trabalho digno

O cristianismo não é um conjunto de proibições e mandamentos, nem doutrinas irretocáveis. Como é a doutrina do dízimo coercitivo. Salvação não é tornar o homem cada vez melhor, como quer a Igreja. O cristianismo é a mensagem, evangelho de uma Nova Realidade. É esta a mensagem que realiza e preenche o possível ser essencial: “a humanidade em Cristo”. Tal ser transcende a todas as proibições e mandamentos, obrigações eclesiás- ticas, por meio de uma lei que não é lei. Todos sabem que estamos falando do imperativo do amor, coroa da Graça de Deus. O trabalho, para o evangelho, é Graça e fonte de alegria para todos. Participar do trabalho é produzir os bens que sustentam e protegem toda a sociedade humana.

Além do mais, a Graça não significa simplesmente que tenhamos conseguido progredir no controle de nossa vida financeira, em nossa luta contra determinadas faltas e rupturas nas relações com os outros homens, e com a sociedade inteira. A Graça nos alcança, quando nos achamos mergulhados em grande dor ou presos ao desassossego da injustiça, como a escravidão do trabalho explorado para enriquecer terceiros; quando andamos pelo vale escuro de uma vida vazia e carente de sentido, dispondo-nos a pagar por uma bem-aventurança qualquer (ter um carro, uma casa, um emprego rendoso…).

Quando sentimos a separação e distanciamento da realidade por alienação convicta, quanto às responsabilidades cidadãs do trabalho; quando a inconsciência é mais profunda do que deveria ser, nos inocentes ao nosso redor, induzidos à ganância, como se estivessem na direção da Graça; quando sacrificamos formas de viver a alegria e a beleza, na convivência com outras pessoas, na música, no cinema, nas artes plásticas, nos esportes de massa, nas viagens, no lazer junto à natureza, por uma vontade de “acumular capital”, fazer uma poupança e preparar uma aposentadoria futura. Melhor dizendo, por usura e sovinice.

Às vezes, em certos momentos, uma onda de luz irrompe a escuridão, um “evangelho” nas parábolas do Reino de Deus, como uma voz que nos dissesse: “És aceito pelo que é maior que tu, e cujo Nome ignoras. Não perguntes seu nome agora; talvez o descubras mais tarde. Não tentes fazer nada, agora, talvez mais tarde faças muito, além do que imaginas. Não busques nada, não realizes nada, não comeces nada para justificar a iluminação que recebeste, nem os bens originados da Graça. Não é preciso, simplesmente aceita o fato de que és aceito gratuitamente”. Escrevia Paul Tillich, no livro que me acompanha desde o seminário teológico (The Shaking of the Foundations, Pelican Books, 1963).

Aonde chegará a Graça de Jesus Cristo? O sofrimento humano se resolve com a “profissionalização” da graça de baixo preço? No púlpito evangélico conservador, inclusive, na pregação abstrata da salvação, ou no altar facultado às ofertas em dinheiro, dentro da mesma proposta de negação da graça e da misericórdia de Deus (hesed), Deus é dispensável, o dinheiro e o discurso abstrato sobre a graça, não. “Se Deus não abençoa o doador, perde o emprego, demito-o”, afirmava o pastor pentecostal ao interessado numa “graça”. Evangélicos pentecostalizados  e protestantes ortodoxos históricos diferem muito pouco, nesse aspecto. Prefere-se a graça barata em todo lugar, para lembrar Dietrich Bonhoeffer. Pouco difere o dízimo compulsório de um ou de outro.

Transformações sociais, algo de custo elevado, não se pleiteará… porque é Graça de alto preço. Quem dispõe de lantejoulas não precisa de brilhantes verdadeiros… Os primeiros aplicam-se a um mercado massificado rendoso, o evangelho da prosperidade enche os templos com o consumo de lantejoulas, e está cumprida a missão de evangelização.

Recentemente o IBGE nos informava que, dos aproximamos de 200 milhões de habitantes, metade dos brasileiros e brasileiras vive abaixo, ou apenas um pouco acima, da “linha imaginária da pobreza”, inventada por economistas. O evangelho ensinado nesta parábola de Jesus é radical: fala de trabalho e da sociedade política, tremendamente devedora aos pobres e miseráveis, indigentes econômicos; aos mal-postos, desiguais, socialmente diferentes, componentes do déficit histórico que nos acompanha desde as colônias. Precisa-se muito mais que valores transcendentais e doutrinas metafísicas na pregação dos cristãos sobre a Graça, para se alcançar a realidade dos pobres, dos desvalidos, dos esmagados e dos socialmente excluídos. Temos aqui uma sugestão do Evangelho: “os pobres, ao invés de pagar o dízimo, deveriam ser recebedores do mesmo”. Algo parecido com o bolsa-família, que cumpre muito bem com uma pequena parte que lhe cabe, ainda faltando o bolsa-saúde e o bolsa-habitação, para completar suas obrigações.

ABORRECESTE  PORQUE DOU SEM EXIGIR RETRIBUIÇÃO?

Jesus, na “parábola dos trabalhadores descontententes” com o pagamento desproporcional recebido deixa claro o modo como Deus age, bem diferente de nossa mentalidade pragmática e retributivista, à procura de resultados e recompensas proporcionais por “horas trabalhadas” (Mateus 20, 1-16). Seja em membresia expressiva da igreja, milhares, milhões, seja em contribuições financeiras, dízimos induzidos, coercitivos, sob projeções desnecessárias e mal justificadas (por que ser uma comunidade grande numericamente? Por que é necessário arrecadar dinheiro que expresse um crescimento “espiritual”, para dar salário de deputados aos pastores?).

