VI DEUS FACE A FACE, PEGUEI A VIOLA…


VI DEUS FACE A FACE, PEGUEI A VIOLA…

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luta interior (1)A bênção de Deus, alvo para todo empreendimento de fé, é alcançada ao raiar do dia, depois da noite tenebrosa, após a luta, a oração perseverante para que Deus se revele e participe das lutas humanas, pelos direitos, pela dignidade, em favor de todos. Não podemos ser felizes se os outros são infelizes.  Jacó, depois da luta noturna, como na canção de Rolando Boldrin: “Amanheceu, peguei a viola e fui viajar”…  lutas em  situações de risco, de desproteção, falta de garantias sobre direitos fundamentais; lutas contra a morte, pela liberdade e contra a opressão, onde quer que o homem esteja.  Jacó é o símbolo bíblico do homem que busca a Deus enquanto se empenha nas grandes lutas por um mundo novo. A terra sem males nem dores do Apocalipse bíblico.
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O homem deve sempre voltar-se para a solidão com Deus, sugere o texto (Gênesis 32,22-31 –  Vi Deus face a face), e lutar de novo; deve insistir em nova escuta do nome de Deus no meio da luta, como quem procura um personal training, forçando-o a revelar-se com instruções estratégicas. Atualizando seguidamente o nome que se pronuncia, limpamente, os desgastes são evitados (como o abuso dos nomes de Deus no teísmo corroído da fé evangélica iluminista, patrimonialista, racionalizada, empírica, prática). Então, Deus se pronuncia no mistério abscondito, lugar oculto ao entendimento humano. Abençoa e se recolhe ao mistério calando-se novamente.
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Jacó ouve a palavra, depois de ter sentido aquele com o qual teve contato, e que já se deixou descobrir presencialmente.  É frequente no folclore de todas as culturas que o raiar da aurora quebre o encanto, ou deixe impotente o personagem sobre-humano. De nome mudado para Israel, Jacó chama aquele lugar de “Fanu-El” (onde se pode ver o rosto de Deus), dizendo: “Vi Deus face a face e sobrevivi!”. Grande é o mistério da fé, dirá a liturgia reformada que reconhece “a presença real do Senhor” na mesa da comunhão (Calvino). O sol despontava quando ele atravessava Fanuel (Gn32,32).
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Billy Grahan, dizia que falava com Deus todos os dias, pessoalmente. Depois, ia aconselhar Nixon a exterminar vietnamitas comunistas. Mais tarde, como orientador espiritual do presidente Bush, ensinava, em nome de Deus, sobre as intervenções no Afeganistão e Iraque. Os resultados desses equívocos são por demais conhecidos, na história recente. Nos tempos antigos, nas culturas mais remotas, a luta pode tomar características legendárias: deuses tomam identidades humanas; heróis mitológicos têm proporções físicas e forças sobre-humanas; um deus que luta com um homem está limitado ao tempo das trevas, e quando o homem vence, usando de artimanhas, arranca-lhe uma concessão. Um favor. Com exigências religiosas – antes que épicas, talvez à semelhança deste relato bíblico –, é Deus quem dobra o homem. Embora se permita ficar retido pelo homem.Temporariamente.
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Deus mesmo provoca, chamando à luta, à tenacidade, à busca incessante mesmo que insatisfeita. É Deus que desafia o homem, para abençoá-lo no final. O personagem é um “ish” (homem, indivíduo), que mesmo na obscuridade, luta em full-contact com Deus. Desse embate o peregrino se dirige rumo à “sua terra prometida”. E o “homem” sai mancando, ferido, mas de pé. A utopia do novo mundo mapeia seu caminho.
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A oração de Jacó indica a percepção dos novos tempos, e seu alcance para o enfrentamento dos grandes problemas da sociedade hipermoderna, ilha cercada por um oceano de misérias e paradoxos existenciais. Ao mesmo tempo, a ausência de profundidade para avaliar o espaço interior onde tramitam as utopias e esperanças de humanização e dignidade da vida, tomam a mente do religioso entregue à ganância ensinada pelos condutores da massa religiosa. Estes, embora pretendendo falar em nome de Deus, são os arautos da intolerância num mundo sem misericórdia.
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Derval Dasilio
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18o. DOMINGO DO TEMPO COMUM [DEPOIS DE PENTECOSTES – ANO “A”]

