ADVENTO – ABRINDO O CAMINHO
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joão batista 1Marcos 1,1-8 – Abrindo o caminho, anunciando o Advento
Imersos numa sociedade onde nos movimentamos descuidadamente em todos os tipos de relações, somos açoitados com chicotes de veludo para consumir valores de um certo tipo de riqueza ou ascensão; ao mesmo tempo, acreditamos que certos tipos de políticos ou governantes possam conduzir-nos, sem preocupar-nos com a coletividade, e os imensos problemas da saúde, da mobilidade urbana, da escola e das comunidades faveladas que compõem verdadeiras cidades dentro das metrópoles. Cedemos ao estímulo cultural de prestígio e visibilidade guiados pelo individualismo, o Advento propõe um novo caminho.
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Entre nós, alarmados com a violência urbana, o percentual de negros vítimas do crime é muito maior que o de perpetradores do mesmo. As redes de televisão levam às salas de estar, todos os dias, cenas de adolescentes, jovens negros, roubando, traficando drogas, estuprando e pilhando, são personagens preferidos dos programas populares da Tv. Quando se trata de vítimas de qualquer crime, apesar de todos os progressos realizados na área dos direitos civis. Homens e mulheres brancos continuam a receber muito mais atenção, cuidado social, proteção jurídica, do que negros.
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A mulher de um escroque responsável por um desfalque bilionário no erário, na porta de um tribunal, diz: “se vocês tivessem estudado não seriam jornalistas medíocres na porta dos tribunais” (Jornal da Band). Os corruptos são chamados de “doutor”. O criminoso extraído do populacho é “elemento”. Há um uso abundante de metáforas para amortecer a crítica aos criminosos extraídos do establishment, preparando uma aposentadoria, vida boa digna de um magistrado federal corrupto, representantes das elites que circulam entre as alamedas do poder econômico. Não são apontados como criminosos, ladrões, violentos. Exigem e recebem privilégios nos longos e improdutivos julgamentos.
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Uma pessoa de cor negra, ou parda, habitante das periferias metropolitanas, corre riscos multiplicados muitas vezes maiores de ser aprisionada como criminosa, ou de ser assassinada antes de completar 30 anos. Adolescentes negros e pardos, dos quinze aos vinte e cinco anos, são os primeiros nos índices de morte violenta. Na Grécia antiga, ser marginalizado da polis, da comunidade, era visto como a punição maior, de fato como a pena capital. Pelo menos os antigos preferiam a conversa franca. Mas os milhões sem passaporte, banidos, expatriados, refugiados, exilados, em busca de pão e água dos nossos dias, dois milênios depois, teriam pouca dificuldade em se reconhecer nessa história de identidades roubadas. Presas num dilema, pessoas são atormentadas pelo problema da identidade.
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No topo do problema, é escolher o melhor padrão entre os muitos atualmente em oferta, montar as partes do kit vendidas separadamente. No fundo, o problema é apegar-se firmemente à única identidade disponível e manter juntos seus pedaços e partes enquanto se enfrentam as forças erosivas e as pressões dilaceradoras, consertando os muros que vivem desmoronando e cavando trincheiras cada vez mais fundas entre privilegiados, e desprotegidos jurídica, social e economicamente (Z.Baumann). Qual é a identidade assumida por cristãos, diante da grande crise que enfrentam as metrópoles brasileiras?
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Nosso dilema é saber qual sociedade queremos, dizia Roberto DaMatta. Existem forças que puxam por um ideário igualitário, democrático, distributivo, moderno. Mas, ao mesmo tempo, existem pressões para uma hierarquia brutal, autoritária e totalitária. Somos capazes de retroceder ao apoio de políticas que negam a democracia, ir às ruas em grandes manifestações, sem exigir transformações, especialmente às referentes ao tratamento dos diminuídos, desagregados, separados e excluídos no usufruto dos bens sociais. Se compararmos o salário de uma professora primária, figura fundamental na construção de uma sociedade democrática, e de gente, com o de um governador morador em bairro de luxo, estaremos diante de um absurdo.
