FALTOU LUZ NÃO TEM MAIS CULTO…  

faltou luz 3Que perigos se escondem debaixo deste nosso temor sobre o comportamento carismático  [COMENTÁRIO BÍBLICO: comportamento “carismático” ] presente no culto cristão? Por que recusamos tais expressões cúlticas? Quando alguém começa a “ministrar”, cantar, tomar a frente e profetizar sem autorização, interromper orações com aclamações, atirar-se no chão, chorar convulsivamente durante o culto, o que faremos? Há perigo para a verdadeira adoração na anarquia gospel pentecostalista? E, então, sob projetores de luz, máquina de fumaça de gelo, microfones de todos os tipos, instrumentos de percussão, baterias, guitarras, teclados, data show, recursos eletrônicos variados, descobre-se que o louvorzão deixa o povo pensativo, cabeça baixa, não podendo orar e meditar, tanto é o barulho… Emoções vão substituindo sentimentos verdadeiros de espiritualidade, e louvoristas falam pela comunidade, microfone aberto no último volume, arrebentando tímpanos. Será que o seu deus é surdo? Aqui, no culto pentecostal gospel, se vende de tudo, discos, relíquias, e até exemplares do mercado religioso, em troca de bênçãos das pastoras e pastores das igrejas daquele lugar. Só não pode faltar energia elétrica, se não o culto acaba.

Não se lê a Bíblia, porque os ministrantes têm chavões para todos os momentos, substituindo as Escrituras Sagradas. E fazem tudo no culto, oram em voz alta, mandam o povo baixar a cabeça e humilhar-se para acompanhar sua prece ensaiada, e até dizem amém pelos fiéis assistentes. Parecem acompanhar a sociedade no outro extremo, como na mídia que a auxilia numa indignação hipócrita, ignorando sua responsabilidade nos crimes hediondos simbólicos da sociedade inteira: o menino morto e enterrado depois da dose letal de um medicamento cirúrgico, a criança atirada pela janela, o bebê jogado no esgoto, a jovem que mata os pais a pauladas, resultado do que a mesma sociedade constrói.
 
Para que serviria cultuar um Deus humilde, despojado, esvaziado de qualquer poder, incompreensível diante do exemplo de humildade do Senhor do culto.  (Que [Cristo], sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens. E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz – Filipenses 2,6-8)? Esse Deus não interessa ao culto gospel?

Entre os bordões repetidos à exaustão, as expressões comuns no culto neoevangélico, a arrogância espiritual cobra veementemente favores de Deus pela “vida consagrada”. Predomina o desprezo à comunidade e à coletividade, afirmando-se o individualismo dos dirigentes; dirige-se à “massa”, o povo anônimo, ignorando a comunidade local humilhada, sofrendo com dificuldades de toda ordem, irmãos empobrecidos, doentes, desempregados, deficientes, idosos, “que não alcançaram vitória pelo louvor…”, pois continuam sofrendo. Comunidades pobres, humildes, são apontadas como “fracassadas”, que o culto gospel proclama, são ainda mais humilhados em seu “fracasso” aparente,
 incapacitadas de apresentar “sinais de vitória”.

As músicas que se cantam, no culto gospel, expressariam as alegrias de ser crente, testemunhando a salvação, ou refletem o “louvor formatado para o consumo” de relíquias simbólicas, ou é separado do chamado para testemunhar a Salvação do mundo através de Jesus Cristo? A esperança do mundo é Jesus Cristo ou o fortalecimento do pentecostalismo e sua teologia intimista ou individualista? O que cantam é adoração, louvor, arrependimento pelos pecados diários contra Deus, inclusive a participação e responsabilidades no pecado contra o próximo, e contra nós mesmos? É lamentação contra as injustiças, compromisso de denúncia, ação contra as forças do mal estrutural na sociedade da qual somos parte? São tristezas sobre nossos maus testemunhos, coniventes, cooperadores com o Mal existente?

Onde está o interesse no diálogo com as religiões afro-brasileiras, o compromisso com a democracia plena, nos bens sociais e culturais; denúncia da economia perversa, da sociedade que só se reconhece nos privilégios da riqueza, na raça “branqueada”? Onde está a solidariedade com despoderados, despossuídos e marginalizados, cidadãos sem vez e sem voz; combatente da fome, reivindicantes de saúde, habitação e trabalho digno? Onde está o interesse ético de combate ao racismo, à homofobia, à exclusão social, a defesa dos direitos humanos e cidadania insurgente; a defesa dos sem-terra, sem-teto, povos indígenas, autoctones pré-cabralianos. Onde está o esforço por manter o culto cristão autêntico sem impregná-lo do consumismo religioso?
 
