UM POBRE NÃO PEDE MAS EXIGE…

LEIA COMENTÁRIOS (Artigo em Resistence News)
Mateus 16,13-20 –   Temos uma análise a fazer entre as pretensões de pessoas e grupos sedentos de poder — dentro ou fora da igreja — e o contraste entre as propostas para o seguimento do caminho de Jesus. Isto fica  patente neste episódio do evangelho de Mateus. Por volta da metade do caminho, coincidindo exatamente com a “metade” do trabalho de formação dos discípulos que estão sendo preparados para o anúncio do Reino de Deus, na metade geográfica do caminho de Jerusalém. Jesus interroga seus seguidores sobre o que assimilaram até ali. 

As respostas não surpreendem: uma parte identifica-o com os profetas; outra reconhece-o como Messias e Filho de Deus, nas palavras de Pedro. Mas um problema de fundo subsiste: tanto a multidão quanto os discípulos querem subjugar a Jesus “impondo-lhe definições” do que é ser profeta, ou sugerindo a maneira que deverá ser a do Messias de Deus. Modelos que contrariam a vontade de Deus, enquanto demonstram inconsequência sobre o que lhes foi ensinado. A comunidade não entendeu nada sobre a proposta de Jesus.

Não se pode absolutizar Jesus, informa o Evangelho. A fé cristã é cristocêntrica? Ou perguntando pelo pior: a fé é “eclesiocêntrica” ou “religiocêntrica”, como muitos desejam? Onde está o miolo, a essência, depois de retiradas as camadas que envolvem a religiosidade cotidiana? Qual é o problema? É certo que as leituras de hoje mostram o quão imprescindíveis, certeiros, são os caminhos de Deus; quão insensatos, caducos, esquemáticos, doutrinários, são os caminhos que os homens constroem. No quadro, prefere-se a moldura e esquece-se quem é retratado. Jesus não é um Messias triunfalista, prepotente, impositivo, nacionalista exacerbado, apaixonado pela ideologia de algum grupo religioso ou de um partido político.  Ele pensa, diante de uma sociedade ensinada a obedecer  sem discutir, tanto à política quanto à religião.

Ele, na verdade, está a serviço das mais importantes e profundas causas humanas, que colocam em primeiro lugar a causa do pobre e seus direitos. Jesus é um profeta diferente dos que anunciam sua própria causa e a supremacia de sua própria religião. A “religião” de Jesus é justiça para com o pobre e oprimido; paz que resulta da observância do direito do pobre e do excluído; suas atitudes éticas apontam o oprimido, sem dignidade, desgraçado e desgarrado da fé e da esperança libertadora de Israel. Diferentemente, a religião que centraliza-se preferencialmente  em si mesma difere da religião de Jesus. A religião do cuidado com o pobre, o “anawin”; o esmagado, oprimido, excluído, em toda parte neste mundo.

Nossas comunidades de fé, no texto seguinte, devem estar cônscias, no caminho sobre o mar revolto, e no seguimento de Jesus debaixo de tempestades, dentro da noite escura do mundo excludente, violento, desigual. No testemunho profético ou nas recentes Diaconias Sociais, Fóruns; Combate à Corrupção; Programas que envolvem Crianças e Jovens sob Risco de Crime, da Violência, do Racismo, do Sexismo, da Pedofilia e Prostituição infanto-juvenil; Programas de Tratamento de Drogaditos, Alcoolistas, Tabagistas, Doenças frequentes ou endêmicas, e etc., discípulos seguidores de Jesus devem estar conscientes das dificuldades que deverão enfrentar ao longo de todo o percurso.

No meu caminho, quando me dirigia ao barbeiro que cuida dos meus ralos cabelos brancos, assumidos nos meus 74 anos recentes, vi a catadora de lixo, alcoólica, talvez drogadita, morta, “atrapalhando o trânsito”, como dizia Chico Buarque (“Morreu na contra-mão atrapalhando o tráfego”). Mas, caminhar é preciso, diz o poeta. Thiago de Mello, amigo Pablo Neruda, escrevia no exílio: “caminante al caminar se hace el camino”. Paulinho da Viola, magistral, canta: “não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar”. As ondas bravias, o mar encapelado, a noite escura da vida (Mt 14,22-33), se apresentam a cada passo como obstáculos que podem induzir à insegurança, ao desalento e ao medo do fracasso. Pior ainda: podem induzir-nos a acreditar no silêncio de Deus, mas numa divindade satisfeita na adoração interesseira da religiosidade dominante nos nossos dias. Deus sabe das responsabilidades não assumidas por nós, quanto à vida daquela mulher morta na calçada ao lado de sacos de lixo.

Derval Dasilio

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