ACIMA  DOS INFERNOS EXISTENCIAIS DE CADA DIA

CALENDÁRIO LITÚRGICO – ASCENSÃO
Atos 1,1-11 – Jesus foi levado aos céus, à vista deles
Salmo 47 (ou 93) –  Ele vai subindo para seu trono
Efésios 1,15-23 – E o fez sentar-se à sua direita nos céus.
Lucas 24,44-53 – Disse sobre o que está nos Profetas e Salmos
Mateus 28, 16-20 – Ascensão do Senhor

ACIMA DOS INFERNOS EXISTENCIAIS DE CADA DIA

FACEBOOK – 28 de maio de 2014 às 15:09

A Ascensão do Senhor foi um fato histórico, físico, espiritual, teológico? Qual é a mensagem fundamental do mistério da Ascensão? “A terra é o único caminho que temos para chegar ao céu…”, concordamos com esta frase? Superar o ranço espiritualista introvertido, a superstição e toda a falta de fé; combinar adequadamente na vida “o céu e a terra”, o idealismo e o realismo, a utopia e o compromisso, os acontecimentos finais de uma era (escatologia) e a história, é um desafio para os cristãos que observam a Ascensão do Senhor enquanto olham para o chão: “Estando eles olhando para o céu, enquanto Jesus subia… […] perguntaram: por que olham para as alturas?” (Atos 1,10-11), se os acontecimento do Reino de Deus ocorrem aqui em baixo? Deixar de olhar para cima e observar a sede de infinito que está em nós, com os pés no chão, é uma advertência evangélica a ser considerada. O céu é sinônimo de Deus. Estar com Deus, desejar Deus, é a aspiração de quem tem fé. 

O Cristo ressuscitado, por sua ascensão ao céu, não penetrou nos espaços siderais vazios, nem alcançou um lugar acima dos astros e das estrelas do imenso cosmo, ou qualquer ponto misterioso do Universo nas galáxias, ou algum lugar entre os buracos negros pesquisados pela astronomia. Porém, Cristo atingiu completamente a plenitude, e alcançou o ponto mais alto imaginável. Quando na direção do infinito, na exigência e aspiração da inesgotável justiça sob o reinado de Deus.

Cristo penetrou no grande mistério. Foi para além das deformações e profundos mal-entendidos da razão que se imagina pura e absoluta nas questões que estabelecem as respostas através do evangelho sequestrado pela religião doutrinária. Este é o significado mais importante da Ascensão do Senhor ao céu. Isto é, “ascensão a Deus”. Não o contrário. Cristo é o primeiro a tornar possível a elevação da criatura ao nível onde o Pai atua. O Reino da misericórdia, da compaixão e solidariedade coloca-se ao dispor do homem e da mulher que sofrem  injustiça e desigualdade, pela seleção de privilégios. A alegria profunda da existência humana é ascender a Deus. O caminho é Cristo.

S.Mateus (Novo Testamento) usa abundantemente esse significado quando sugere que o Reino do Céu é o lugar onde Deus reina. As mais importantes utopias humanas encontram lugar na Ressurreição de Jesus: a perfeição do “mundo ressurreto”, transformado, próximo da mais completa perfeição, ocorre neste chão terreno. Num mundo que exalte a defesa da vida, valores morais e éticos, para que a dignidade humana se sobreponha aos interesses de dominação tão mais frequentes entre nós. Num mundo reconciliado no qual não se admita a exclusão do pobre, dos dalits do mundo inteiro, exclusão étnica, de gênero, de sexo e de minorias; num mundo onde a convivência cotidiana seja marcada pelo desejo de paz, shalom (integridade, inteireza, tolerância; igualdade, indivisibilidade, sem preconceitos). Paz é o lugar da plenitude que todos desejamos.

A linguagem bíblica para o céu desejado é, em primeiro lugar, utópica: “O lobo será hóspede do cordeiro, a pantera se deitará ao pé do cabrito, o touro e o leão comerão juntos. (…) A criança de peito brincará junto à cova da víbora, e o menino pequeno meterá a mão na toca do escorpião (Is 11,6-9). O Apocalipse promete “um novo céu e uma nova terra, onde não haverá morte nem luto, nem grito, nem dor, porque todas estas coisas acabaram” (Ap 21,4). Resposta para os que são constantemente confrontados e ameaçados pela morte, os que gritam de indignação, os torturados e os que sofrem opressão e injustiça.

A experiência radical da fé, embora elementar, sob pressupostos tradicionais, depende de maneira decisiva da confiança no papel exercido pelo Cristo de Deus. Há quem olhe para as durezas da existência sem possíveis libertações. Unamuno, navega contra a corrente, diante do horror e vazio eterno de um mundo sem fé: “prefiro o fogo eterno do inferno ao frio absoluto do nada”. Quando a reflexão teológica se torna crítica, precisamente pela magnitude da desgraça humana, pode-se observar como intolerável a solução do vazio da fé, que torna incompreensível a ascensão a Deus. A agonia dos guetos da miséria, onde impera a violência, a indignidade imposta ao ser criado, nos envia ao céu possível, ascensão a Deus como possibilidade de salvação coletiva.

Contraposto ao céu, o inferno não é mais que isso: um mar de injustiça, cheirando a enxofre, na violação dos direitos humanos e de cidadania; nos comportamentos que corroem a solidariedade humana; ausência de oposição às estruturas violentas e qualquer forma de ofensa à dignidade humana. O inferno da exclusão, das desigualdades, da intolerância, da opressão sobre o fraco e desprotegido, se apresenta a olhos vistos no inferno de cada dia. Estar no inferno é negar as exigências do Evangelho, um mundo possível reconciliado, longe do céu, no além — sem observar a realidade imediata clamando por salvação –, ignorando compromissos em favor da vida digna para todos, sustentabilidade nos direitos fundamentais de moradia, trabalho, escola, saúde e cultura.

Quando Jesus nos mostra o céu está apresentando uma fórmula da qual gastamos quase tudo, roendo até o osso. O céu é “aquilo que jamais penetrou no coração do homem…” (1Cor 2,9); o céu é a esperança humana de um mundo transformado, um mundo novo possível. O anseio de “ascensão aos céus” é a realização e chegada à vida plena. O céu é uma realidade que transcende a compreensão material do mundo. É o lugar onde Deus está, como está o ar na atmosfera. Um mundo que respira violência e desigualdades precisa aspirar também o sentido da justiça de Deus. Eis o céu e a ascensão sugeridos pelo evangelho.

Derval Dasilio

CALENDÁRIO LITÚRGICO – ASCENSÃO

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