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Mateus 18,21-35 – Devemos aprender a perdoar, aprendendo com Deus


Diante do massacre dos desprotegidos, que queremos responsabilizar pelos erros ancestrais, especialmente os da escravidão, nas rotas dos navios negreiros, que continuam a navegar em nosso meio sem ser incomodados, amar sob o medo e na escuridão da retaliação compulsiva às vítimas da eugenia socializada em pleno século vinte e um, falar de perdão ultrapassa as dimensões da linguagem da religião. Pode-se afirmar, geralmente, que a vida eclesiástica leva sempre consigo certa dose de contradição, de oposição, agressividade e até de violência. Não é estranho, pois, que se reconheça esta violência entre grupos com interesses conflitantes que se considerem inimigos e, portanto, sintam-se ameaçados em seus interesses.

Esta violência pode ser vista como elemento necessário, pelo menos potencialmente, em toda negociação. Mas não é necessária… Qualquer violência assume proporção destruidora quando nasce de uma “ideia fundamentalista” sobre o equívoco moral de alguém ou de uma comunidade.  cair na cova 1Ainda é possível sonhar com perdão e reconciliação num mundo violento, quando  pessoas parecem estar sempre na ponta dos cascos, contra outros ou outras?  Por que, na igreja, a sanha de vingança, ou retaliação, violência, sobrevive, e de vez em quando labaredas se levantam das inquisições domésticas? Por que essa predileção por cortar cabeças de opositores? Por que tem gente sempre pronta a acender o fósforo,  para incendiar a sanha moralista na comunidade?

Poderíamos formular alguns princípios fundamentais para a realização desta reconciliação: – O “perdão eclesiástico” não implica em claudicação diante da injustiça, nem a imposição da própria justiça, mas parte do desejo e do compromisso comum por uma justiça mais verdadeira. — O perdão deve atingir tanto os sujeitos responsáveis pelo “pecado” quanto a realidade “pecadora”, que é assumida para ser transformada.

A Igreja, por sua natureza sociológica, e teológica, é humana e pecadora, poderia dizer Karl Barth. Quando aponta o pecado de outros e não olha para os seus próprios pecados (Mateus 7, 3-5: Hipócrita, tira primeira a trave do teu olho, e então verás como hás de tirar o argueiro do olho de teu irmão), reflete a insistência em permanecer “pecadora”.

E é por isso que cristãos devem estar sempre dispostos a “perdoar o pecador”, e perdoar-se a si mesmos, quando há possibilidade de reconhecimento do erro, e a “perdoar a realidade” que envolve o pecado de cada um. Libertar o pecador de sua culpa, curar a realidade de miséria moral que introduz o pecado, é imprescindível entre cristãos. O perdão entre grupos só é possível quando se funda não em posição de poder e de domínio, de ameaça ou de medo, mas em atitude de reconhecimento mútuo dos direitos dos outros; de desinteresse por retaliação contra quem, eventualmente, sofreu alguma punição, mas foi acolhido com o desejo de servir melhor à comunidade inteira; servir ao bem comum, e de conquistar objetivos comuns de toda a igreja ou comunidade. Impedir a acolhida daquele ou daquela que foi por nós punida é uma absurdidade pagã inaceitável numa comunidade cristã.

A comunidade de Mateus deve resolver o problema que está afetando profundamente a vida de todos (Mt 18,21-35). O perdão é um dom, uma graça que procede do amor e da misericórdia de Deus (hesed/xáris). Há, porém, a exigência de se abrir o coração, criar um espírito de conversão.  Na comunidade se buscará a paz, onde não reina a paz prevalecem ofensas, desejo de vingança e retaliação. Portanto, a reconciliação é imprescindível, sem restrições, avançando na direção do perdão mútuo.  As instâncias, nesse caso, são definidas: primeiro em caráter pessoal; segundo, na forma deuteronômica (Dt 19,15), com testemunhas.

Na verdade, são intercessores, conciliadores, apaziguadores, mediadores da reconciliação, e não depoentes “jurídicos” de um processo condenatório de alguém. A última instância é o julgamento da comunidade.

Esse último ponto é paradoxal, talvez contraditório, porque se sobrepõe à pergunta de Pedro (“perdoar quantas vezes?”), Jesus respondia de maneira “matemática”, senão “geométrica”: “te digo” – e usa o símbolo infinito – “não sete, mas setenta vezes sete”.  Você não quer perdoar? Então assuma sua posição pagã, gentílica, anticristã, parece dizer o Evangelho.