Diante da teologia do mérito, da prosperidade, da retribuição, no sistema religioso, a Teologia da Graça pregada por Jesus se opõe diretamente ao discurso desse momento. A graça e a  misericórdia de Deus se contrapõem à mentalidade religiosa judaica dos tempos de Jesus. A partir desta perspectiva de Jesus, que conta esta parábola, a salvação não se alcança por méritos próprios, proporcionais à “santidade” e à dedicação de alguém, no esforço objetivo por algum rendimento. A misericórdia de Deus é que nos concede a recompensa e reparação de nossas necessidades. O perdão dos pecados (nossos atrasos quanto ao serviço do Reino), é libertação e reconciliação sem mérito de nossa parte. O rosto novo do cristianismo sob a graça inverte a ênfase monetária que se dá às questões de fé. Salários pastorais, diaconias interesseiras, mordomias eclesiásticas, não se refletem nessa parábola.

O contexto da parábola resultou da controvérsia de Jesus com as autoridades judaicas por sua continua relação com pessoas de duvidosa reputação, publicanos e “pecadores” (prostitutas, doentes comuns e doentes mentais, deficientes de toda ordem, leprosos, estrangeiros de outras etnias, crianças, gentílicos e mulheres, sem lugar no templo; homossexuais e mulheres adúlteras eram punidos com a morte; porém, a religião androcêntrica facultava ao macho o adultério sem punição). Aqui, a questão do trabalho e da remuneração digna iguala-se, na injustiça e no preconceito tradicional para com o pobre socialmente improdutivo (também chamado de vagabundo, como classificaram um catador de lixo crackeiro, ferozmente agredido por jovens numa via pública de Brasília).

A parábola narrada por Jesus, parte de um fato real. O proprietário representa os bem-postos da sociedade que, com suas manobras impeditivas da aplicação da justiça. Haviam usurpado os trabalhadores do campo, sonegando meios para sua sustentação e de suas famílias. Aqui, os desempregados espoliados eram os que haviam perdido tudo e se vendiam por qualquer preço para sobreviverem. Por certo havia aqueles que constituem a clientela fixa do proprietário via de regra explorador do trabalho sub-remunerado. Isto é, eram sempre contratados. Havia, também, os que apareciam sempre na última hora trazendo consigo suas necessidades familiares. Os filhos precisam comer, vestir, viver. É uma questão de vida e de dignidade no trabalho (dignitatis = atribuição de direito), quando famílias dependem do trabalho remunerado, para sobreviver.  O trabalho, mais que um simples meio de sustentação, é uma finalidade econômico-social onde ninguém deveria ser privado, pela meritocracia,  da participação construtiva da sociedade como um todo, a construção da vida, não se nega a ninguém.

A parábola também fala de salvação concreta, não de “salvação metafísica”, não só do “pecador” (a religião a que pertenciam Jesus e os apóstolos informa que pecador é o que não cumpre ou não pode cumprir a Lei religiosa). As questões do trabalho e da produção são uma realidade inescapável. Tratamos aqui, sem dúvida, da vontade de Deus, que “desce” até estas situações humanas mais humilhantes (J.Jeremias). Há exigências verdadeiras, concretas e firmes, para a vida de fé, respondendo ao evangelho.

Jesus dá a conhecer o que ele espera de seus discípulos: “Aqueles que ouvem as minhas palavras e as põe em prática é semelhante ao homem prudente” (Mt 7,24). É também correto dizer que Mateus, judeu e cristão, cinquenta anos depois de Jesus, deixa uma mensagem para “seus” cristãos, crentes de sua comunidade local, na paráfrase: “Jesus está profundamente identificado com seu tempo, quanto à cultura política e religiosa de seus dias. Não há grandes diferenças entre religiosos cristãos e do judaísmo. Poucos confiam em que a misericórdia de Deus alcança, em primeiro lugar, os pobres e  desprotegidos socialmente”.  Quem quiser desmentir a Bíblia, tem a palavra. 

Voltadas para as necessidades que precisam ser atendidas, de alimentos, habitação, urbanização humanizada, medicina de ponta socializada para os mais baixos níveis de consumidores, não há o desvio de finalidade. E quando a religião se justifica por oferecer lucro e capital, e privilégios, para poucos fieis, como alguns que se tornaram famosos milionários? O assunto é vasto, uma vez que o mundo não pode retroceder à era pré-tecnológica, como já nos lembrava Jacques Ellul (A Técnica e o Desafio do Século). Sem dúvida, estamos diante da necessidade de novos modelos de desenvolvimento e de novos sistemas econômicos, enquanto se buscam sustentabilidade e estabilidade social, face à extrema rapidez dos insumos tecnológicos.

25ºDomingo do Tempo Comum depois de Pentecostes
Êxodo 16,2-15 – É Deus que dá o pão, apesar das queixas de insuficiência…
Salmo 105,1-6;37-45 –  Com o pão do céu Deus saciou a fome do povo
Filipenses 1, 21-30 – Para mim, a graça é bastante, e ponto final…
Mateus 20, 1-16 – Invejas por que dou sem exigir retribuição?

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