TRAGÉDIAS, POLÍTICA E VIOLÊNCIA SOCIAL

talentos entregaComo sabemos há muitos tipos de violência. Ultimamente, sobretudo nas grandes cidades se está falando de “epidemia de violência” visto que essa energia destrutiva tem se manifestado de diferentes formas e intensidades. Entre as muitas formas de violência que temos nomeado e denunciado estão a violência das instituições e da sociedade. A nova ótica do mundo, em sua ênfase individualista e egoísta, premia o mundo competitivo, enquanto sufoca os sonhos de transformação social. A mídia televisiva colabora, faz um circo sobre casos diários de violência, estimulando outros assassinatos frente à telinha, enquanto o país para e retrocede convidado a opinar sobre o direito de ter uma arma mortal em casa ou na gaveta do veículo que se dirige. Vive-se furiosamente o consumo de tragédias, e os demais conteúdos da violência.

“A palavra provém do latim violare = violar palavra que por sua vez tem sua origem em outra – vis – que significa força.  Assim violência é a degeneração ou a corrupção da força que está em nós, uma força constitutiva e necessária para que nos mantenhamos vivos. A violência seria um mau uso da força que nos constitui; seria violar ou violentar o outro e a mim mesma fazendo-me perder o pé na minha própria realidade. Indica que é uma força/energia usada contra o direito dos outros, contra mim mesma, contra a lei que garante a vida de todos. Por isso se pode dizer que a violência é de certa forma a corrupção de nossa força vital, é seu direcionamento para caminhos que diminuem e destroem a vida. Todos nós temos algo dessa corrupção de nossa própria força vital na vida cotidiana. Qualquer acontecimento ou contratempo pode desequilibrar as nossas forças e voltá-las contra nós e contra os outros”, diz Ivone Gebara.

Por que, além de sermos habitadas por um sem número de formas de violência atraímos a violência contra nós. Qual é o ponto frágil em nós que atrai essa violência? Seria um corpo repulsivo, nojento ou atraente na forma? Seria a recordação de Abel e Cain, quando, pelo poder, irmão mata o irmão? Seria uma sociedade colonizada que nos tornou obedientes e submissos às imagens da violência do sistema autoritário que se impõe em nome de minorias ou maiorias? Seria a convicção imposta de que, como gente do povo, somos seres de segunda categoria, e que as instituições políticas, econômicas, jurídicas, ocupariam um lugar acima de populações violentadas?

Thomas Skidmore, brasilianista conceituado, que nos acostumamos a ler desde a ditadura militar, dizia: “Do jeito que as coisas vão, os historiadores terão pouca coisa para contar, no futuro próximo, mas os antropólogos e arqueólogos estarão bem interessados no que teria acontecido com uma sociedade tão promissora que se entregou ao projeto do Brasil…”. Referia-se  ao desinteresse de hoje pela realidade visível, e os resultados das “escavações”, pesquisas arqueológicas no futuro, quando se analisarem os resultados políticos do que se produz hoje. Disse mais: “…a sociedade brasileira não está disposta a sacrificar-se pelo desenvolvimento que alcançaria toda a população”. Kant combatia o racionalismo exagerado, que ignora a vida real em favor de abstrações do conhecimento. Se estivesse vivo, teria que escrever outro libelo: Crítica à Insensatez Absoluta. Hoje.

Privilegiados egoístas da sociedade autoritária assumem sua ganância por privilégios exclusivos sem nenhum pudor, em toda parte. Mas não querem discutir as raízes sociais da violência social. Abominam a cidadania reivindicatória, por ser insurgente, e aplaudem a cidadania de privilégios exclusivos para os que habitam nos degraus mais altos do edifício social. 

Caco Barcelos nos informava recentemente da conivência dessa elite privilegiada com o crime organizado, com a corrupção, com políticas que os favoreçam. Igrejas também cristãs abrigam o crime organizado e protegem notórios corruptos, igualando-os. Em 2013 vimos isso com absoluta clareza, numa igreja evangélica com 800 mil fieis, no Brasil. Líderes religiosos alcançados pelo Ministério Público, sendo o principal, um octogenário fundador da denominação, levado à prisão com outros, e depois condenados por crime fiscal dos mais graves. Não são diferentes dos criminosos do colarinho branco.

