profundamente observadores, atentos ao sistema de valores externos à nossa mente organizadora, que revele nosso estado coletivo sujeito a negar a vida apontada por Jesus: vida plena e eterna, com a qual ele se identifica como Pastor e condutor.

Porém, isso não explica a desordem. Apenas descreve o processo de seu surgimento do caos de cada dia. Ela continua misteriosa. Não fora assim, a experiência acumulada pela humanidade, pretenderia o oitavo dia da Criação, sem avaliar os danos sobre a responsabilidade ética e a solidariedade com os seres da natureza que existiram antes de nós e continuarão a existir no futuro (Euler Westphal). O mundo finito luta contra a vida infinita. 

A vida biológica, natural, é tão simples! A morte também. O ethos de cada cultura, porém, é extremamente complexo. Envolve religião, sociedade, economia, política. Jesus ensinou a gregos e israelitas sobre a simplicidade da existência humana (Mt 6,26-27: “olhai os lírios do campo…”).

No entanto, insistimos em tornar complexo o que há milhões de anos atrás já se sabia existir, sem perguntar sobre qualquer mistério; sobre os fenômenos que aconteciam naturalmente. Inclusive sobre a vida e a morte, um temor sem fim. As pessoas não pensavam que as estrelas cintilavam em razão de uma combustão natural, e que as luzes que vemos lá no espaço sideral, numa noite estrelada, são corpos celestes, bolhas de gás que morreram há milhões de anos.

O sol vai anoitecer lenta e pacificamente, também, daqui a uns 6,5 bilhões de anos. A nuvem de gás chamada de protoestrela, ou primeira luz no Universo, que agora produz energia e calor em expansão constante, se extinguirá. Por que queremos ser eternos, se o sol que aparece todos os dias na nossa janela vai desaparecer? O entardecer já nos prepara para a noite eterna, reservada a toda a criação. O fotógrafo austríaco Edgar Moskopp passou seus dias retratando pôres-do-sol pelo mundo. Mas o gaúcho de Porto Alegre garante que não há pôr-do-sol mais bonito do que aquele que se estende além do lago de água doce, que é o Guaíba.

Não precisamos dessas elaborações para  concluir que todos os seres vivos brotam de sementes, que nascem, crescem, produzem frutos, e voltam para o ventre acolhedor da terra, enquanto suas sementes, dos frutos deixados sobre a terra, continuarão a expressar a vida criada. É preciso prestar atenção, também, às palavras, no Evangelho: Em verdade, em verdade vos digo que, se o grão de trigo que cai na terra não morrer, ficará só, mas se morrer produzirá muito fruto (Jo 12,24). S.Francisco de Assis entendeu tão bem: “É morrendo que se vive para a vida eterna”. 

Com paciência, poderemos observar que os mesmos estrondos que uma peroba de 30 metros faz ao ser derrubada, em segundos, contrastam com o silêncio da floresta que demora para formar-se. Em segundos, um barulho ensurdecedor; em séculos e milênios um silêncio que abriga gerações de pássaros, de árvores, flores e frutos. Silêncio que faz crescer o respeito à natureza de todos os seres, o amor à beleza. Principalmente, silêncio que conduz à humildade diante do infinito e das coisas eternas.

As vozes da vida não necessitam de devaneios cósmicos para expressar continuamente a criação de Deus, mesmo sem ter nos lábios as palavras do catecismo: “creio no Criador do céu e da terra”. Jesus simplesmente expressa palavras sobre a “eternidade da vida”. Seus primeiros discípulos diziam, pressionados sobre o destino de cada um: “Para onde iremos, só tu tens as palavras da Vida Eterna”. 

Walter Rauschenbusch escreveu esta oração: “Ó Tu, Senhor da Eternidade, nós que estamos condenados a morrer elevamos nossas almas a Ti à procura de forças, porque a Morte passou por nós na multidão dos homens e nos tocou, e sabemos que em alguma curva do nosso caminho ela estará nos esperando para nos pegar pela mão e nos levar… não sabemos para onde. Se nos sentirmos abatidos com a solidão, sustenta-nos com a tua companhia. Quando todas as vozes do amor ficarem distantes e se forem, teus braços eternos ainda estarão conosco. Tu és o pai do nosso espírito. De ti viemos e para ti iremos”.

Derval Dasilio  LEIA MAIS: Comentário bíblico-teológico

Atos dos Apóstolos 2,42-47 Deus constituiu Jesus como o Senhor da vida
Salmo 23 O Senhor me conduz para as águas repousantes da vida
1Pedro 2,19-25 – Retornem ao Pastor que apascenta a vida
João 10,1-10 – Eu sou a porta das ovelhas, para as águas abundantes de vida

Páscoa – Quarto Domingo – Ano A

EVANGELHO DE S.MATEUS – TEOLOGIA E CULTO CRISTÃO (Fontes Editorial, Em Preparo).                                                 

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