OXALÁ RASGASSE O CÉU NESTE MUNDO IMPIEDOSO    
advento maria espera***
Um discurso escatológico! Marcos bate de frente com a realidade presente face ao futuro que Deus oferece (Marcos 13,24-37), como salvação e libertação ao final da vida e dos tempos. Há muitas semelhanças, embora os outros escritores evangelistas adaptassem seus conceitos à sua própria mensagem. Marcos, porém, está mais perto das fontes e dos testemunhos, escrevendo no mínimo vinte anos antes dos demais. Em todo caso, esse discurso corresponde exatamente à ideia que Jesus de Nazaré teria e pregava sobre o “fim do mundo e o juízo de Deus” (da crise das eras emerge um tempo de renovo: “eis que faço novas todas as coisas”). A história se consumaria com o estabelecimento definitivo da justiça de Deus (que não corresponde à pregação fundamentalista do inferno para uns e o céu para os salvos).
* O fim do mundo na sinonímia evangélica tem o significado da supremacia completa da “nova” justiça no reinado de Deus, substitutivo definitivo dos reinados deste mundo. A história da humanidade é feita de crises, momentos de reorganização do caos político, ou social, ou econômico. Devemos também considerar as crises religiosas, como a que observamos nos tempos atuais, que afirmam a religião de mercado impondo-se sobre a fé cristã; do pluralismo evangelical que se declara vitorioso contra o ecumenismo unificador da Igreja de Cristo. As crises se repetem, mas a interpretação religiosa desses acontecimentos se presta a muitos matizes, e não poucas vezes a falsas promessas. A coação da linguagem apocalíptica frequenta púlpitos e comunidades, revelando nossas crises de identidade.
* O oportunismo se instala, a morte é anunciada acima da vida; o temor constrange à aceitação de uma mensagem desesperada de iniludível destruição associada ao julgamento de cada um. Hoje, a ideia de Jesus sobre Deus, sua atuação salvadora da humanidade, sobrepõem-se ao salvacionismo imediatista e fundamentalista ao qual nos acostumamos. O evangelho da ganância se sobrepõe aos significados soteriológicos da liberdade. À parte da inclusão, da igualdade para todos os homens e mulheres na Criação.
* A palavra de ordem, de Jesus, é “vigilância”, é um alarme chama a atenção para o que sucede ao redor. É preciso aguçar os olhos para ver e ler a realidade presente. Ou seja, reconhecer as injustiças em todos os níveis, na economia, na política, nas relações sociais. Intuir um começo para se reconstruir o que se verifica nos escombros da sociedade, em todos os tempos. Vigiar é tão importante como viver com dignidade (dignitatis = uso pleno dos direitos pessoais) e com esperança de transformação das injustiças, preconceitos, ódios religiosos, intolerâncias, conflitos humanos.
* Falar da segunda vinda do Senhor, hoje, preenchendo a mensagem do Evangelho, é corrigir erros, assimetrias do mundo global que mercantiliza as relações entre homens e mulheres em muitas das situações cotidianas; é ocupar espaços de diálogo para a repartição dos recursos disponíveis (tecnologias de ponta estão plenamente disponíveis para 1/5 da humanidade, apenas, em “ilhas” privilegiadas do mundo desenvolvido, em toda parte).
* Enquanto as metrópoles incham e cresce a vida subumana nas periferias, uma religiosidade acomodada, “prática”, propositista ou retributivista (prosperidade), reinaugura a espiritualidade imediatista e materialista. Do alto dos arranha-céus — até o termo saiu da moda… — muitos observam: essa religiosidade atenderia melhor e mais eficientemente às exigências de sobrevivência no mundo impiedoso e sem solidariedade de nossas cidades tomadas pela mídia? Proliferam novas igrejas, contente com status quo em desconfiança quanto a proposta divina de um novo céu e uma nova terra.