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A PÉROLA E O FALSO BRILHANTE


A PÉROLA E O FALSO BRILHANTE

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Em comum com as outras parábolas, aqui, a ação empreendida pelo homem e pelo comerciante simbólicos é radical: trata-se de “vender tudo” que se tem para “comprar” o bem desejado. Numa sociedade que conhece muito bem a atividade febril do consumo, convida-se a descobrir o valor único do Reino dos céus, superior a outras realidades. Uma pérola preciosa. O Reino de Deus não se avalia com instrumentos com os quais se analisam os reinos da terra. Esta insistência deixa bem claro que a resposta esperada por Jesus não admite concessões e licenças éticas, injustiças ocasionais ou temporárias. Os fins não justificam os meios. Não há equações variáveis, mas uma radicalidade para se alcançar o bem maior, que é a vida humanizada, protegida pela justiça.

Nos relatos em considepérola legítimaração, convida-se a uma valorização adequada das diversas ofertas que nos são feitas ao longo da vida (Mt 13,44-52). É inegável, nos dias de hoje a idolatria do dinheiro. Falta o brilho da percepção dos novos tempos, e seu alcance para o enfrentamento dos grandes problemas da sociedade hipermoderna, ilha cercada por um oceano de misérias e paradoxos existenciais. Ao mesmo tempo, a ausência de profundidade para avaliar o espaço interior onde tramitam as utopias e esperanças de humanização e dignidade da vida, tomam a mente do religioso entregue à ganância ensinada pelos condutores da massa religiosa.

Igrejas, coletivamente, relegam o aprofundamento da vida em comunhão, do espírito solidário, da capacidade de indignar-se e inconformarem-se com a corrupção frequente, em todo tempo e em todo lugar, inclusive o lugar sagrado dos templos. Este fenômeno faz com que as comunidades cristãs deixem de ser espaços de comunhão, de testemunho profético e diaconal para se converterem em lugares onde se cultivam rivalidades, partidarismos, altares de adoração materialista camuflados em resultados superficiais.

Falso brilhante, igrejas passam a cultivar o brilhareco brega, gospel, no espetáculo da ideologia “pentecostalista” do sucesso. Tudo isso obscurecendo a mensagem bíblica de libertação do homem e da mulher. Em tantos casos. Enquanto isso, altares se transformam em palcos e balcões de negócios. O evangelical show business está em alta, enquanto igrejas vendem falsificações como pérolas legítimas.

Se observarmos com atenção, tudo que é dito sobre a obtenção do prazer aponta para pessoas ricas, jovens, bonitas, famosas, “inteligentes”. A seleção de futebol nacional mantinha um “grupo evangélico de vencedores”, devoto do pentecostalismo evangélico, à parte dos demais convocados. O resultado todos conhecem, perdeu várias posições no ranking mundial, na copa mundial realizada no Brasil, apesar das orações e gestos de religiosidade inconsequentes dos craques milionários do futebol mundial que ocupavam as arenas projetadas pela FIFA. No fundo, o mercado religioso não vende um produto qualquer. O mercado vende pessoas, como as que estão nos leilões dos esportes de massa. Elas não parecem perceber que “são escravas de um outro ser”, diria nosso teólogo João Dias de Araújo.

Evangélicos sabem disso muito bem, quando passam a vender, na inversão bíblica, a crença no sucesso, na vitória e na prosperidade. Crença em aparecer com a cabeça acima da manada, a qualquer custo. Amor ao dinheiro, acima de tudo. No perfil do bom pregador pentecostal admirado na mídia (cf. Ultimato set./out. 2010), crentes tornam-se voyeurs dos bem-sucedidos. “Eros” e “tânatos” (princípios do prazer e de morte) são envolvidos. Dessa forma, uma renúncia, inclusive, para transformar-se em possuidor deste bem tão precioso que é a condução pastoral do povo de Deus, entregam os crentes a um mercado duvidoso de graças e bem-aventuranças falsas, voláteis ou quebradiças.

