SIMULANDO FIDELIDADE A DEUS

Observemos que o capítulo adota uma técnica “concêntrica”: o princípio e o fim se encontram novamente na narrativa da partida e da chegada (Josué 3,7-17). Todas as referências apontam posições geográficas, os discursos de instrução são seguido da “práxis” obrigatória; os discursos de governo controlam o movimento do povo.  Primeiro aos sacerdotes, e em segundo  ao povo. Um discurso religioso é político.  Mas o “orador” eleito é Yahweh, Deus de Israel. A síntese é o que mais interessa, na fala de Josué: o milagre da liberdade e da libertação aponta para “o Deus vivo” que os profetas distiguirão das divindades  cananitas.

http://wp.me/p3ZZIG-mWO povo evoca divin- dades da prosperida- de, e dispõe-se a  reconstituir as divin- dades do cativeiro no Egito. Deuses, com pés de barro não andam; têm olhos, mas não vêem; têm ouvidos, mas não ouvem; têm boca, mas não falam (Jeremias 5,3-5). Deus é o Senhor da vida, não é uma divindade inerte e impassível diante da história do sofrimento de um povo. Josué fala, Yahweh assina embaixo, registra o autor. Há fome, desigualdade econômica e social, problemas com a saúde, moradia, ocupação laboral. Não é, também, o momento de se erigir um monumento, um obelisco à margem do Mar Vermelho. Esta etapa já foi cumprida, à frente está a história que ainda deverá ser construída. “Allons enfants, le jour de gloire, est arrivée”, como na revolução francesa. É necessário atravessar o Jordão! Uma nova história começa, em Israel. Uma nova etapa na vida do povo libertado da escravidão concreta, no Egito.

O ensinamento de Jesus se orienta nesta mesma direção e põe em cheque as pretensões de tantos que se preocupando com a religião simbólica, com a “ortodoxia doutrinal”, dogmática, enquanto descuida dos principais elementos da justiça de Deus (Mateus 23,1-12). A catequese se preocupou durante longo tempo em transmitir a doutrina corrente. Por isto, se de deu ênfase em aprender os mandamentos (igrejas tradicionais costumam fixar na parede, ao invés de imagens de santos, uma escultura das tábuas da Lei, como símbolo evangélico… Também é evidente o apego ao judaísmo bíblico), os sacramentos, os dons do Espírito Santo e seus frutos, e outras muitas tradições dogmáticas.

Esse interesse catequético é legítimo, excluindo o apego judaizante da Igreja, na comunidade mateusina, distando 13 séculos da comunidade de Josué? Inquestionável? Não. Sem dúvida, é necessário perguntar: a catequese que se preocupa tanto pela “reta doutrina”, a chamada “ortodoxia”, se preocupa igualmente pela prática correta, correspondendo ao dinamismo da Igreja, ou é um freio para sua permanente reforma? O evangelho de Mateus é direto e irrefutável. Indica que aceitemos a ortodoxia sempre, mas quando está baseada e fundamentada na “ortopraxis” de Jesus. Isto é, a prática ensinado por Jesus é a justiça.

Anunciar doutrina corretas, impostas, é fácil, sugere Mateus (23,1-12), interpretando Jesus. A questão é praticá-las. O difícil é praticar o que a própria Lei manda. Lendo o Deuteronômio, que é a revisão da lei mosaica: “O Senhor disse a Moisés. Desce depressa, porque o teu povo já se corrompeu, entregue os meus mandamentos: – não haverá pobres e oprimidos em Israel; – não te esqueças que o Senhor te tirou da casa das escravidões; – olhei em volta e vi que  fundiste um bezerro de ouro para adorar, destrua o ídolo; – lembre que o Senhor faz justiça aos desvalidos, órfãos e viúvas ao redor”. Por isso, urge revisar a prática catequética que os sistemas doutrinais impuseram.

Nossa catequese se limita, em grande parte, a memorizar preceitos, doutrinas e fórmulas abstratas. Mas o evangelho indica, sem esquecer tudo isto, preocupação em realizar-se o que é a verdadeira e “reta doutrina” que a Bíblia propõe. O fundamental de toda doutrina cristã, contida no evangelho, é a prática da justiça de Deus, em retidão ética! O serviço expresso em uma exigência irrevogável por direitos fundamentais. Justiça para todos (como expressa a Carta dos Direitos Humanos, da ONU). A comunidade cristã existe para anunciar as boas noticias do reinado de Deus à vida concreta de justiça. Preferencialmente o pobre (anawin), o “órfão e a viúva”, os deserdados socialmente, oprimidos, perseguidos, insurgentes contra os preconceitos, indignados pelas desigualdades. Converte-se ela mesma em boa notícia quando transforma as realidades da morte em caminhos para a vida em abundância e não quando se anuncia a si mesma. Disse Jesus.

Derval Dasilio                                                                           Pastor Emérito da IPU

TRIGÉSIMO PRIMEIRO
Domingo do Tempo Comum 
depois  de Pentecostes (Ano “A”)

Josué 3,7-17 –  Como a Moisés, ofereço-te a liberdade
Salmo 107,1-7; 33-37 – Porque é eterna a  misericórdia
1Tessalonicenses 2, 7b-9.13 – Dar a vida pela causa…
Mateus 23, 1-12 – Eles falam e não praticam

 

 

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