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* Alternando entre o pessimismo e o otimismo, a vida humana ao dispor dos sistemas econômicos se orienta para incerteza radical quanto as correções da economia na direção da correção das desigualdades. No mundo inteiro, nunca houve uma concentração tão grande de dinheiro, nem foi tão curta a lista megatrilhonária  dos que acumulam as maiores riquezas. É o lugar onde está a felicidade, centro dos desejos dos que têm a seu dispor as riquezas monetárias, na forma abstrata do dinheiro meramente rentável, nunca aplicado para o desenvolvimento humano? Max Weber, no clássico famoso (A Ética Protestante…), procurava desvendar o mundo alcançado pelo conhecimento (Iluminismo), desde o século 18, e foi tomado pelo desencanto, depois que os séculos seguintes desmentiam a ideia de que o progresso irreversível salvaria o planeta. Exatamente no momento em que o “império da ciência” começa a ser substituído pelo “reino do cálculo econômico” (Gonzaga Belluzzo). A economia de renda e acumulação sobrepujava a economia social, hoje reconhecida no combate à fome e a miséria.
* Os sinais dos tempos sempre têm sido um critério profético de como crer, de como viver, como esperar por Deus. Qual seria a razão? Por que os profetas pensavam que Deus não havia abandonado a história, não entregara homens e mulheres ao conformismo da desumanização, à indignidade, à impiedade, à maldade e às maldições próprias do reinado adverso do “mundo onde jaz o maligno”? Está na mesa, inclusive, uma grande questão: por que Deus abandonaria à sua própria sorte o mundo que ele criou com tanto desvelo, como se vê na abóbada da capela Sistina: fiat lux? Por que estariam descartadas a salvação e a liberação daqueles que ele havia criado, do Oriente ao Ocidente?
* A proposta de reinado e governo de Deus sobre o mundo e sobre os homens é a resposta. A religião alienada e alienante está em cheque. Tudo isso traz a convicção fundamental que ele, Jesus, transporta a providência divina, em absoluta fidelidade aos “homens” que participam como atores e coadjuvantes da história da salvação. Jesus Cristo representa a libertação alcançada através do reinado de Deus (Miguel de Burgos). Uma obra de arte é sempre maior que seu intérprete, já ouvimos isso. Ouvimos também que a obra de um bom autor é melhor que o melhor artigo escrito por qualquer crítico literário. Carlos Mesters diz que o assunto “apocalipsismo” merece essa analogia: os escritos são mais importantes que seus intérpretes.
* Devemos reconhecer o apocalipse sinótico nesta perícope (Marcos 13,24-37). Presta-se a muitas interpretações, sem dúvida. O Templo reconstruído seguidas vezes no sentido de representar a unidade nacional, enquanto representa o centro do culto de Israel, gerador de comportamentos, naquele momento, alienante, intimista, disperso, desconcentrado da originalidade, abriga a idolatria pagã convivente com a “idolatria” da Lei. A segunda vinda do Senhor, o Advento, significa esperança para os desagregados, humilhados, pisoteados e esmagados do mundo marginal dos nossos dias. As desigualdades profundas serão julgadas no juízo de Deus. A ignorância, a humilhação, a pobreza, apontadas na vigilância diária que permite ver os sinais do Reino, constituem tudo aquilo contra o qual se luta.
* Fazer pressão sobre os interesses hostis contra a vida; corrigir a miopia sobre o real sentido de nossas próprias vidas diante da mensagem do Advento, o Senhor vem, é a palavra de ordem. Algo como alcançar e aprofundar o amor de Deus pelos homens e mulheres, que se aproxima de nossas realidades, que habita conosco na forma do homem que percorre os nossos caminhos de dor, angústia e terror. Essa dimensão é alcançada quando mergulhamos em nossos silêncios; em nossas negativas, saindo da superfície para o aprofundamento de nossa fé no Deus que se encontra conosco através de Jesus de Nazaré, no Advento. As senhas de acesso a Deus são a “misericórdia”, “compaixão”, “solidariedade”. O Senhor virá em breve.
Derval Dasilio – Pastor Emérito (IPU) 
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