ELES NÃO SE ALEGRAM COM A JUSTIÇA DE DEUS

noivas e lampadasComparemos com o Reino os efeitos benéficos do aumento da capacidade de expansão da economia moderna. Têm custado a aparecer. As razões poderiam ser ilustradas por uma parábola sobre tabuleiros de xadrez e arroz. Um homem inventa um novo jogo, o xadrez, e o presenteia ao rei. O rei gosta tanto que oferece ao inventor a recompensa que quiser. O homem pede um grão de arroz para o primeiro quadrado de seu tabuleiro de xadrez, dois para o segundo, quatro para o terceiro e assim por diante. O rei prontamente concorda, acreditando ser o pedido surpreendentemente modesto. Eles começam a contar o arroz, e as quantidades são pequenas. Mas elas continuam a dobrar, e logo o quadrado seguinte exige uma grande produção de arroz, impossível de ser alcançada para se completar o jogo e pagar-se a aposta. Pouco tempo depois, o rei precisa reconhecer a derrota: suas vastas riquezas são insuficientes para prover uma montanha de arroz do tamanho de sua nação. O crescimento exponencial, em outras palavras, parece insignificante até que subitamente se torna incontrolável.

As parábolas bíblicas  oferecem-nos também exemplos que nos aproximam do tamanho do Reino de Deus; da extensão de suas propostas sobre a vida, o crescimento econômico com finalidades sociais, distributivas e igualitárias, onde as questões humanas relativas à justiça econômica, justiça social, justiça ambiental e jurídica, comparecem como parte de um jogo de xadrez, no exemplo citado acima. E recordemos que o Reino de Deus também é simbolizado como um banquete de casamento…

Mateus traz a parábola das dez virgens, prudentes e imprudentes, que estavam esperando o noivo.  A parábola é uma séria advertência. “Vigiem, fiquem acordados, porque não se sabe o dia e nem a hora”. Não deixem que em nenhum momento se apague a lâmpada da fé, em esperança, porque qualquer momento pode ser o último. Não diz a “seus noivos” ou “aos noivos”. “O noivo” designa Jesus mesmo (Mt 9,15). A parábola ensina um final, uma “escatologia” da pessoa. Todos dependem do caminho que escolhem para chegar a um fim objetivo. Que, de alguma maneira, a morte é consequência da vida imprudente ou prudente que se leva. Há escolhas… Imprudentes são os que ouviram a mensagem de Jesus, mas não o levam a sério. Prudentes são os que traduzem em sua vida a prática de Jesus e sua causa, e por isso entram para a festa do banquete do Reino.

“Fiquem atentos, porque a festa da vida tem lugar já, agora mesmo”, é a mensagem. O Reino está aqui. Acendam as lâmpadas com o azeite da fé, da fraternidade, do cuidado, do serviço, da cooperação mútua. Corações assim cheios de luz permitirão viver a autêntica alegria da espera, aqui e agora. O crescimento econômico-social, distribuição dos bens da comunidade humana, justiça social, justiça ambiental e jurídica, emprenha a esperança da chegada do Reino. Os demais, os que vivem ao redor, sentir-se-ão também iluminados, conhecerão também a alegria da presença do Noivo esperado. Jesus pede para que nunca falte azeite em nossas lâmpadas. Corações e mentes sempre iluminados. O reinado de Deus, porém, está marcado pela superação das desigualdades, da violência, da miséria e da marginalização dos deserdados, órfãos e viúvas deste mundo. Desprotegidos, despoderados, esquecidos de todos, são preferencialmente o alvo de Deus.

Certamente temos que aproveitar o momento presente para construir fraternidade, não para buscar de modo egoísta nosso próprio bem estar. As virgens imprudentes colocaram “outro azeite” em suas lâmpadas: o que serve para iluminar egoisticamente seus caminhos. Não puderam entrar na festa de casamento, não entraram no baile, “são semelhantes aos meninos que, assentados nas praças, clamam uns aos outros e dizem: Tocamos-vos flauta e não dançastes…” – Lc 7,32a). E se tivessem entrado não teriam entendido absolutamente nada. Na festa da vida os que só olham por seus próprios privilégios e interesses se aborrecem.  Não dançam e nem se alegram (Zwínglio M. Dias).

O observador vigilante, como a virgem que espera pelo noivo, portanto, deve ter este duplo olhar: olhar para Deus e olhar para os que não gozam dos direitos fundamentais da vida. Olhar para Deus é a fonte de toda libertação possível e o olhar para o excluído identifica onde há necessidades prioritárias. Olhando para Deus, diferencia-se o Reino de Deus dos reinos deste mundo. O Reino de Deus – ordem de justiça e da superação de toda opressão possível –, ao pretender olhar para o excluído e para o sistema gerador de opressão, como pressuposto de todo fazer teológico, reclama o engajamento do fiel na luta contra todo sofrimento humano, situado nas realidades cotidianas presentes, à vista de todos.

Na caminhada dos seguidores de Jesus e das comunidades, semelhante consciência está explicitada, por exemplo, no canto: “o Deus dos pobres, do povo sofredor, aqui nos reuniu pra cantar o seu louvor, pra nos dar esperança e contar com nossas mãos na construção do reino, reino novo, povo irmão”. O livro do Êxodo, tanto quanto o de Josué, sendo este mais direto e incisivo, mostra um Deus que age na história dos homens e das mulheres como Deus libertador: “Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi seu grito por causa de seus opressores; pois eu conheço as suas angústias. Por isso desci a fim de libertá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir desta terra para uma terra boa e vasta, terra que mana leite e mel” (Ex 3,7-8b).

Essa tradição do Deus libertador se expressa na profissão de fé do povo libertado: “Eu sou teu Deus que te fez sair da terra do Egito, da casa da escravidão” (Ex 20,2). “Vocês vigiem, porque não sabem o dia e nem a hora”(Mt 25,13). Que hora? O momento novo da irrupção incontrolável do Reino. Não se trata de decisão de homens e mulheres, mas  de esperar, a qualquer momento, a intervenção de Deus. Paráfrase conclusiva. Tal como no êxodo da escravidão no Egito: “Não deixem que em nenhum momento se apague a lâmpada da fé, em esperança, porque qualquer momento pode ser o último”.

Derval  Dasilio                                          Pastor Emér    Igreja Presbiteriana Unida do Brasil
eu derval
TRIGÉSIMO SEGUNDO DOMINGO                                         TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES
Mateus 25,1-14 – Permaneçam acordados, o noivo vem…

 

 

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