No atacado, contudo, inegavelmente, não se nega emprego do dinheiro é vital para a salvação provisória de qualquer instituição, cidadão ou cidadã. É preciso trabalhar para tê-lo, produzir bens, comercializar alimentos e bens duráveis, além da sustentação do bem-estar social da coletividade humana. No varejo, na crença popular, a questão se resumirá, apressadamente, no “kossóh, kissóh vê-kaassóh”: Uma pessoa se faz conhecida através do copo, do bolso e de sua ira, nos lembrará Nilton Bonder, sábio rabino brasileiro. Mas, Zeca Baleiro, poeta cantor maravilhoso, dirá, advertindo seus ouvintes gananciosos, com poesia: “Você rasga meus poemas, mas nunca vi você rasgar dinheiro”.

Nessa parábola bíblica, a vida e o Reino se comparam a um tesouro escondido, uma pérola de grande valor. A pessoa que compreendeu tal coisa está disposta a renunciar a tudo com o fim de adquirir este tesouro. O comerciante precisa renunciar a outros bens, vender tudo, para poder adquiri-la. Vale a pena vender tudo para comprar este sumo bem, que é o da própria vida, a existência humanizada em comum.

Em consideração aos cristãos desse momento, fazer-se discípulo de Cristo significa, então, assumir uma tarefa, a mesma tarefa de Cristo. É preciso aprender a lição dos simples, desarmados, sem segundas intenções, em favor da consciência solidária, do empenho, do cuidado com os outros, no uso do dinheiro; num mundo onde o de cima pisa no de baixo, o rico ignora o pobre, o bem-sucedido zomba do fracassado, o forte esgana o fraco, o “adiantado” se distancia do “atrasado”, e o desenvolvido ignora o subdesenvolvido.

A prosperidade, o sucesso, os resultados numéricos favoráveis, são realidades distantes da abertura de salvação e libertação oferecidas gratuitamente por Deus, na profunda intuição do Reino. Deveria interessar-nos o pensador hebreu, na síntese do pensamento rabínico disposto nos evangelhos, quando aborda as questões do “bolso” e do dinheiro (kissóh), diante das formas complexas, do esforço cultural de explicar o desastre da riqueza egoísta à luz da escatologia apocalíptica preferencial. Trata-se de um abalo nos fundamentos, uma hecatombe sob o juízo de Deus, ante uma escatologia que aponta um mundo novo sem males nem dores; um mundo solidário e disposto à partilha dos bens preciosos da economia moderna. Conforme o evangelho de Jesus Cristo.
Derval Dasilio


17o. DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES – ANO “A”

Gênesis 29,15-28 – Um bom discernimento comporta bons frutos
Salmo 128 –  Do trabalho de tuas mãos comerás…
Romanos 8,28-30 – Predestinou-nos para sermos a imagem de seu Filho
Mateus 13, 44-52 – Ele vende todos os seus bens e compra aquele campo

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ERVAS DANINHAS NA PORTA DO PARAÍSO

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ERVAS DANINHAS NA PORTA DO PARAÍSO

cizânia 1Jesus mostra que é necessário abrir a mente e o coração para acolher a utopia do Reino com esperança, não passivamente ou com indiferença, àqueles que aparecem diante de nós como diferentes. Exatamente o contrário do que ensinam fundamentalista e exclusivistas, homófobos, propositistas, partidários, intolerantes. Não podemos ignorar que, na parábola da cizânia, a presença do mal permanece na história de todos nós. Reconhece Jesus a presença do inimigo que semeia a cizânia no campo plantado com boa semente. A mensagem é esta: é possível confundir a semente boa com a semente má. Fogo amigo, como se diz na arte da política, prejudica as melhores causas. Muitas vezes, dividir a humanidade entre bons e boníssimos, maus e malíssimos, oferecendo-se o prêmio de salvação para os primeiros e a condenação para os segundos, confunde-nos ainda mais. Isso pode trazer, por equívoco, prejuízos irreparáveis às comunidades de fé.