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Isso tem que ser corrigido? É, sem dúvida, um problema, um dilema universal, mas no caso do Brasil ele é gritante, brutal, vergonhoso, fundado na humildade da população, chamada por políticos conservadores de desinformada e ignorante. Mas convocada a “mudar o país”, convidam-na a gozar uma economia de privilegios. Não há coragem de exigir essas correções porque as agendas políticas só falam de grandes receitas, especialmente as que contemplam privilegiados. As questões sociais prementes, referentes à pobreza, saúde e educação, permanecem à parte, envolvidas no nojo e repulsa expressas nas manifestações violentas do cotidiano.
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O Rio de Janeiro é uma cidade incomum. Porém, é um retrato idealizado do Brasil, cenário preferencial das novelas. O mundo parece girar em torno dessa metrópole impressionante. Minha filha e minhas netas vivem ali. A cidadania carioca, contudo, é muito light. Qualquer um que chega ao Rio em dois dias vira carioca. Você chega a S. Paulo e em vários anos você não virou paulistano. Até porque em S.Paulo separam-se da convivência social, tanto nortistas e nordestinos quanto africanos senegaleses, ou camaroneses, e outras legiões de africanos que circulam na cidade. Estes, nem mesmo celebram o Dia da Consciência Negra com brasileiros. Mas, no Rio, você pega um sol, toma um banho de mar e vira carioca. Qual é o senso ético de alguém com a comunidade, responsabilidade coletiva, numa cidade voltada para o lazer? Zero. Aí o sujeito compra maconha do menino que cinco minutos antes o assaltou. Afinal, Jorge Bem Jor dizia: “moro num país tropical…”, sem lembrar o antropólogo Levy Strauss, que dizia: “tristes tropiques”. Este, já se disse: “detestou a Baia de Guanabara, pareceu-lhe uma boca banguela”.
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Lembrando a Roma depois da II Guerra, no filme de Fellini, “o Rio é uma cidade aberta, que era capital federal; que era a Cidade Maravilhosa (mas deixou de ser). “Maravilhosa” também porque os criminosos, ou melhor, os contraventores, patrocinavam o carnaval, e continuam patrocinando. Como é que se critica uma cidade em que o visitante chega e vê, na primeira página dos jornais, contraventores, as autoridades e as celebridades, juntos, brincando, tomando uísque e champanhe em camarotes de luxo, juntamente com celebridades internacionais? “A sociabilidade carioca tem a ver com a praia, jamais estudada por nenhum de nós” (R.DaMatta).
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Elizabeth Bishop, poetisa ganhadora do prêmio Pulitzer, escandalizava os amigos que a homenageavam, patriotas cabotinos, ao sugerir: “É incompreensível que vocês, brasileiros, convivam com a pobreza extrema, racismo, mendicância, jogo clandestino, passem por um golpe militar, uma ditadura cruel, e ao mesmo tempo celebrem com alegria um carnaval. E continuem indo à praia; e colocam o futebol como prioridade, e bebam cerveja, como se nada de anormal estivesse acontecendo com o país”.
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Está escrito no profeta Isaías: “Eis que envio à tua frente o meu mensageiro, e ele preparará teu caminho. Grita uma voz: ‘No deserto abri caminho do Senhor, endireitai as veredas para ele'”. Assim veio João, batizando no deserto e pregando um batismo de conversão, para o perdão dos pecados. (…) Ele proclamava: “Depois de mim vem aquele que é mais forte do que eu. Eu nem sou digno de, abaixando-me, desatar a correia de suas sandálias. Eu vos batizei com água. Ele vos batizará com o Espírito Santo”.
Derval Dasilio
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SEGUNDO DOMINGO DO ADVENTO – ANO “B”
Marcos 1,1-8 – Abrindo o caminho, anunciando o Advento
Isaías 40,1-11 – Caminhar é preciso…                  

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