EM MEMÓRIA DOS PASTORES PROFETAS

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Mateus 16.21-28: Quem perde a vida por amor de minha causa a conservará pela eternidade

Cópia de 1. JAIME CAFÉ DA MANHÃ (3)Entender o cenário onde Paulo Freire construiu a “Pedagogia do Oprimido”, a canção de Aldir Blanc “O Bêbado e a Equilibrista”, nos mínimos detalhes, além do encantamento filosófico e poético que ainda hoje nos emociona, por sua força libertária, é compreender a vida dos profetas, no exílio ou na clandestinidade. Sempre são perseguidos. Quem não sabe disso poderá tomar conhecimento do que sofreram seus pais e avós, poucas décadas atrás, e como a fé desses heróis mudou o Brasil e as igrejas, trazendo de volta a “esperança equilibrista”, por uma nação livre, democrática, respeitadora do direito à vida e direitos humanos fundamentais.

Jaime Wright, brasileiro, foi pastor presbiteriano ecumênico, começou a procurar pelo irmão, Paulo Stuart Wright, também presbiteriano – deputado cassado, sequestrado e morto clandestinamente pela ditadura militar. Aproximando-se de familiares de presos políticos participou do projeto Clamor, clandestino, que defendeu perseguidos políticos no Brasil e países da América Latina, com financiamento ecumênico intermediado diretamente pelo Conselho Mundial de Igrejas. Ajudou a reunir os documentos que deram origem ao relatório Brasil – Nunca Mais (cf. Comissão Nacional da Verdade), que revelou a extensão da repressão política no Brasil, cobrindo um período que vai de 1964 a 1985, identificando e denunciando os torturadores do regime militar, bem como desvelando as perseguições, os assassinatos, os desaparecimentos e as torturas; atos praticados nas delegacias, unidades militares e locais clandestinos mantidos pelo aparelho repressivo no Brasil. Assim foi recebido pela crítica o livro recente que escrevi sobre este profeta. Apresentei-o à Comissão Nacional da Verdade como pesquisa e depoimento sobre a participação profética do pastor Jaime Wright, como acima descrita.

O evangelho de hoje chama-nos a atenção sobre as consequências dolorosas dos ministérios proféticos. É sabido que as igrejas não assimilam bem os profetas. Jaime Wright, enquanto atuava em sua igreja nacional, foi visado por um grupo de jovens pastores fundamentalistas que o atacaram sistematicamente até conseguirem seu afastamento, em 1993. Caluniaram-no, acusaram-no de incentivar o culto de sua personalidade, enquanto exercia suas funções. Foi laureado, no exterior, mas não reconhecido dentro da comunidade da qual fora pastor, levou alguns aos tribunais. O desmentido e desagravo ocorreram diante de um juiz. Amargurado, faleceu em 1999, numa madrugada onde seu coração sucumbia. E amanhecia quando avisou  dona Alma, sua companheira de toda vida, que a dor acumulada nos últimos anos  se manifestava num infarto fulminante. O socorro chegou tarde.

A experiência das servidões, escravidões, submissões espontâneas, marcaram a vida do povo bíblico. Desde o exílio babilônico, porém, um núcleo profético, entre sacerdotes remanescentes do culto javista (encerrado com a intervenção de grupos liderados por Esdras e Neemias — aproximadamente 450 a.C. –, fundadores do judaísmo véterotestamentário, formado a partir daí). São mártires da fé, em muitos casos, que sustentam as ideias centrais, históricas, do Código da Aliança, formando o Código Deuteronômico profético, em esforços monumentais, como o de recuperar os documentos que contam a verdadeira história dos reis de Israel e seus feitos escabrosos. Alguns deles, sanguinários genocidas, exterminadores de mulheres e crianças. De acordo com os costumes que atravessam os séculos e chegam aos tempos de hoje no Oriente Médio. 

Lembremos, a época da monarquia enseja o aparecimento dos profetas de Israel, porque o plebiscito tribal renunciara ao solidarismo político-econômico tribal (socialização igualitária dos bens da comunidade), e autorizava o estabelecimento de uma monarquia absoluta, centralizado no rei. Dos 43 reis, durante 450 anos de monarquia, somente quatro reis, talvez, mereceram  elogios, na literatura profética. Os demais foram julgados como desobedientes a Yahweh.

