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cristo rei ótima As estradas que contornam os montes verdes de Nairobi, os milhares de telhados das favelas próximas, os barracos contíguos, quase ligados entre si, abrigam um contingente de milhões de moradores. Espremida sob folhas de zinco, a Unicef anuncia que a população infantil e juvenil da Nigéria, hoje compondo 25 % da totalidade, chegará a 50 % até 2100. São 180 milhões de habitantes, nesse país, e até lá serão 910 milhões. A África, sozinha no planeta, terá 4,2 bilhões de habitantes, do 1,1 bilhão atual. Especialistas dizem: “o futuro do planeta terra pode ser avaliado pelo que acontece com a África”. Ao que tudo indica, os problemas da alimentação, da fome, da saúde, da escola, do trabalho, da habitação e do transporte, ocuparão governantes, urbanistas, economistas, sanitaristas, agricultores, mais que nunca, em toda a história do mundo. Perguntem-me sobre o papel da religião… Não saberei responder.

A condução de Deus, com justiça sobre os seres humanos, semelhante à relação do pastor com suas ovelhas, inclui um discernimento sobre os atos humanos. Por isso, Ezequiel (34,11-16), depois de ter descrito detalhadamente o cuidado das “ovelhas perdidas, desgarradas, feridas, enfermas…”, ameaça a “cordeiros” e “bodes” do mesmo rebanho (Mt. 25,32-33). Nesta perspectiva, o julgamento final é o ápice da preocupação misericordiosa de Deus sobre todo ser humano que padece. Prevalecerá a justiça!

O Reino é também um tribunal, onde há o julgamento das injustiças, das desigualdades mantidas para sustentar privilégios econômicos e sociais. Conscientes da limitação inevitável de toda linguagem teológica, que, por sua mesma natureza, é analógica, simbólica, figurativa, cada vez mais se vem insistindo que a palavra “reino” não seria a mais adequada nesta altura da história, por não expressar já uma forma de organização sócio-política desejável para os homens e mulheres de hoje. Presidencialismo, parlamentarismo, monarquismo, são termos equivalentes.

A familiaridade com as democracias modernas e participativas evidencia cada vez mais a dificuldade de falar de Deus (e de Cristo) como “rei”, e de seu projeto escatológico como um “reino de justiça”. Cristo, Rei do Universo. Monarquias arcaicas, absolutismo, são ideias que nos acompanham, dois séculos após a Revolução Francesa. Esta imagem suscita sentimentos de confiança no crente? Lembra o conceito de reino monárquico? Um reino não é hoje em dia a forma mais frequente de organização sócio-política. A maior parte dos países são repúblicas, de diferentes tendências, e os reinos que persistem não são – em sua maior parte – reinos em forma clássica, adaptados à mentalidade atual (exemplo: monarquia “parlamentar”). Estas, no fundo negam a essência do que é um “reino” de justiça. Por outro lado, cristãos imaginam a igreja como “agência de um reino celestial”, e não poucas vezes assumem uma posição triunfalista, imaginando que a visibilidade do Reino de Deus se faz na Igreja. Jesus pregou o Reino como centro da fé, e não um centro de poder econômico ou espiritual.

A Igreja, por sua vez, centraliza-se a si mesma, quanto às exigências da fé. No Reino de Deus prevalece uma justiça diferente. A proteção dos homens e das mulheres na caminhada terrena abre ao seu momento um tempo terminal para a injustiça. Toda a história humana dirige-se ao início de uma nova era, um novo céu e uma nova terra (Ap 21), sem templos e sem religião. Esta se dirige a um momento de revelação plena da soberania de Deus, que presumirá o triunfo do Reino de Deus e dos crentes sobre a morte, em todas as suas expressões. Morte econômica, morte social, morte religiosa, morte espiritual e cultural. O significado da “justiça no reinado de Deus”, desta forma, chega a um de seus pontos culminantes.

Aqui, que tipo de justiça está em pauta? Pragmatismo político: investimentos para favorecimento das classes abastadas – e dos candidatos e pretendentes aos grupos privilegiados – , corte nos programas sociais destinados à distribuição de renda aos economicamente desprotegidos; exceções morais, concorrências fraudulentas, propinas, enriquecimento ilícito, vazamento controlado de informações, manipulação política,  poderão conviver indefinidamente com a justiça de Deus? Os vícios da justiça comum, juízes togados de altos salários, servindo a políticos e personalidades milionárias, não encobrem nem abafam o clamor das multidões oprimidas. Os céus e o universo clamam por justiça econômica, justiça social e justiça ambiental, sob o conceito da justiça divina.

