ESCORRAÇADOS DO CÍRCULO PRIVILEGIADO

“Mas, a quem compararei esta geração? É semelhante aos meninos que se assentam nas praças, e clamam aos seus companheiros, / E dizem: Tocamo-vos flauta, e não dançastes; cantamo-vos lamentações, e não chorastes”. São palavras de Jesus, conforme o evangelho de Mateus(11,16-19,25-30).  

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Não cabem, aqui, pseudotranscendências, afirmações metafísicas, doutrinárias, que exploram a incapacidade humana de pensar no amor indizível. É necessário conferir a Deus plenitude duradoura, sobre a alegria e o lamento.  Como encarnação de Deus na vida do pobre e necessitado, no tocamos a flauta n. dançastemundo que sofre em razão das desigualdades, da ganân- cia, da exclusão, do preconceito, da intolerân- cia. O Evangelho nos recordará, sempre, um movimento nessa direção, da parte daquele que sofre: “… eu sou pobre e infeliz, mas o Senhor cuida de mim!”, na mensagem do Salmo 40. Demolir a construção do que nos têm sido dito sobre espiritualidade intimista, redenção e salvação, é um trabalho árduo, com nossas mentes, na busca da essencialidade de Deus. E da essência da vida que só Deus parece querer sustentar.

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Cada geração tem interrogado sobre Jesus Cristo de uma maneira peculiar, buscando entender onde Deus se revela em favor oprimido e sofredor, mas dificilmente buscamos essa compreensão no mundo e ambiente distante ou próximo. O texto (Mateus 11,16-19,25-30), porém, apresenta-nos absolutos interessantes: nem o judaísmo oficial do tempo apostólico pensava assim, sobre um Deus acolhedor, carinhoso, misericordioso, terno para com os atropelados e atirados à margem da vida. Nem os primeiros cristãos imaginaram Jesus como neste texto de louvor e ação de graças. Poucos se atreveram a colocar na boca de Jesus palavras como essas, audazes e dominantes: “Venham a mim os que sofrem!” Sempre se articula com retoques pertinentes a experiência de Deus de uma maneira onde há distanciamento, no sentido de emoções externadas mais diretamente, dirigidas aos que sofrem.

Temos um convite para desfrutar a alegria da vida com Deus, e viver.  Cantar e dançar com alegria e liberdade; lamentar e indignar-nos com o abandono dos mais fracos à margem da vida. Vida bem-aventurada, no chamado de Jesus. Evidente é que o gozo, a alegria, se apoia na beleza e na simplicidade, no observar dos mais humildes, ingênuos, pacíficos, não-violentos, serenos, enfim, os que são amados por Deus. Tudo isso porque Cristo, antes de tudo é revelação de Deus; é aquele que se apresenta com um coração terno, manso, pacificador dos homens e das mulheres, e não como alguém em busca de vitória a qualquer custo, de sucesso impondo-se sobre os outros, com força econômica, intelectual ou política. A oração atribuída a S.Francisco talvez caiba aqui: “dá-me a serenidade para aceitar as coisas que eu não posso mudar, coragem para mudar as coisas que eu possa, e sabedoria para que eu saiba as diferenças, vivendo um dia a cada vez, aproveitando um momento de cada vez, aceitando as dificuldades como um caminho para a paz”.

Um exemplo para a igreja. É também sinal de acolhimento dos maltratados pela vida, oprimidos e escorraçados do meio privilegiado. Até mesmo pelo fato de estarem vivos, incomodando com sua pobreza e miséria o mundo hostil, que expressa nojo e repulsa para com o pobre e necessitado. Um mundo eivado de sinais de morte, de antimilagres, derrotas, fracassos, pobreza, miséria, doença, violência. Matamos moradores de rua nas noites quentes de nossas metrópoles, espancamos prostitutas indefesas até à morte. Estas são pessoas chamadas de “improdutivas”. Gente que não oferece resultados sociais e econômicos, e mal sobrevive com benefícios governamentais ínfimos. Mas a igreja parece recusar e negar o papel que lhe cabe, de mãe generosa, símbolo de nutrição para os famintos de justiça, e crescimento para os diminuídos quanto à sua importância no grupo humano e na coletividade.

A identidade coletiva se confunde com as identidades multiplicadas da igreja cristã. Sob princípio bíblico-teológico a igreja seria o lugar de acolhimento para peregrinos extenuados, abrigo para flagelados; lugar onde se luta por terra para os desterrados, albergue para quem mora rua; lugar onde o fraco e o doente recebem alimento para aliviar a fome, medicamentos, curativos para mutilados e feridos; praia para vítimas de naufrágios repetidos, porto seguro para viajantes surpreendidos em tempestades, rosto e existência para identidades abandonadas no anonimato, desfiguradas, esquecidas como se não existissem.

Num templo frequentado pelo populacho, no centro da Cidade do México, estava o cartaz: “Amados paroquianos, cuidado com seus pertences…”. Gandhi, enquanto residia na África do Sul, procurou uma igreja evangélica, depois de uma noite inteira lendo os Evangelhos, e leu na porta: “Proibida a entrada de cães e negros…”. Tanta indignidade imposta, esmagamento das pessoas, aviltamento da condição humana, requer uma atenção para com o convite de Cristo: “Que venham a mim todos os que estão cansados e oprimidos, eu lhes darei alívio”.

O Deus da Bíblia ama menos que a mãe humana, que a igreja representa? Como Deus poderia fazê-lo, se seus filhos passam fome, não têm o que os outros têm, enquanto afirmamos que a igreja não é socialmente responsável pelos decaídos, e sim os poderes públicos? Se são identificados com desterrados, exilados dentro de uma sociedade egoísta, impiedosa, exigente dos privilégios do bem-estar, das bem-aventuranças do conforto e da saciedade? Místicos alemães do século 12, como Matilde de Magdenburgo, se exprimiam: “Quando o sangue do meu coração escorreu para a terra, o céu se abriu vergado pela dor”. É compaixão pelos cansados da injustiça e oprimidos por sistemas de pensar que justificam privilégios de pessoas e classes, desigualdades, violência e ganância.

Certamente, Matilde entendeu como o coração de Deus tem compaixão pelo que sofre, o marginalizado, o excluído do mundo dos bem-postos, do qual somos parte. A igreja de Deus deveria envergonhar-se, quando famintos, doentes, desterrados, moradores de rua, amontoam-se e dormem na calçada em frente.  O hebreu bíblico usa a palavra rahamim (“ter entranhas”, “ter coração”) para identificar a compaixão de Deus pelo oprimido, pobre, aflito, despojado, sem-posses, sem-nada. Deus é como a mãe que vê seus filhos com extremo cuidado, chora com seu sofrimento e dor, acolhendo-os sempre com amorosa compaixão.

Derval Dasilio

14o. DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES – ANO “A”

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