TRINDADE –  LECIONÁRIO LITÚRGICO – ANO “A”

Conversava com Richard Shaull sobre seus interesses teológicos nos seus últimos anos de vida. Lembramo-nos de Paul Tillich. Este dizia que o Espírito de Deus não pode ser escorraçado da vida, ele é teimoso, persistente, vem na direção dos homens e das mulheres sem esperar que se voltem para ele. É assim que Deus está espiritualmente presente na vida do mundo, em tudo e em todos. Na Trindade Libertadora. No homem, na Criação e no Universo inteiro.

TRINDADE – PARA QUEM CRÊ…


trindade cerezoDesafiados a responder, se perguntados sobre a Trindade Divina numa linguagem compreensível, e não a dos teólogos e filósofos. ‘Quantas pessoas aqui estão pensando no ar’? O ar é nossa vida e nãoprecisamos pensar nele para respirar. E não precisamos pensar nele para que ele nos dê vida. No entanto, quem está se afogando só pensa no ar. Deus é assim. Não é preciso pensar nele, ou pronunciar o seu nome, para que o sintamos. A forma pura de Deus é a suprema beleza, pensa o teólogo Jürgen Moltmann, pois a beleza reside na forma perfeita, se a medida é a essência íntima de um poder, ou de uma força criativa. Quando a forma é iluminada, e quando reflete a luz, então essa essência fica clara, brilhante. Assim é a Divina Trindade. É a isso que S.Paulo refere-se, frequentemente, a face de Deus como objeto clarificado.

Vemos o Deus trinitário como em espelhos diferentes. A face de Jesus Cristo, no entanto, reflete-se o esplendor criador de Deus (2Cor 4,6). E a glória de Deus reflete-se em todos nós quando reconhecemos Deus face a face: (1Cor 13,12: “… então o veremos face a face”). O Espírito Santo é Espírito do Pai e Espírito do Filho. Aqui e agora, ainda necessitamos dos símbolos, para dizer ou para escrever o indizível. Os rostos do Pai, do Filho e do Espírito Santo são indescritíveis. Porém, a fé cristã sujeita-se e desenvolve-se dentro da cultura de símbolos e imágens, defenderia Richard Niebuhr.

Deus não se conforma com a ingratidão e a indiferença da criatura à salvação, por isso não nos abandona. Deus se apresenta face-a-face com o homem e a vida (Karl Barth).  O acontecimento trinitário central da fé cristã, destino final do rico percurso bíblico, apontado na história da salvação, é a revelação da Trindade; a mais purificada concepção do amor de Deus pelos homens e mulheres, e o modo em três vias da revelação. “O Espírito nos ajuda a compreender quem é o Filho e quem é o Pai, mas o Filho também nos ajuda a compreender quem é o Espírito e quem é o Pai.

Da mesma forma, somos ajudados a compreender a criação e história do universo. Estas, distorcidas sob o prisma da corrupção, no próprio projeto humano e seu futuro de salvação sem Deus. Entendemos assim porque Ele criou espaço e companheirismo para que uma multidão imensa participe de sua vida, de sua glória e de sua felicidade (“Eis que faço novas todas as coisas” – Ap 21,5). Finalmente, compreendemos o destino da Criação e do Homem no eterno face-a-face com a Trindade. Mas destinados em nossos corpos, com a terra que amamos, com aqueles e aquelas que são queridos, não nos abstraímos numa espiritualidade desencarnada.

Um cristianismo sem experiência real da Trindade seria um simples monoteísmo. E isso teria sérias consequências para nós. Um monoteísmo do Pai se tornaria um transcendentalismo, uma abstração teológica a respeito de uma divindade no além, representada por uma hierarquia patriarcal derivando para o autoritarismo, para a submissão servil, para o medo e a repugnância da escravidão. A divindade não teria a face de um Pai, não nos ofereceria nem a filiação nem o envolvimento maternal dado pelo seu Espírito, pensa Luiz C. Susin.

O Espírito Santo visa aos deserdados, despoderados, humilhados, esmagados, triturados pelos sistemas de pensar dominantes (Lc 4,16ss…). O Espírito faz presente o Reino de Deus na restauração da vida e no alimento da esperança de um “um novo céu e uma nova terra”; (Ap 21); o Espírito se apresenta, sempre, para dizer: “faço novas todas as coisas”! É por isso que nos alegramos em saudar os amigos da vida em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. O Reino de Deus está diante de nós, graças à Trindade Sagrada! Conforme testemunho do Espírito Santo (Rm 8,26: “… o Espírito intercede por nós sobremaneira com gemidos inexprimíveis”). 

Um monoteísmo do Filho se tornaria una heroísmo militante, uma exagerada confiança no homem e em nós mesmos, meramente uma obediência ética e um seguimento ético e político sem transcendência; uma libertação solitária e precária no tempo e na história da humanidade. Sem o Pai – que está no coração do Filho –, e sem o seu Espírito em nosso próprios corações, não teríamos a experiência incrível da filiação divina, mas apenas um mito e um esforço vão, comparativo aos panteões religiosos e suas divindades antropomórficas.

Um monoteísmo pentecostalista do Espírito se tornaria um espiritualismo que desprezaria nossas realidades humanas — indivíduos, grupos, comunidades, sociedades, imersos em situações econômicas, políticas, religiosas –; que negaria nossas realidades corporais, gerando uma confusa concepção de que somos tão somente anjos ou demônios, ora divinos outras vezes diabólicos.

Estaríamos equivocados plenamente, imaginando que somos seres abstratos e ao mesmo tempo inatingíveis e invulneráveis,; que o Mal é fatal, irredutível e sem salvação. Sem o Pai e sem o Filho desconhecemos a filiação que nos é anunciada pela graça, pela misericórdia e pela compaixão de Deus, que nos liberta desses determinismos intencionais, em favor da esperança.

A fé cristã aponta um caminho trinitário, cujo roteiro é seguido pelo mais humilde dos homens, Jesus. Sabemos quem é Deus, conforme a revelação de Jesus entre os humildes e simples, os despojados e desprotegidos deste mundo. O Espírito faz presente o Reino de Deus em todas as formas de ações e combates às muitas mortes impostas a toda a Criação, neste mundo devastado, poluído e desertificado sistematicamente.

Tanto na natureza como na mente de todos nós. O Espírito Santo visa aos deserdados, despoderados, humilhados, esmagados, triturados pelos sistemas de pensar dominantes. O Espírito faz presente o Reino de Deus na restauração da vida e no alimento da esperança de um “um novo céu e uma nova terra”; (Ap 21); o Espírito se apresenta, sempre, para dizer: “faço novas todas as coisas”!

Devemos gostar da Trindade que os cristãos imaginam, movidos pela Fé, a Esperança e o Amor (também uma trindade!)? É por isso que nos alegramos em saudar os amigos da vida em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. O Reino de Deus está diante de nós, graças à Trindade Sagrada! Conforme testemunho do Espírito Santo (Rm 8,26: “… o Espírito intercede por nós sobremaneira com gemidos inexprimíveis”).

Derval Dasilio

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