Nesta paráeucaristia (10)bola (Mateus 22,1-14), toda a Criação será restaurada, e comemorará com um banquete. A temática nos levará a uma configuração do Reino de Deus, segundo a mensagem profética de Jesus Cristo, lendo com atenção, observada a linguagem diferenciada própria de Mateus sobre o sentido do corpo dado em sacrifício, enquanto se identificam os céus como símbolos de plenitude. A vida com Deus, o lugar onde se constata sua presença, suas ações libertadoras. A esperança de Jesus de que o reinado de Deus fosse irromper logo, abrindo um nova era, antes mesmo que seus contemporâneos viessem a falecer, é confirmada nos vaticínios e nas parábolas de Jesus relatadas por Mateus (cmp. Mc 13,13; Mt 10,23, par.). “Vamos comemorar, juntos, em comunhão com o Senhor (koinonia), a chegada do reinado de Deus, consumindo o que é do bom e bom e do melhor…”, poderia ser uma paráfrase adequada.

As oferendas da mesa que serão consumidas no banquete comemorativo da chegada do Reino, porém, comportam todos os sabores da vida desejável, e de todas as formas de bem-estar. Fim da fome, das desigualdades e das injustiças. Encontraremos um fio condutor, no evangelho de hoje, onde a imagem do banquete eucarístico nos permitirá saborear todos os temperos, cheiros e gostos, de uma culinária libertária e maravilhosa, ao mesmo tempo.

A descoberta do corpo oprimido está diretamente ligada à consciência da alma livre, da qual Lutero poderia dizer, debatendo com Erasmo: “O homem não poderia receber coisa alguma, se do céu não lhe fosse dado”. Por isso o pão da eucaristia, que é Jesus Cristo, se associa com os oprimidos deste mundo, e será lembrado como o Pão do Céu que sacia a fome do mundo. O corpo do Cristo de Deus sacia a fome do mundo. Concepções contrárias (violência, poder, ganância, dinheiro, capital), venenos espirituais, avançam e matam o corpo e a “alma” do mundo. Mesmo brutalmente alvejado, bombardeado, estilhaçado, fragmentado, o Pão do Céu não se esgota. Celebra-se com ele a Ceia do Senhor, no Espírito da vinda definitiva do Reino de Deus. Os profetas bíblicos jamais entenderam ‘alma’ e ‘corpo’ separados da vida plena, do ser inteiro imerso nas realidades corporais deste mundo. Para eles, alma e corpo são indivisíveis (nephesh). “Disse Jesus: temei em primeiro lugar os que destroem (sufocam e matam) a alma (corpo indivisível)”. Do mundo? De um povo? De uma cultura, de uma religião?

Em 1958, o mais importante cineasta europeu, Roberto Rosselini, desembarcava no Brasil para filmar Geografia da Fome. Tratava-se de uma adaptação cinematográfica do livro de Josué de Castro, médico e sociólogo que cuidou de uma radiografia da grande mazela nacional, mais tarde identificada como o maior de todos os problemas mundiais: a fome. Traduzida, hoje, como o principal problema de saúde mundial que interessa a ONU: “Vim para fazer um filme sobre a fome e não paro de comer”, teria dito o cineasta, enquanto percorria restaurantes e bares do Rio de Janeiro. Mas visitou o Canal do Mangue, folclórica zona da pobreza e do meretrício, mas também famosa pelo afogamento de mendigos, no intento de “limpeza social”, promovido durante o governo de Carlos Lacerda. Foi à procura dos populares caranguejeiros da época, personagens de Josué de Castro. A imprensa queria que ele filmasse outros assuntos, lembrando a ópera O Guarani, de Carlos Gomes, como tema ideal. Não conseguiu financiamento para a produção.