A ofensa toma, mais adiante, um significado autoritário. Reserva-se, neste último exemplo mateusino, uma demonstração de que o homem é alvo de uma imensa misericórdia, destinatário da graça infinita e ilimitada (Sl 85,6: “Escuta minha súplica, Senhor; dá atenção ao pedido da tua Graça”).  O ensinamento simples e sem rebuços, neste final, sobre o que devemos aprender com a misericórdia de Deus (AT=hesed/NT=xáris), é aplicar a compaixão e a própria misericórdia aprendida, ao próximo devedor. Outros textos reforçam a necessidade de termos piedade do outro; a necessidade de exercitarmos a compaixão (Pr 14,21; Sl 37,21 e 26, etc.), e não devemos esquecê-la, entre os muitos deveres que não permitem a um cristão olvidar a necessidade do perdão e da reconciliação acima de todos os julgamentos, represálias e retaliações, que nos tentam sempre, quando somos ofendidos, ou quando ofendemos alguém. “Pai, perdoa as nossas ofensas assim como perdoamos a quem nos tem ofendido”. Foi assim que Jesus ensinou-nos a orar.  

Um sábio do Primeiro Testamento, Ben Sirac, escrevendo no Eclesiástico, livro  deuterocanônico (segundo cânon do AT, conferindo a importância da Bíblia Grega de Alexandria), duzentos anos antes dos evangelhos neotestamentários.  Cypriano, o Mártir,  (+250 DC), também importantíssimo na literatura sapiencial pós-testamentária, refere-se a ela, e assinala que o pecador possuído pelo sentimento da ira e da vingança, enfurecido, terá estes sentimentos voltados contra si mesmo, se não se dispuser ao perdão e à reconciliação.

Excelente terapia espiritual, na citação de Cypriano: “Quem lança uma pedra no ar, lança-a para cair na própria cabeça”; “quem abre uma cova, nela cairá, e quem arma uma cilada nela será apanhado”; “o mal que o homem comete retorna contra ele, sem que ele saiba donde veio…” (Eclo 27, 25;26;27). A harmonia dos dois testamentos traz grande proveito espiritual, não resta dúvida.

Em todos os tempos, o coração do ser humano luta com sentimentos terríveis que envolvem ódio e a vingança.  É difícil negar a vontade da represália, quando há ódio e rancor presos em nos corações. “Sentimento ilhado, louco e amordaçado”, teimoso, como na canção de Fagner, que permanece no senso comum à procura de quem pague pelos erros da sociedade inteira. Os meios de comunicação não mentem, especialmente a televisão, selecionam e escolhem o que mostrar de pior para insuflar o medo e o ódio. Por que essa escolha recai quase sempre sobre os membros mais fracos da sociedade, quando se sabe que a violência doméstica não está distante dos ambientes mais requintados, dos bem-postos socialmente?

Por que não se observa que a corrupção no Congresso Nacional é uma forma tão ou mais deletéria, porque violenta os direitos de dignidade de cada cidadão enquanto estimula a corrupção no cotidiano da comunidade [uma pesquisa da TV Globo mostrava, nas CPIs que realizavam-se em 2005, o que 48% dos entrevistados declaram: se tivessem  oportunidade, fariam o mesmo que os envolvidos no escândalo do momento]? Por que o quê se mostra sobre a violência urbana tem como cenário preferencial o lugar onde moram os empobrecidos, desprotegidos e despoderados desta sociedade?

Um psicanalista, enquanto era entrevistado sobre a violência no trânsito de S.Paulo, dizia: “Talvez seja preciso que encaremos o outro ser humano como tal, e não como um inimigo…” Ódio, violência e vingança nunca foram instrumentos válidos para resolver os grandes problemas humanos, em todos os tempos. 

A dialética da violência ou ao terror, ou a frustração pela impotência, querendo combater a injustiça, pode provocar novo processo de injustiça. Acontece como se, a partir do momento em que se desencadeia a injustiça e a violência, por exemplo, como uma intervenção injustificada numa comunidade. Ou na exclusão do diferente, ou mesmo do contraditório, agora classificado de rebelde. A verdade é que as situações eclesiásticas de reconciliação e de perdão são muito diversas, e nem em todas se dão as mesmas condições para a sua realização. É muito diferente a proposta quando se trata de divisão e até de violência entre dominadores e dominados, exploradores e explorados, empresários e trabalhadores.

24o. Domingo do Tempo Comum depois de Pentecostes – Ano “A”
Êxodo 14,19-31 – A liberdade é sempre risco, e não segurança
Salmo 114 (ou Ex 15) –  O povo de Deus libertou-se dos pagãos
Romanos 14,7-9 – Amar ao próximo e  viver para o Senhor      Mateus 18,21-35 – Aprender a perdoar, aprendendo com Deus

Derval Dasilio

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