Jacó, que roubara a primogenitura do irmão, consegue a bênção do pai, Isaque, após ter enganado Esaú (Gen 28,10). Foge do irmão que poderia matá-lo, pelo roubo da primogenitura. O texto descreve o deslocamento de Beer-Sheva para Haran. Trata-se, como se observa na tradução dos termos, de um lugar para outro lugar. Logo depois, Jacó “depara-se com ‘o lugar’ e lá se deita, porque caía o sol”. A construção hebraica é inusitada: “va-ifgá ba-makon”, quer dizer: foi pego, atraído, seduzido, pelo sagrado do lugar. Que lugar é esse? A noção do ‘lugar’ torna-se o drama concreto. Jacó não está simplesmente ‘num lugar’, mas ‘neste lugar’ (“bá makon há-hú”). É aqui que Jacó tem seu famoso sonho, no qual vê uma escada, e por ela subindo e descendo anjos, do céu.

Quando desperta, lemos: “Acordou Jacó de seu sono e disse: Certamente ‘há Deus neste lugar’ e eu não o ‘penetrava’”. André Chouraqui, teólogo judeu, traduz o verbo “yadáh” tanto no sentido de ‘saber’ como no de ‘penetrar’. Esse entendimento bíblico da palavra ‘penetrar’ equivale a conhecer uma mulher penetrando-a. Um acesso fantástico a dimensões e memórias uterinas ancestrais. Em seu momento de crise Jacó “penetra” no lugar onde as intenções criadoras de Deus se revelam. Busca o fundamento de tudo, o útero de todas as utopias, e encontrando-o compreende: “quão terrível é este lugar!

O lugar é nada menos que a casa de Deus, sua habitação, “porta do céu”. Jesus disse: “na casa de meu Pai há muitas moradas…”. Em Jacó também se cumpre o duplo movimento, saindo do espaço doméstico, penetrando o espaço interior profundo dos grandes sonhos da humanidade (Luther King: “eu tenho um sonho…”). “Bet-el” (porta do céu) é o contrário de “Bab-el” (portal dos deuses). Na Bíblia Hebraica, “Bet-el” é um centro de expansão para os quatro pontos cardeais da Terra, no olhar de Abraão: “em ti será bendita toda a tua descendência…”. Jacó caminha para Deus, quer entender suas intenções (Shöekel).

A humanidade quer ir sempre atrás da vida, da felicidade, da justiça e liberdade. Grandes sonhos. Sonhar com justiça social, inclusão, dignidade e vida plena faz parte do que anseiam homens e mulheres, onde quer que estejam, em qualquer parte do mundo. O sonho é alguma coisa que não se pode tirar de ninguém. Escravos sonham, oprimidos pela violência das sociedades injustas, dominados culturalmente e explorados pelas estruturas de poder, sonham com a libertação. Na vida de fé, convém observar, com as lentes da esperança, o passado profético, as intenções libertárias de Deus. Quem tem fé sonha com as transformações, tem esperança de um mundo novo e reconciliado. Por que negamos as utopias? Por que temos que nos orientar, tantas vezes, pelos sonhos de não-cristãos?

Lembremo-nos que a utopia não evolui do nada. Ela sempre parte da experiência humana, dos anseios humanos por justiça, contra as escravidões, e novas construções do que deve ser verdadeiramente humano: a República de Platão; a Cidade de Deus, de Santo Agostinho; a Utopia, de Thomas Morus; a Cidade da Eterna Paz, de Immanuel Kant; o Paraíso do Proletariado, de Marx; o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, são obras precedidas pela utopia e pela fé, conforme vemos, no exame das Escrituras.