O código da comida tem seus desdobramentos. Comida exprime tão bem a sociedade como a política, a economia, a religião. Lévy-Strauss já falava, chamando a atenção sobre o “crú” e o “cozido”, mas não como dois estados pelos quais passam os alimentos, e sim como modalidades pelas quais dá para se falar de transformações sociais. Aqui, as associações sobre o “salgado” e o “indigesto” também apontam para o estômago, “questões viscerais” (do latim ‘viscus’, pegajoso, grudante. ‘Visceral’ é algo profundo, vital, mais instintivo que intelectual. Impossível evitar a alusão à fome e sede de justiça política e social, lembrando necessidades viscerais. Há alimento para a vida integral, como envolvimento do corpo e da comida. De fato, existencialmente, para o homem teologicamente bíblico, a vida é uma unidade absoluta e indivisível, ao mesmo tempo concreta e espiritual. O corpo tem fome.

Ariano Suassuna, autor de sucessos como “O Auto da Compadecida”, entre muitos outros, resolveu contar uma história sobre “as comidas que nos faltam”, usando um exemplo simples – uma história de cachorros. “Entre o osso e o fillet, o que um cachorro prefere? Lógico que é o fillet‘”. Osso é para roer, insinuava sobre o fast food tupiniquim contemporâneo, repleto de hamburgers criticados pelo mestre nordestino. Então “está faltando oportunidade aos jovens brasileiros de conhecer o fillet da nossa cultura”. Entre as forças ameaçadoras da globalização das bobagens e das besteiras, a alienação do povo, essa tendência compõe a exterminação dos sentimentos culturais libertários da vida de fé autenticamente evangélica, da qual precisamos nos alimentar. Com a mistureba fundamentalista temperando tudo, e condimentos que resultarão numa indigestão monumental, é preferível permanecer com fome.

Roberto da Mata informa: as manifestações mais humildes de uma sociedade são as mais reveladoras de sua índole… e dos seus valores. A comida, a música, a televisão, os sotaques, como os dos nordestinos, sulistas, sudestinos goianos e mineiros, por exemplo, tão gostosos e variados, identificam as origens brasileiras. Modos insuspeitos, quase sempre identificados com clareza singular, revelam tendências, preocupações, aspirações. No Brasil, quando podemos, misturamos farinha com feijão, fazemos tutu juntando temperos como cebolinha e alho. Dentro da lógica, não do alimento, mas de uma mistura mestiça e mulata, nos expressamos culturalmente. 

Apreciadores do hamburger, ao contrário, preferem compartimentalizar os alimentos em embalagens long life, para a alegria da economia industrial. Como gente do povo, preferimos a feijoada amiga, que mistura paio, carne seca, pé-de-porco, toucinho magro, servindo-a com couve refogada. Não há uma lógica nessa mistura que iguala os alimentos sem discriminá-los. Todos esses hábitos falam de sociedades, de valores, e modos de construir e sustentar o próprio corpo social.

Quem aceita o convite para o banquete da vida? Quais são os convidados que vestem roupas brancas de núpcias (símbolo bíblico dos que praticam a justiça), demonstrados no Apocalipse: “Esta é a mensagem daquele que tem os sete espíritos de Deus e as sete estrelas. Eu sei o que vocês estão fazendo. Vocês dizem que estão vivos, mas, de fato, estão mortos. Acordem e fortaleçam aquilo que ainda está vivo, antes que morra completamente. (…) Aqueles que conseguirem a vitória (da justiça) serão vestidos de branco, e eu não tirarei o nome dessas pessoas do Livro da Vida. Eu declararei abertamente, na presença do meu Pai e dos seus anjos, que elas pertencem a mim. Portanto, se vocês têm ouvidos para ouvir, então, ouçam o que o Espírito de Deus diz às igrejas” – Ap 3,1-6]? São convidados os perseguidos, pobres, prostitutas, deficientes, portadores de necessidades especiais, coxos, cegos, surdos, doentes,  que estão na agenda de Deus, em primeiro lugar. \\\\\

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Derval  Dasilio – Pastor Emérito                                   Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

28o. Domingo do Tempo Comum  – Ano “A”
Êxodo 32,1-14 – Recusa dos princípios de origem
Salmo 106,1-6;19-23 – … e adoraram o deus “grana”
Filipenses 4,1-9 – Tudo posso naquele que me fortalece!
Mateus 22,1-14 – Convidados para a festa da vida

 

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