Hoje, o Evangelho nos convida a ler “os sinais dos tempos” enquanto traçamos projetos de evangelização integral, socialmente política e integrada com as diaconias sociais que cuidam também da paz social, da solidariedade, da discussão dos direitos negados, da cidadania, da ecologia humana e ambiental. Sim, ecologia do homem e ambiente, já que a questão do mundo natural apresenta-se em manifestações de morte explícita e extermínio.

Não tenho mais coragem de voltar à cidade interior onde cresci, que meus pais ajudaram a fundar. Receio não suportar a paisagem destruída de minha infância. Uma cidade mais jovem que eu, mas que cultiva uma violência tão velha quanto a humanidade. A parábola dos talentos é desafiadora, nesse contexto (Mt 2,14-30), muitos acham elementos para a defesa capitalista da competição livre, onde os derrotados são sepultados à beira do caminho. No nosso entender, não se trata disso. Ela se constitui em alerta sobre a necessária vigilância, como a das “dez virgens” (cf. evangelho do domingo anterior), e principalmente um compromisso com a diaconia financeira que costumávamos chamar de “mordomia”.

Mudou o sentido do termo, dirige-se ao usufruto de vantagens desonestas. O contexto interpretativo do Evangelho é, na verdade, um incentivo ao compromisso, um elogio ao esforço empreendedor capaz de trazer rendimentos que permitirão multiplicar os recursos empregados na extensão do Reino. De que fala Mateus, senão na vinda futura do Filho do Homem para o juízo sobre a economia humana que nega os princípios da economia divina? A parábola elogia o trabalho, a efetividade, a inteligência nos ganhos justos, referindo-se a realidades terrestres do cotidiano de cada um, da sociedade e das nações.

Devem chamar atenção propostas que se apresentam, e não que Ike Batista, a quem foi dada de presente a empresa mais rentável do país, perdeu milhões de dólares no mercado de capitais? É urgente uma ética econômica mundial e nacional que aponte o único destinatário possível para a sobrevivência de todos? Trataremos, nesse caso, do cuidado com a humanidade toda, além da que está próxima; cuidaremos do ser oprimido pelas desigualdades? Trataremos da cooperação para a sustentabilidade do desenvolvimento integral? Acentuaremos a compaixão e a misericórdia para com os deserdados e excluídos no mundo inteiro, antes de qualquer coisa? 

Cabe-nos imaginar uma eficiência cristã consequentemente distributiva e producente, como sugere a parábola dos talentos. As moedas deveriam produzir riquezas sustentadoras da vida. Não deveriam ser escondidas ou enterradas, como se faz com recursos malocados em paraísos fiscais, com o auxílio de doleiros criminosos  que, quando pegos, se beneficiam da delação premiada. Quando o mesmo evangelho de Mateus também exorta: “nem todos que dizem Senhor, Senhor, entram no Reino… mas sim os que fazem a vontade do Pai”; ou: “Bem-aventurados os que escutam a Palavra e a põem em prática”. O mundo capitalista, entretanto, tem sua proposta pragmática de justiça econômica: “todos que dobram os joelhos ao capital, entram no reino celestial da riquezas que não produzem bens sociais, mas acrescentam à acumulação egoísta” [texto bíblico].

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33º DOMINGO DO TEMPO COMUM
DEPOIS DE PENTECOSTES – ANO “A”
Juízes 4,1-7 – O memorial da escolha das doze tribos de Israel
Salmo 78,1-7 – Novas gerações, experimentem a fé e a esperança
1Tessalonicenses 5,1-11 – O dia do Senhor ocorrerá inesperadamente
Mateus 25, 14-30 – A parábola dos talentos para salvar os fracos

  eu derval

Derval Dasilio –  Pastor Emérito

\Igreja Presbiteriana Unida do Brasil

\TRIGÉSIMO TERCEIRO DOMINGO

\TEMPO COMUM DEPOIS DE PENTECOSTES

 

 

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