Porém, o Reino de Deus é apresentado para nós como uma comunidade de trigo e de cizânia, de justos e de pecadores. Melhor ainda: uma comunidade de pessoas às vezes justas e outras tantas vezes pecadoras. Lutero diria: simul peccator et justus: ao mesmo tempo justos e pecadores. Hoje, como nos tempos de Jesus e durante toda a história da humanidade, costumamos dividir e “organizar” a vida eclesiástica com critérios que consideramos corretos: bons e maus devem estar separados e colocados em extremos opostos.

Esta opinião, dividir entre “bons” e “maus”, era frequentemente aceita por grupos no tempo de Jesus (fariseus e essênios = legalistas e puristas religiosos). Da mesma forma, era opinião aceita por grupos ideológicos, econômicos e políticos (por herodianos, saduceus e zelotes; por governistas e revolucionários radicais). Pois todos eles se viam como adversários, inclusive aqueles que não pensavam, ou não acreditavam, ou não opinavam, segundo os mesmos critérios citados. Uma radicalidade com critérios de justiça deveria ser sempre maior, e sem exclusão. Não é.

O sonho da igreja apostólica e profética não acabou! Adaptadores ideológicos de eclesiologias importadas, pragmáticas, gananciosas, exigentes de resultados numéricos, imediatamente, enganam-se, enquanto procuram enganar-nos sobre sua compreensão do lugar de Deus neste mundo. Fieis a Cristo, porém, toleram a cizânia, enquanto aguardam a ação de Deus. A missão provém de Deus, e não das falsas urgências e escolhas humanas, num universo de desesperados que fogem da mesma, em pânico. O Deus de Jacó é o Deus “que age em um lugar sagrado”: “quão terrível é este lugar”! O lugar é nada menos que a casa de Deus, sua habitação é o mundo. Esse lugar deverá ter “uma porta para todos os céus” (Bet-el).

As parábolas do evangelho têm uma mensagem que deve chegar a todos os fiéis e a todos os seres humanos. Jesus se revela àqueles que o buscam, trazendo ensinamentos do passado, evocando a herança de fé, que perpassa as eras e os séculos. No passado estão nossos pais e avós ancestrais, estreitamente ligados aos grandes sonhos da humanidade, como lembra Jesus, e também a figura de Jacó. É preciso que a Igreja compreenda o lugar sagrado onde Deus está presente, o mundo, e participe dos sonhos libertadores que estavam em sua fundação. O lugar sagrado onde Deus está é o mundo, com todas as suas imperfeições.

Derval Dasilio

16o. DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES – ANO “A”

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IGREJA – ONDE ESTÁS?

IGREJA – ONDE ESTÁS?

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semeando (a melhor)O evangelho de Mateus complementa a imagem tão poderosa e sugestiva com a ‘parábola do semeador’. Nesta parábola os elementos decisivos são a excelente qualidade da semente e a boa disposição do terreno. O semeador lança uma semente de excelente qualidade e o faz com a generosidade e a esperança de quem ama seu campo de cultivo. Não poupa esforços e nem sementes, as coloca inclusive em lugares onde não se espera nenhum resultado, uma vez que seu interesse não é conservar, mas esperar que essa semente frutifique o mais possível.

O outro elemento decisivo é o terreno, que responde de diferentes maneiras segundo a ‘qualidade’ da terra. A boa disposição de cada pedaço da parcela constitui o fator decisivo para o êxito do empreendimento. A semente é boa, mas nem sempre o terreno, que deverá responder de maneira desigual. A vida humana, por sua vez, é um portento, um fenômeno que não se compara a nenhuma outra forma de vida, tantas são as experiências possíveis, algumas até prodigiosas, que se dá a qualquer homem ou mulher. As que se perdem ou se diluem na memória, e as que vencem as barreiras do tempo e permanecem vivas para sempre.

