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Ao examinar estes textos (Gen caps 37 e 40), imediatamente lembrei-me do filme “Sonhos,” do cineasta japonês Kurosawa, onde várias histórias são contadas. Sobre sonhos. Um deles deixou-me impressionado por toda vida: Um visitante de museu depara-se com um quadro de Van Gogh, não lembro o título, mas poderia ser “O Campo de Trigo”, tal a beleza. O observador, contemplando a pintura do mestre, sonha e entra virtualmente na realidade da paisagem de caminhos e trigais, “caminhando dentro do sonho”. Começa uma linda aventura. É preciso ver o filme, podem-se tirar várias conclusões, mas o que fica, mesmo, é a possibilidade de se ingressar na realidade dada através de um sonho.

Desse modo, o sonho torna-se cósmico, enquanto foge do fragor do mundo imediato. O mundo real é inquieto, incômodo. No mundo dos sonhos os homens e as mulheres têm asas, é neles que os poetas e os sonhadores e sonhadoras libertários querem ingressar. Há exigências com relação à realidade inevitável. Existe nesse mundo a miséria, a violência, a desigualdade, a exploração do outro e da outra. O sonho, porém, introduz utopias libertárias contra toda forma de dominação, de opressão, de violência contra os demais. O sonho devolve-nos a confiança no mundo (Bachelard).

José não se identifica com um pretenso “rei”, na cultura pastoril de seu tempo. Não é próprio, mas o narrador quer justificar, talvez, o que o livro de Juízes ignora: Israel sonha com um rei! Quer alguém com autoridade para governar (1Reis 8;9;10). José, ao contrário de Davi, e diferentemente de Jonas – o profeta do falso exclusivismo do “povo eleito”; que não aceita a salvação e a libertação dos pagãos, que passam pelas mesmas crises religiosas, econômicas, políticas e sociais –, aceitará  ser um agente de transformação social e econômica ofertada a um povo pagão. Representa o amor, a salvação, a graça sem preço.

O Deus de José, Deus da Bíblia, convida à fé e à esperança de salvação. José, traído, vendido como escravo, e finalmente ministro do Faraó, representa o grande salto do patriarcalismo pastoril para a economia agrícola exemplar, cumulativa, provisional: O sonho do possível, com a segurança do armazenamento de soluções para a sociedade inteira, sendo José um escravo-ministro em um sistema paganizado, um servo de Deus decisivo para se manifestar a intervenção salvadora do Deus de Israel. Há alimentos para todos nos domínios do faraó, graças à economia orientada para provisionar e distribuir equaninimente alimento para o povo. O Deus de José age na história da humanidade porque quer salvá-la de todas as fomes, inclusive a fome de justiça econômica. Deus inspira e ampara José.  

O segundo sonho de José salta do mundo agrícola para o universo estelar, algo de astrologia se destila num sonho. A crença de que povos e chefes têm no céu uma constelação que marca seu destino não é estranha à Bíblia Hebraica, nem ao Segundo Testamento (Nm 24,17 e Ap 12). Para José a salvação alcança o mundo.

Pós-industrialização, pós-modernidade, que é isso para nós? Quando se falará da pós-fome, pós-miséria, pós-insalubridade, pós-deseducação, pós-desemprego em massa? Até lá, viveremos a cultura da violência institucional, paralela à do crime organizado e corrupção dentro das próprias instituições que nos governam, enquanto comentamos o fracasso da última copa mundial. Hoje, podemos perguntar-nos como se constrói uma identidade eclesiástica; a massa tão interessada em espetáculos religiosos e templos pentecostais. CPIs promocionais e hipócritas, futebol e carnaval, se transformaria um povo que não ouve e nem vê além das encenações que encobrem a realidade dolorosa da miséria das massas populares (conhecemos políticos evangélicos que vendem a alma por um mandato).

Que novidades temos, desde José, sobre o mundo religioso povoado de necessidades falsas, teologias da ganância; “igreja-com-propósito” de enriquecer a todo custo?  Temos igrejas ricas, membresia de ricos e bem-postos, alta arrecadação, templos de 650 milhões com utensílios litúrgicos folheado a ouro. José não é um exemplo para essas igrejas. Ele tem a boa-nova de Deus, como afirmaria o apóstolo João: Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho para a salvação do mundo (cf.João 3,16).

Alguém colocou uma entrevista na internet como publicada em um grande jornal, mas era evidentemente apócrifa, como identificou um observador atento que me escreveu. Pergunta: Há solução para este país? “Já olhou o tamanho das 560 favelas do Rio? Já andou de helicóptero por cima da periferia de São Paulo?” Já observou o que se tem deixado de fazer nos bolsões de miséria deste país, enquanto um governador, candidato à presidência da república constrói aeroporto em propriedade de sua família, com recursos públicos? Igrejas roubam,  juízes também, pastores aparecem na lista das maiores fortuna; e políticos vão roubar até do crime organizado, se houver oportunidade.

Derval Dasilio

LEIA UM CONTO DE  ARIANO SUASSUNA, AQUI .

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