ELES MATAM A ALMA E O CORPO

A intolerância religiosa, o moralismo e o legalismo doutrinário, via de regra se expressam com violência, de muitas maneiras. Mateus escreveu seu evangelho 40 anos depois da crucificação de Jesus. Nele, o evangelista comunica as últimas advertências de Jesus Cristo: o inferno ideológico permanece, e é aqui, dois mil anos depois, e não num futuro distante (Mt 5,22-29s); a Graça de Deus é concedida, no entanto, em última oportunidade, como na parábola da figueira (Lc 13,6-9).

arrmarás o próximo.Os discípulos de Mateus ouviram que não há paz sem que a justiça de Deus seja reconhecida como o bem maior. Violência é sempre violência, seja física, verbal, ideológica, sutil ou descarada. No ambiente religioso se observa o fenômeno acompanhado da contemporização própria das defesas corporativas. O “evangelho” ideológico de uma religião, e até mesmo dentro dela, como observamos entre cristãos católicos, protestantes, evangelicais, representa uma violência ideológica interminável. O mundo religioso é violento por natureza, como disse R.Girard. Enquanto hieros e isirah (gr.: sagrado; véd.: força vital) apontam concomitantemente a atuação de duas forças conjugadas, violência-constitutiva e violência-força, como ideologia.

A autêntica religião é aquela que nos conduz até Deus, mediante a compaixão, a misericórdia, o cuidado e a solidariedade. Uma ética da Graça. Mateus, mais tarde, acrescentará: “Pregai que está próximo o reino dos céus (de Deus)” (Mt 10,7; Lc,10,9); “…temei antes os que matam a alma e o corpo” (Mt 10,28b). Eis a mensagem de Jesus sobre a violência ideológica fundamentalista. Em seu evangelho, Jesus ensina aos discípulos a olhar, ver e julgar sua própria época, enquanto diz aos mesmos sobre o costume obrigatório, a rotina do plantador, na eminência da colheita, quando as figueiras renovam suas folhas: “Quando virdes acontecer tudo isso, sabei que (o Reino) está às portas…”.

A intolerância religiosa, o moralismo e o legalismo doutrinário, via de regra se expressam com violência. De muitas maneiras. Mateus escreveu seu evangelho 40 anos depois da crucificação de Jesus. Nele, o evangelista comunica as últimas advertências de Jesus Cristo: o inferno ideológico permanece, e é aqui, dois mil anos depois, e não num futuro distante (Mt 5,22-29s); a Graça de Deus é concedida, no entanto, em última oportunidade, como na parábola da figueira (Lc 13,6-9).

As comunidades cristãs primitivas, depois do movimento de Jesus (é preciso distingui-lo da igreja apostólica), tiveram que enfrentar a ameaça que provinha de “atores armados com as leis religiosas”, exclusivismo e autoritarismo. Cada grupo se apresentava como um “defensor da justiça”, “da paz” e “da liberdade”, a seu jeito, mas evidentemente os fatos contradiziam seus eloquentes discursos. O dilema para os cristãos era o de se alinhar com um ou outro grupo, ou partido, crendo que assim, equivocadamente, se alcançariam os ideais de justiça, paz e liberdade que Jesus de Nazaré tinha proposto como seu ideal do Reino.

Não importa muito saber da definição de origem indo-européia, quando, incrivelmente, o conceito de vida constitua sua raiz: bios, biazomai, que se traduzirão por vida, força vital, etc.. A etimologia mostra a corrupção de sentido, através do tempo. A violência ideológica emerge da ira, do iracundo, do ímpeto da brutalidade contra o diferente ou o oposto. Não é nada fácil lidar com estas representações lógico-verbais. Regularmente são representações envolvidas com preconceitos, e naturalmente sujeitas a deformações definitivas… Por exemplo, da violência como parte necessária para se impor um sistema de pensar, ideologias autoritárias, homofóbicas, sexistas, racistas, fascistas…), mesmo com a brutalidade que a acompanha.

A concepção ética dos ditos de Jesus (login), no livro de Mateus é seguramente das mais favoráveis aos que crêem numa “ética de emergências”, face à irrupção do Reino de Deus. Há um chamamento à renúncia da vingança em favor do exercício de uma capacidade sobre a vida humana, um esforço excepcional; uma potencialização mais forte para forças espirituais contra a violência e esclerose nos sistemas de pensar. Jesus, em Mateus, não é um fundamentalista farisaico, moralista, exaltado, angustiado por uma moralidade exterior capaz de proteger alguém, julgando o mundo imoral ao redor. “A ênfase de Jesus está, não nos esforços humanos, na conduta aparente, mas na presença da salvação da parte de Deus” (J.Jeremias).

Irromperá o Reino de Deus, sem data marcada… No evangelho mateusino, despreza-se a moral abstrata e a conduta religiosa exemplar, doutrinária, e são apontadas ações concretas para neutralizá-las: tanto a violência, o desejo de vingança, como o ritualismo, o legalismo e a alienação religiosa, são armas ideológicas ocultas que conduzem imperceptivelmente a pequena comunidade de discípulos até a morte. A compreensão geral que temos, a partir da imitação do protestantismo e do evangelicalismo importados, desde as missões, trouxe-nos o “pietismo avivalista”, e o fundamentalismo teológico justificando uma pregação extremamente contaminada por compreensões de cultura, de vida e de tradições. Praticamente, impõem-se nas ideologias de cultura religiosa: racismo justificado biblicamente, como a submissão feminina, a eficiência do “diabo”, como uma força sedutora mais forte que tudo, voltada para o mal, mais influente que a força do bem que vem de Deus; “temor” a Deus sempre mal traduzido, na linguagem do medo. O “deus” fundamentalista e o diabo liberal encontram-se em tensão permanente. O maniqueísmo histórico se consagra, diminuindo a grandeza e a mensagem libertária de Cristo.

O crente é impedido de ver a salvação, desse modo, pela misericórdia incondicional de Deus, através da ótica do inferno e do poder do diabo. A vida do cristão desconhecerá a Graça, a misericórdia, a compaixão de Deus, o Pai amoroso apresentado por Jesus Cristo no Evangelho, em favor do legalismo religioso; deficientes físicos seriam vistos como portadores visíveis do pecado dos pais, principalmente os “pecados sexuais”; doenças congênitas não teriam tratamento corretivo, porque “Deus fez sãos e doentes igualmente, naturalmente, como parte de seus desígnios”, contra os quais não se pode lutar; questões raciais e homofobia estariam fora da preocupação com o semelhante, que permanecerá “diferente”, enquanto permanecem lembradas no âmbito das maldições bíblicas.

Direitos fundamentais seriam restritos, como força ideológica constitutiva, na sugestão de que só os crentes alcançam o favor libertador de Deus pela fé abstrata, sem uma ética e compromisso com valores, os restantes. Conversão e adesão ao legalismo religioso, antes que à vida de fé comprometida; estabelecer que cristãos não devem cuidar de problemas e sociais concretos, “cultivar uma vida espiritual abstrata”, não fazem parte da recomendação de Jesus, segundo Mateus.

Derval Dasilio

12o.DOMINGO DO TEMPO COMUM PÓS EPIFANIA – ANO A
Gênesis 21,8-21/Jeremias 20, 10-13 – Ele salvou o pobre
Salmo 116,1-2;12-9 – Fizeram-me experimentar o inferno, aqui mesmo…
Romanos 5, 12-15 – A graça ultrapassou e eliminou o pecado
Mateus 10,26-33 – Temei os que matam a alma do povo

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