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ERVAS DANINHAS NA PORTA DO PARAÍSO

cizânia 1Jesus mostra que é necessário abrir a mente e o coração para acolher a utopia do Reino com esperança, não passivamente ou com indiferença, àqueles que aparecem diante de nós como diferentes. Exatamente o contrário do que ensinam fundamentalista e exclusivistas, homófobos, propositistas, partidários, intolerantes. Não podemos ignorar que, na parábola da cizânia, a presença do mal permanece na história de todos nós. Reconhece Jesus a presença do inimigo que semeia a cizânia no campo plantado com boa semente. A mensagem é esta: é possível confundir a semente boa com a semente má. Fogo amigo, como se diz na arte da política, prejudica as melhores causas. Muitas vezes, dividir a humanidade entre bons e boníssimos, maus e malíssimos, oferecendo-se o prêmio de salvação para os primeiros e a condenação para os segundos, confunde-nos ainda mais. Isso pode trazer, por equívoco, prejuízos irreparáveis às comunidades de fé.

Jacó, que roubara a primogenitura do irmão, consegue a bênção do pai, Isaque, após ter enganado Esaú (Gen 28,10). Foge do irmão que poderia matá-lo, pelo roubo da primogenitura. O texto descreve o deslocamento de Beer-Sheva para Haran. Trata-se, como se observa na tradução dos termos, de um lugar para outro lugar. Logo depois, Jacó “depara-se com ‘o lugar’ e lá se deita, porque caía o sol”. A construção hebraica é inusitada: “va-ifgá ba-makon”, quer dizer: foi pego, atraído, seduzido, pelo sagrado do lugar. Que lugar é esse? A noção do ‘lugar’ torna-se o drama concreto. Jacó não está simplesmente ‘num lugar’, mas ‘neste lugar’ (“bá makon há-hú”). É aqui que Jacó tem seu famoso sonho, no qual vê uma escada, e por ela subindo e descendo anjos, do céu.

Quando desperta, lemos: “Acordou Jacó de seu sono e disse: Certamente ‘há Deus neste lugar’ e eu não o ‘penetrava’”. André Chouraqui, teólogo judeu, traduz o verbo “yadáh” tanto no sentido de ‘saber’ como no de ‘penetrar’. Esse entendimento bíblico da palavra ‘penetrar’ equivale a conhecer uma mulher penetrando-a. Um acesso fantástico a dimensões e memórias uterinas ancestrais. Em seu momento de crise Jacó “penetra” no lugar onde as intenções criadoras de Deus se revelam. Busca o fundamento de tudo, o útero de todas as utopias, e encontrando-o compreende: “quão terrível é este lugar!

O lugar é nada menos que a casa de Deus, sua habitação, “porta do céu”. Jesus disse: “na casa de meu Pai há muitas moradas…”. Em Jacó também se cumpre o duplo movimento, saindo do espaço doméstico, penetrando o espaço interior profundo dos grandes sonhos da humanidade (Luther King: “eu tenho um sonho…”). “Bet-el” (porta do céu) é o contrário de “Bab-el” (portal dos deuses). Na Bíblia Hebraica, “Bet-el” é um centro de expansão para os quatro pontos cardeais da Terra, no olhar de Abraão: “em ti será bendita toda a tua descendência…”. Jacó caminha para Deus, quer entender suas intenções (Shöekel).

A humanidade quer ir sempre atrás da vida, da felicidade, da justiça e liberdade. Grandes sonhos. Sonhar com justiça social, inclusão, dignidade e vida plena faz parte do que anseiam homens e mulheres, onde quer que estejam, em qualquer parte do mundo. O sonho é alguma coisa que não se pode tirar de ninguém. Escravos sonham, oprimidos pela violência das sociedades injustas, dominados culturalmente e explorados pelas estruturas de poder, sonham com a libertação. Na vida de fé, convém observar, com as lentes da esperança, o passado profético, as intenções libertárias de Deus. Quem tem fé sonha com as transformações, tem esperança de um mundo novo e reconciliado. Por que negamos as utopias? Por que temos que nos orientar, tantas vezes, pelos sonhos de não-cristãos?

Lembremo-nos que a utopia não evolui do nada. Ela sempre parte da experiência humana, dos anseios humanos por justiça, contra as escravidões, e novas construções do que deve ser verdadeiramente humano: a República de Platão; a Cidade de Deus, de Santo Agostinho; a Utopia, de Thomas Morus; a Cidade da Eterna Paz, de Immanuel Kant; o Paraíso do Proletariado, de Marx; o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, são obras precedidas pela utopia e pela fé, conforme vemos, no exame das Escrituras.

Porém, o Reino de Deus é apresentado para nós como uma comunidade de trigo e de cizânia, de justos e de pecadores. Melhor ainda: uma comunidade de pessoas às vezes justas e outras tantas vezes pecadoras. Lutero diria: simul peccator et justus: ao mesmo tempo justos e pecadores. Hoje, como nos tempos de Jesus e durante toda a história da humanidade, costumamos dividir e “organizar” a vida eclesiástica com critérios que consideramos corretos: bons e maus devem estar separados e colocados em extremos opostos.

Esta opinião, dividir entre “bons” e “maus”, era frequentemente aceita por grupos no tempo de Jesus (fariseus e essênios = legalistas e puristas religiosos). Da mesma forma, era opinião aceita por grupos ideológicos, econômicos e políticos (por herodianos, saduceus e zelotes; por governistas e revolucionários radicais). Pois todos eles se viam como adversários, inclusive aqueles que não pensavam, ou não acreditavam, ou não opinavam, segundo os mesmos critérios citados. Uma radicalidade com critérios de justiça deveria ser sempre maior, e sem exclusão. Não é.

O sonho da igreja apostólica e profética não acabou! Adaptadores ideológicos de eclesiologias importadas, pragmáticas, gananciosas, exigentes de resultados numéricos, imediatamente, enganam-se, enquanto procuram enganar-nos sobre sua compreensão do lugar de Deus neste mundo. Fieis a Cristo, porém, toleram a cizânia, enquanto aguardam a ação de Deus. A missão provém de Deus, e não das falsas urgências e escolhas humanas, num universo de desesperados que fogem da mesma, em pânico. O Deus de Jacó é o Deus “que age em um lugar sagrado”: “quão terrível é este lugar”! O lugar é nada menos que a casa de Deus, sua habitação é o mundo. Esse lugar deverá ter “uma porta para todos os céus” (Bet-el).

As parábolas do evangelho têm uma mensagem que deve chegar a todos os fiéis e a todos os seres humanos. Jesus se revela àqueles que o buscam, trazendo ensinamentos do passado, evocando a herança de fé, que perpassa as eras e os séculos. No passado estão nossos pais e avós ancestrais, estreitamente ligados aos grandes sonhos da humanidade, como lembra Jesus, e também a figura de Jacó. É preciso que a Igreja compreenda o lugar sagrado onde Deus está presente, o mundo, e participe dos sonhos libertadores que estavam em sua fundação. O lugar sagrado onde Deus está é o mundo, com todas as suas imperfeições.

Derval Dasilio

16o. DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES – ANO “A”

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