A monarquia começa com o fracasso de Saul, mas seu sucessor (Davi) será exaltado como modelo do monarca justo – que a Bíblia Hebraica mostra, na verdade, várias vezes, como um guerreiro exterminador de povos vizinhos (o livro 1Samuel, a partir do oitavo capítulo, traz a melhor narrativa dessa escolha e suas consequências – mas é preciso considerar que foram muitas as mãos, e vários grupos ideológicos, em épocas diferentes, os que escreveram esses textos, interpretando-os conforme seus interesses: a favor do solidarismo tribal igualitário, ou a favor da monarquia absoluta).

A partir do acordo realizado entre persas e liderança israelita – por volta do ano 450 a.C. –, o Templo passara a servir às potências dominantes (Síria, Grécia Helênica, Roma, consecutivamente). Uma religião com características próprias, sobrecarregando os israelitas com preconceitos e leis racistas, exclusivismo masculino, discriminação do pobre, do deficiente e do sexualmente diferente,  legalismo religioso,  nasce depois do exílio. O Templo centraliza interesses religiosos e políticos conjugados. Merece um estudo histórico à parte. Essa religião dominava os lugares por onde Jesus passou, fazendo discípulos para sua causa, o Reino de Deus e a justiça. Os Evangelhos e as Epístolas do Novo Testamento refletem sua penetração no Mundo Antigo. 

O evangelho de Mateus traz-nos um belíssimo esquema catequético sobre o discipulado e seguimento de Jesus (Mt 16,21-28). O caminho de Jesus é incômodo, ensina sobre compromissos com a igualdade social, com a crítica à economia imperialista implantada desde os persas, gregos e romanos. Jesus ensina sobre a sociedade omissa, quanto ao direito dos desfavorecidos na base da pirâmide.

Jesus ensinou a respeito do racismo histórico, mencionou as desigualdades existentes, a ausência de direitos e dignidade; lembrou a terrível realidade de enfermos, deficientes e marginalizados sociais. Criticou fariseus e saduceus por seus compromissos com os dominadores, no sistema social, e falou claramente sobre a opressão do seu povo.  Seus ensinamentos inspiram interesse ético, no combate ao racismo, à homofobia e sexismo androcêntrico; seus ensinamentos levam  à observação da exclusão social, defesa dos direitos humanos e cidadania insurgente, em todos os tempos e momentos da história posterior, desde o momento em que pregou sob todos os riscos possíveis.

Atentos a Jesus, retornamos ao tempo em que a justiça civil, ou religiosa, não tomava conhecimento tanto da violência intrafamiliar quanto da sevícia de mulheres e crianças; abuso sexual, trabalho forçado, e da escravidão consentida, embora combatidos no Código Deuteronômico. Nesse espaço cabe a receita legalista secreta, sob medo subliminar, nojo e repulsa, para condimentar a questão das opressões. Têm em comum plataformas como as dos pastores no Congresso Nacional, enquanto misturam no prato básico, cardápio autoritário, questões da homoafetividade e a criminalidade juvenil.

Gostaríamos de viver e vivenciar uma religiosidade cômoda, garantida por regulamentos e doutrinas de vida reta. Não queremos nos arriscar, nem desejamos conflitos, a pretexto de um corporativismo e fisiologismo eclesiástico. Queremos segurança e continuidade, ao invés de correr os riscos da incompreensão no seio da família denominacional, enquanto a sociedade plural nos aceita e aprova, porque somos quietos, concordantes, omissos e não nos metemos na crítica de sistemas políticos, econômicos, ideológicos, que nos remeteriam ao passado apostólico da igreja inicial. O evangelho de Jesus, segundo o escriba Mateus, porém, continuará nos incomodando, quando nos omitimos ou escolhemos caminhos diferentes dos caminhos daquele a quem chamamos Filho de Deus.

Derval Dasilio    
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