A história de uma vida começa num determinado lugar, num ponto qualquer que as lembranças familiares descrevem. No meu caso, já na espreita dos últimos anos que vão se enfileirando no tempo com uma velocidade inesperada, muito maior que as que me permitiam um jipe que meu pai me dava para dirigir, ainda imberbe, nas estradas de terra de uma vila, no interior do Espírito Santo, depois município que ele próprio ajudou a fundar. Nas plantas, a vitalidade permanente é encontrada no rizoma. A vida invisível permanece, mesmo que uma espécie floral dure apenas uma primavera e desfolhe, feneça, murche, seque e desapareça no curto prazo de uma estação. Porém, o sentido da perenidade da vida, como lembrava Carl Jung, se estende por tempos sem memórias, mesmo quando as aparições, efêmeras ou não, deixam de ser registradas.

Precisamos da ajuda das Escrituras por inteiro, para compreender que o “quê” Deus nos comunica não é lançado no vazio, mas é dirigido aos ‘terrenos cultivados’. Ou seja, a todas as pessoas que com devoção e carinho preparam sua mente e seus sentimentos, para que seja eficaz, que elas recebem por meio dos profetas, aqueles que mostram os sinais dos tempos, enquanto observamos os ciclos da natureza. Deste modo a comparação ressalta dois elementos muito importantes: a Palavra se dirige aos solos férteis onde a semente já repousa e a palavra retorna à sua fonte de origem: o coração dos homens.

Aprendo com ipês roxos, ou quaresmeiras, que se eternizam nas serras de Pontões, nas montanhas vertentes do Caparaó, bem próximas do lugar onde nasci, que a vida humana é uma floração sempre em substituição, enquanto a ceifa e a colheita vão ocorrendo estação pós estação, sem que o “rizoma”, a energia que faz gerar a vida, desapareça. Aprendo também que o estrondo de uma peroba de trinta metros, quando cortada no meio da mata, dura apenas alguns segundos. Porém, a floresta em silêncio continuará a abrigar os ninhos dos pássaros que se reproduziram por séculos, enquanto a árvore tombou, espalhando sementes que brotarão. Árvores vão nascer do seu tombo ruidoso. Os pássaros continuarão nascendo, e cantando o canto maravilhoso, as árvores crescerão, e produzirão frutos e sementes, anunciando a perenidade da vida sempre preservada por uma energia misteriosa e inexplicável.

A vida humana é frágil, sem a proteção contra as forças natureza, a agressão de seus semelhantes e do ambiente em que se encontra, condenada à destruição. Sofrendo sob finitudes comuns, sendo vulnerável, imperfeita e indefesa, as palavras proféticas e insurgentes não permitirão que a esperança seja sufocada no conformismo com o sofrimento e a dor da Criação e do homem, violentados sem piedade.

Entre os mais profundos anseios humanos, a salvação da Criação se inclui na concepção de um mundo sem males, uma existência defendida preservada como dom de Deus, conforme relatam os evangelhos. Entre nós, latino-americanos, o flagelo da injustiça, das desigualdades na exclusão social, a absoluta miséria de grande parte da população, confere o direito de clamar por salvação. Os gemidos lancinantes da terra toda, da humanidade, chegam ao trono do Deus que reina sobre os homens e o mundo criado. O cântico ecumênico clama: “Venha o teu Reino, Senhor,/a festa da vida recria, /a nossa espera e ardor/transforma em plena alegria”!, que meu amigo Silvio Meinck compôs.

Teillard Chardin (Hino à Matéria), faz uma leitura muito positiva nessa linha: este mundo não pode ignorar a evolução da Criação na direção da plena liberdade, o Criador não criou um mundo destinado a permanecer extático, para ser contemplado como imutável, desde priscas eras, nos primórdios do tempo. Se assim fora, os seres vivos estariam condenados à fossilização, e com eles ao empedramento da própria vida. As forças cegas do caos jamais seriam vencidas. A obra de Deus está nas mãos do homem e da mulher. Desenvolvê-la de forma sustentável, não o contrário (exaurindo os recursos sem reaproveitá-los), reintegrando e recriando processos novos de preservação, torna-se essencial como parte das intenções de Deus, enquanto a questão de fundo é a sustentação da vida. A Criação, como o ser humano, também necessita de salvação, tem que participar do direito à libertação; o que se formou no universo criado é parte da história humana, de nosso ser, espera pela graça e pela salvação.

