O evangelho de Jesus Cristo implica numa simultaneidade inaceitável: “Não se pode servir a dois senhores, pois um será amado e outro desprezado…”. Jesus está respondendo com uma afirmação libertadora, e somente a compreendem os que não estão cegos pelo poder, pelo  dinheiro, pela ganância, pelo ódio e a injustiça (Mateus 22,15-22). Contra isso, Irineu, pai da Igreja Antiga, pós-bíblica, usa uma expressão que pode ser ao mesmo tempo um paradigma das muitas radicalidades necessárias ao testemunho cristão: “A glória de Deus é o homem vivente, a vida é uma visão (de beleza e dignidade) de Deus”.

ganancia principalA economia e o dinheiro do imperador, porém, têm outros objetivos. Facilmente cairemos no reducionismo que nos quer convencer de que sendo bons bons contribuintes que não sonegam seus deveres fiscais fazendários, somos verdadeiros. Fazemos a nossa parte? Não fazemos! A dignidade da vida humana requer muito mais.

O coração, a vida interior, utopias, esperanças particulares, desejos, são alguma coisa que “césar” algum nos pode pedir, embora se confundam no  emaranhado de nossa existência  civil e cidadã. Deus nos entregou essa vida como um dom de alto valor para a construção do seu Reino (cf.Kümmel, Síntese Teológica do NT; J.Jeremias, Teologia do NT; L.Goppelt, Teologia do NT). Este reinado não se mantém com impostos, dinheiro para o consumo irresponsável, obrigações fazendárias em cada produto consumido.

Ao contrário, o Reino prima pela justiça e pela paz social com habitação, com socialização da saúde e da escola de qualidade, com direito ao trabalho socialmente construtivo, alimentação e lazer: correção de desigualdades, vida digna para todos os membros da sociedade, de acordo com os parâmetros da fé que sustenta o Reino através dos que creem: “O justo viverá pela fé”. Ou seja, o justo viverá em fidelidade ao Deus da vida. O justo confia na providência divina, não em milagres econômicos ou na bolsa de valores.

Vejamos como um hebreu pensaria sobre o assunto em pauta, o dinheiro e seus significados. Nilton Bonder, rabino brasileiro, fala da tradição interpretativa judaica: “o conceito aparece em dois elementos distintos. ‘Mashal’ (significador) e ‘nim’shal’ (significante). Metaforicamente, com uma imagem comum, pode-se dizer que a água está em sua forma oculta enquanto aparente num bloco de gelo. A água em estado líquido, porém, revela os elementos que a compõem. Colocado numa armadilha por espiões religiosos Jesus parecia não ter saída (Mateus 22,15-22): Que fazer com o dinheiro de “César”, em moeda circulante desde os bancos ao comércio popular, e suas finalidades domésticas? Lembremos, ainda, que foram os dominadores gregos que inventaram e introduziram a moeda no séc.4  a.C., antes dos romanos.

Quem questionava Jesus trazia na palma da mão o ignominioso símbolo do poder econômico, e da ganância especulativa nas modernas bolsas de valores, por consequência. A efígie de Tibério, o imperador romano, na moeda que equivale ao dólar, ou ao eurodólar, atual. Moeda de ouro. Insurgentes contra o poder imperial, radicais políticos(!?), cansados da dominação econômica desde o império persa, esperam uma resposta. Religiosos apáticos, antihistóricos  politicamente, querem o mesmo. Suspense, chamem Hitchcok para filmar a cena! Jesus vai fazê-lo, voltando do túmulo, fora do tempo político. E a resposta cortante, sincera, é proferida: “Daí a césar o que é de césar, e a Deus o que é de Deus”.

Economistas importantes falam do excesso de poupança no mundo econômico global. A moeda de reserva está em questão. Não é saudável para a economia com a moeda supervalorizada, enquanto é desprezado o emprego social da mesma. A obsessão rentista faz com que os grandes bilionários do país, cerca de 36, industriais viciados em rentismo (dinheiro em fundo de ações e outros), invistam nas eleições, elegendo senadores e deputados que defendam a sua causa no congresso nacional. Um governo com preocupações  sociais, saúde, escola, habitação, em primeiro lugar, não serve ao capital rentista. Muito menos aos bancos privados.

 

[Nota: Podemos dizer que, por sua natureza, o dinheiro é espúrio, sujo, disponível por um cartão de crédito ou “em espécie”, “in catch”, porque contaminado com os mais imundos pensamentos de poder econômico, nos sistemas de exploração e dominação das pessoas. O dinheiro deve voltar às mãos nojentas do dominador? Se este dinheiro se origina do poder que se desvia da finalidade da economia justa, acessível a todas as pessoas, “dai a César o que é de César”! Porque a Deus pertence a vida, a sustentação da sociedade; a ele (o governante) se entrega o que lhe pertence, bens econômicos para manter os programas públicos. Dinheiro! Solidariedade e partilha fazem parte da experiência de Deus, inclusive na economia monetária. Observemos como Jesus fala do dinheiro: a Deus o que é de Deus! A prática tradicional, pseudo bíblica, porém, prevalece: “daí a César o que é de Deus!” O mundo do dinheiro eletrônico comanda a sociedade humana.

O “capital”, “reino do imperador”, se defende e incendeia plateias que discutem sobre economia essencial. Na Consulta “Pobreza, Riqueza e Ecologia”, organizada pelo Conselho Mundial de Igrejas (CMI), reunida na Guatemala (2008), o presidente da Câmara do Agronegócio da Guatemala e empresário de agroquímicos, Zuñiga Fumagalli, afirmava: “Há muitos organismos que defendem os pobres, e o que mudou? Existem organismos indígenas que querem voltar a um modo de vida de 500 anos atrás. Isso não é possível. O indígena de hoje tem que ser um pequeno ou médio empresário. O uso de novas tecnologias é fundamental. Se quisermos viver apenas do cultivo do milho, como faziam os ancestrais, todos nós morreremos de fome”.

Participantes da Consulta do CMI, porém, denunciavam o agronegócio, o uso de agroquímicos sem controle, muitos deles proibidos nos países onde são fabricados. Cutucavam a onça com vara curta… A Consulta, porém, teve como objetivo refletir acerca da estrutura internacional do mercado monetário que, com o apoio de líderes nacionais, submergiram países em dívidas que não conduziram a nenhuma melhora de vida da  população. O FMI, Banco Mundial, critica e procura influenciar a opinião pública, quando um país livra-se do peso da dívida externa].

Derval Dasilio.

29o. Domingo do Tempo Comum depois de Pentecostes


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