Mais de 7 bilhões de homens, mulheres e crianças, habitam um planeta de muitas desigualdades. Há fome, miséria, peste (doenças cíclicas incontroladas; hoje, é o “ebola” que alarma o mundo). Por que há tantas diferenças, desigualdades, se também há tanta riqueza potencialmente capaz de ser repartida? As distâncias sociais se ampliaram. Trata-se de mais uma mostra da profundidade da desigualdade no planeta, onde 1% da população mundial detém 46% da riqueza, enquanto 50%, 3.5 bilhões dos seres humanos adultos, ficam com apenas 1% da riqueza do planeta.

As estimativas do banco “Credit Suisse” indicam que a riqueza global chegou a 241 trilhões de dólares em 2013. O país com mais riqueza por pessoa adulta é a Suíça, com uma média de 500 mil dólares, seguida por Austrália (403 mil dólares), Noruega (380 mil dólares) e Luxemburgo (315 mil dólares). Um abismo profundo separa ricos, bem-postos e pobres, no planeta Terra (CartaCapital, 18.10.2013).

Denuncia-se o caráter intencional dos reinos deste mundo. A riqueza é distribuída de modo a exacerbar a tensão entre ricos e pobres, determinando as premissas de guerra frontal de uns contra os outros, em competição aberta, como se viu na última eleição presidencial, no Brasil (aqui, a sociedade de privilegiados sugeria uma batalha entre pobres, ricos e candidatos ao consumo do luxo). A consequência calculada da concentração de renda, nas mãos de poucos, é uma desigualdade sem precedentes, tanto aqui quando na história da humanidade. Há um grupo autoritário contra políticas sociais de distribuição de renda nos escalões econômicos populares. Esses assuntos comparecem inevitavelmente no horário eleitoral da TV e das emissoras de rádio.

Milhões de pessoas não servem mais para modernos processos produtivos, não têm emprego, são extremamente pobres ou miseráveis, nem são consumidoras moderadas ou consumidoras do luxo. Assim, “acabam sendo vistas como um estorvo ao progresso e à vida de bem-estar, porque necessitam de seguridade social,  habitação, saúde e escola”. Nas palavras do teólogo Mo Sung: “a apatia beira o cinismo, frente ao sofrimento de tantos, que revela uma profunda crise espiritual e ética que atinge o mundo de hoje”.

No caso brasileiro, devemos imaginar o Brasil, também, como um país injusto, campeão em desigualdades sociais, governado desde sempre por elites arrogantes e corporativas, que dominam a política, mídia impressa e televisiva. Esta identificação de Deus com a miséria humana fica bem clara na grande descrição do juízo final que Mateus põe na boca de Jesus: O reinado de Deus, tendo por “rei” Jesus, articula esta passagem em quatro momentos: uma introdução-apresentação (vv.31-33), a sentença que toca aos justos e sua motivação (vv.34-40) seguida daquela que concerne aos ímpios (vv. 41-45), e uma breve conclusão que resume a sorte de uns e outros (v.46).

Para descrever ambas as relações se utilizam termos tomados do espaço geográfico a respeito da posição ocupada pelo rei, a constatação da desgraça ou felicidade e os companheiros do futuro. A uns dirá “venham”, os proclamará “benditos” e se lhes destinará a participação no Reino de Deus (v.34). Aos outros, pelo contrário, dirá: “afastem-se”, os chamará “malditos” e ordenará os que vão “para o fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos” (v.41). Inferno econômico e existencial que é o poder insaciável exercido sem solidariedade, misericórdia e compaixão. Reinado infernal da ganância nos domínios de Mamon. O inferno e o abismo entre pobres e ricos,  na geografia da fome e da miséria, situa-se preferencialmente abaixo da Linha do Equador.

Derval Dasilio

Último Domingo  Litúrgico (2014) – ANO A
“Então os justos lhe responderão: ‘Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber?
Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, ou necessitado de roupas e te vestimos?”

Mateus 25, 31-46 – “Senhor, quando te vimos?”
Ezequiel 34,11-16 – Eu mesmo procurarei minhas ovelhas
Salmo 100 – Celebrai, todos os moradores da terra
Efésios 1,15-23 – Acima de todo principado e potestades

                                   

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