A vida de fé, comprometida com as lutas dos oprimidos, nesse caso a humanidade inteira, se pensamos numa ética salvadora inspirada na teologia paulina, refere-se ao confronto necessário com as grandes corporações, como o G-8, que controlam economicamente o mundo todo, determinando as consequências que assolam impiedosamente mais de 5 bilhões de seres humanos. Não promete servir ao bem comum, resulta na insistência de escolher apenas um hemisfério, acima da linha do Equador, para um desenvolvimento de privilegiados e já “incluídos” no mundo desenvolvido. A mudança da práxis exige também uma mudança da “fé”. Onde estão os cristãos? Onde está a Igreja? Com os que discriminam os povos, ou com os que incluem a humanidade inteira e a Criação no projeto de Deus em Jesus Cristo?

Derval Dasilio

15o. DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES – ANO “A”

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ESCORRAÇADOS DO CÍRCULO PRIVILEGIADO

ESCORRAÇADOS DO CÍRCULO PRIVILEGIADO

“Mas, a quem compararei esta geração? É semelhante aos meninos que se assentam nas praças, e clamam aos seus companheiros, / E dizem: Tocamo-vos flauta, e não dançastes; cantamo-vos lamentações, e não chorastes”. São palavras de Jesus, conforme o evangelho de Mateus(11,16-19,25-30).  

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Não cabem, aqui, pseudotranscendências, afirmações metafísicas, doutrinárias, que exploram a incapacidade humana de pensar no amor indizível. É necessário conferir a Deus plenitude duradoura, sobre a alegria e o lamento.  Como encarnação de Deus na vida do pobre e necessitado, no tocamos a flauta n. dançastemundo que sofre em razão das desigualdades, da ganân- cia, da exclusão, do preconceito, da intolerân- cia. O Evangelho nos recordará, sempre, um movimento nessa direção, da parte daquele que sofre: “… eu sou pobre e infeliz, mas o Senhor cuida de mim!”, na mensagem do Salmo 40. Demolir a construção do que nos têm sido dito sobre espiritualidade intimista, redenção e salvação, é um trabalho árduo, com nossas mentes, na busca da essencialidade de Deus. E da essência da vida que só Deus parece querer sustentar.

https://lucigama.wordpress.com/2014/07/02/escorracados-do-circulo-privilegiado/#comments

Cada geração tem interrogado sobre Jesus Cristo de uma maneira peculiar, buscando entender onde Deus se revela em favor oprimido e sofredor, mas dificilmente buscamos essa compreensão no mundo e ambiente distante ou próximo. O texto (Mateus 11,16-19,25-30), porém, apresenta-nos absolutos interessantes: nem o judaísmo oficial do tempo apostólico pensava assim, sobre um Deus acolhedor, carinhoso, misericordioso, terno para com os atropelados e atirados à margem da vida. Nem os primeiros cristãos imaginaram Jesus como neste texto de louvor e ação de graças. Poucos se atreveram a colocar na boca de Jesus palavras como essas, audazes e dominantes: “Venham a mim os que sofrem!” Sempre se articula com retoques pertinentes a experiência de Deus de uma maneira onde há distanciamento, no sentido de emoções externadas mais diretamente, dirigidas aos que sofrem.

Temos um convite para desfrutar a alegria da vida com Deus, e viver.  Cantar e dançar com alegria e liberdade; lamentar e indignar-nos com o abandono dos mais fracos à margem da vida. Vida bem-aventurada, no chamado de Jesus. Evidente é que o gozo, a alegria, se apoia na beleza e na simplicidade, no observar dos mais humildes, ingênuos, pacíficos, não-violentos, serenos, enfim, os que são amados por Deus. Tudo isso porque Cristo, antes de tudo é revelação de Deus; é aquele que se apresenta com um coração terno, manso, pacificador dos homens e das mulheres, e não como alguém em busca de vitória a qualquer custo, de sucesso impondo-se sobre os outros, com força econômica, intelectual ou política. A oração atribuída a S.Francisco talvez caiba aqui: “dá-me a serenidade para aceitar as coisas que eu não posso mudar, coragem para mudar as coisas que eu possa, e sabedoria para que eu saiba as diferenças, vivendo um dia a cada vez, aproveitando um momento de cada vez, aceitando as dificuldades como um caminho para a paz”.