Expressam o desejo de que Deus promova a restauração da criação humilhada e destruída enquanto se anuncia a reconciliação dos homens e das mulheres, através de Jesus Cristo, à luz do que a Bíblia ensina sobre a força do Reino de Deus? São anseios por salvação e libertação da parte do Senhor Jesus Cristo, objeto do louvor e glorificação no culto? É lembrado o estado profundamente deplorável da sociedade brasileira, situações de exploração, servidão, fome, desmandos nos meios que cuidam da justiça civil; crime organizado, submissão e escravidão no nosso país, direitos dos mais fracos violados a todo instante? São declarações de fé que apontam a Graça espontânea de Deus para todos os oprimidos e esmagados deste mundo? Será que essa forma de culto expressa o sacerdócio universal de todos os crentes, e sua responsabilidade de solidariedade e intercessão pelo mundo? Ou será que acentua somente compromissos para melhorar materialmente a vida do crente; que estimula o esforço de “vida consagrada”, que traria o prêmio da loteria espiritual, um tipo de salvação concreta: o carro novo, a casa própria, o marido ou esposa ricos, o emprego bem remunerado?
 
Precisamos de respostas. Porém no campo da prática religiosa, no culto cristão autêntico. Ou então nos conformaremos com o modelo recente, presente em muitas de nossas igrejas. Por outro lado, indignados, nos garantiremos com o Espírito, força que nos capacita para cumprir a tarefa que Deus confia às pessoas e às comunidades, na igreja. Sem o Espírito a religião e culto se transformam em magia, em espetáculo metateatral. Com o Espírito o culto se transforma em vida, alegria, comunhão de iguais. Como nossas comunidades celebram o culto cristão e os sacramentos? Com ritos mágicos? Com celebrações folclóricas, ou com “show gospel”? Há cultos gratulatórios, confortando a comunidade pela vida rica dos que são sepultados e nos deixam a rica herança da fé? Há atenção, no culto, para com deficientes, enfermos crônicos e terminais, e idosos? Temos medo do fracasso, das crises, ou preferimos celebrar a vitória da materialidade?
 
Paulo apela para o culto “racional”, inteligente, atento ao sofrimento do mundo e dos crentes (Romanos 12,1: “logikên latreian”, culto onde se pergunta a razão de ser cristão). Cada coisa no seu lugar, para que se possa proporcionar a interação espiritual da comunidade reunida em torno da esperança, “até que o Senhor venha”. Com ordem, para que todos possam se expressar oportunamente quanto às lutas da vida; denunciar com firmeza os pecados estruturais da sociedade; a sedução consumista e a ausência de solidariedade entre nós mesmos. E reacendê-lo. E que todos possam ouvir a palavra de Salvação, em Jesus Cristo. E arrepender-se de sua falta de fé (enquanto rogamos: “Senhor, aumenta a nossa fé”). O povo ora por si e pelo mundo, para que seja possível enfrentar a fraqueza e o sofrimento diante da impiedade, da ausência de compaixão e solidariedade no mundo em que está.

Enquanto isso, o culto exige ações ordenadas (ordo liturgico), inteligentes, para a oração, a edificação e a intercessão de todos os crentes congregados. Isso diferencia o culto cristão do culto pagão, egoísta, desordenado, emocional, anárquico, inadmissível no Novo Testamento (Coríntios 14,15: Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento; cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento). É assim que o Salmista instrui, acompanhado pelo apóstolo Paulo: “Pois Deus é o Rei de toda a terra, cantai louvores com inteligência” (Sl 47.7).

“Carismáticos”, “avivados”, neoevangélicos, como que se “embriagam do Espírito”, enquanto os restantes passam sede e fome de edificação. Silêncio orante, meditação e expressão solidária nas intercessões, para muitos, não são parte importante do culto cristão. Mas deve ser para fiéis cristãos, embora humilhados, enfraquecidos, abatidos pela arrogância do novo culto neoevangélico, ou pelas pressões de nossos dias. Precisamos manter-nos conscientes de que, quando envolvidos pelo Espírito de Deus – sem o qual não há culto algum – é sempre possível louvar a Deus sem imitar as modas e as eclesiologias alienantes do momento. Mesmo as mais coloridas, dançantes, fulgurantes, diabolicamente atraentes…

Derval Dasilio

CALENDÁRIO LITÚRGICO – 6º. DOMINGO DA PÁSCOA – Ano “A”
Atos 8,5-8;14-17 – E receberam o Espírito Santo
Salmo  66,8-20 –  Fazei ouvir a voz do Senhor, no louvor
1Pedro 3,13-22 – A terra inteira aclame o Senhor
João 14,15-21 – Indo para o Pai, deixo outro Defensor

 

 

 

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