Um exemplo para a igreja. É também sinal de acolhimento dos maltratados pela vida, oprimidos e escorraçados do meio privilegiado. Até mesmo pelo fato de estarem vivos, incomodando com sua pobreza e miséria o mundo hostil, que expressa nojo e repulsa para com o pobre e necessitado. Um mundo eivado de sinais de morte, de antimilagres, derrotas, fracassos, pobreza, miséria, doença, violência. Matamos moradores de rua nas noites quentes de nossas metrópoles, espancamos prostitutas indefesas até à morte. Estas são pessoas chamadas de “improdutivas”. Gente que não oferece resultados sociais e econômicos, e mal sobrevive com benefícios governamentais ínfimos. Mas a igreja parece recusar e negar o papel que lhe cabe, de mãe generosa, símbolo de nutrição para os famintos de justiça, e crescimento para os diminuídos quanto à sua importância no grupo humano e na coletividade.

A identidade coletiva se confunde com as identidades multiplicadas da igreja cristã. Sob princípio bíblico-teológico a igreja seria o lugar de acolhimento para peregrinos extenuados, abrigo para flagelados; lugar onde se luta por terra para os desterrados, albergue para quem mora rua; lugar onde o fraco e o doente recebem alimento para aliviar a fome, medicamentos, curativos para mutilados e feridos; praia para vítimas de naufrágios repetidos, porto seguro para viajantes surpreendidos em tempestades, rosto e existência para identidades abandonadas no anonimato, desfiguradas, esquecidas como se não existissem.

Num templo frequentado pelo populacho, no centro da Cidade do México, estava o cartaz: “Amados paroquianos, cuidado com seus pertences…”. Gandhi, enquanto residia na África do Sul, procurou uma igreja evangélica, depois de uma noite inteira lendo os Evangelhos, e leu na porta: “Proibida a entrada de cães e negros…”. Tanta indignidade imposta, esmagamento das pessoas, aviltamento da condição humana, requer uma atenção para com o convite de Cristo: “Que venham a mim todos os que estão cansados e oprimidos, eu lhes darei alívio”.

O Deus da Bíblia ama menos que a mãe humana, que a igreja representa? Como Deus poderia fazê-lo, se seus filhos passam fome, não têm o que os outros têm, enquanto afirmamos que a igreja não é socialmente responsável pelos decaídos, e sim os poderes públicos? Se são identificados com desterrados, exilados dentro de uma sociedade egoísta, impiedosa, exigente dos privilégios do bem-estar, das bem-aventuranças do conforto e da saciedade? Místicos alemães do século 12, como Matilde de Magdenburgo, se exprimiam: “Quando o sangue do meu coração escorreu para a terra, o céu se abriu vergado pela dor”. É compaixão pelos cansados da injustiça e oprimidos por sistemas de pensar que justificam privilégios de pessoas e classes, desigualdades, violência e ganância.

Certamente, Matilde entendeu como o coração de Deus tem compaixão pelo que sofre, o marginalizado, o excluído do mundo dos bem-postos, do qual somos parte. A igreja de Deus deveria envergonhar-se, quando famintos, doentes, desterrados, moradores de rua, amontoam-se e dormem na calçada em frente.  O hebreu bíblico usa a palavra rahamim (“ter entranhas”, “ter coração”) para identificar a compaixão de Deus pelo oprimido, pobre, aflito, despojado, sem-posses, sem-nada. Deus é como a mãe que vê seus filhos com extremo cuidado, chora com seu sofrimento e dor, acolhendo-os sempre com amorosa compaixão.

Derval Dasilio

14o. DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES – ANO “A”

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