||UM ADVENTO NO MUNDO DOENTE E ALIENADO ||
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Marcos 1,21-28 –  “O demônio agitava-se…”
“Tu vens, tu vens
Eu já escuto os teus sinais” – (Alceu Valença).
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fazer ver de novoNo tempo de Jesus dominava um forte temor. Um sentimento extraordinário em relação a demônios. Nada incomum, quando doentes mentais escolhiam sinagogas e diante delas começavam a vociferar. Quando nossos hospitais deixam pouco espaço para os doentes mentais, entendemos a dimensão do grande medo de demônios. Não menos quando os corredores dos ambulatórios dos hospitais públicos amontoam pacientes em estado grave aguardando atendimento. Quando crianças são espancadas por professoras em creches ou morrem esquecidas dentro de um carro escolar sob sol escaldante. No universo, uma luta por dominar os mecanismos da natureza empata com forças incontroláveis, impedimentos seguidos a uma felicidade identificada com a saúde acessível plena e totalmente em nosso planeta. Desde os mais próximos, filhos, esposas, netos, aos vizinhos situados em bolsões de miséria das nossas cidades, esperamos melhores dias.
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Como entenderemos que Deus se entregue e abdique de toda capacidade de sobrepor-se ao sofrimento, para assumir a condição humana num certo “Jesus de Nazaré”, um homem que sofre como qualquer outro. A ponto de esvaziar-se, para ser julgado e morto em favor de uma Causa divina de salvação do sofrimento de homens e mulheres na esfera terrena, descendo aos infernos do cotidiano, inclusive no inferno da alienação, e emergindo vitorioso sobre a morte e as legiões demoníacas que nos acometem, como disse K.Barth?
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O que norteia o imaginário religioso, quando infernos e demônios contemporâneos se apresentam na complexidade dos sistemas de pensar que os espelham e denunciam? Há uma visão de abismo, catástrofes irreversíveis; de um mundo dominado pelo mal, demônios por toda parte, quando os referenciais que expressam os valores do nosso tempo estão na emancipação da razão. Uma ilusão da liberdade, no entanto, relativa.
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As pessoas do tempo bíblico estavam habituadas com o fenômeno da identificação simbólica, e normalmente a via de cura era apontada como vitória sobre algum demônio que as dominava. A possessão demoníaca, narrada na linguagem e na concepção desse tempo, era observada com frequência (J.Jeremias). Demônios e doenças são causadores e causas. Mas existe uma mudança, neste aspecto, quando Jesus aborda os casos que lhe chegam. No judaísmo (que nasceu sob influência de religiões iranianas dedicadas ao dualismo sobrenatural), os demônios eram considerados seres individuais, com nomes e identidades. Demônios são “agentes políticos” desse poder oculto nas trevas da consciência, porém, perceptíveis na sociedade oprimida no descaso dos poderes públicos e das classes privilegiadas e insensíveis. O que querem esses demônios?
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No filme Constantine (Francis Lawrence), sugere-se o enfrentamento de questões sobrenaturais num mundo em que anjos e demônios são tão comuns quanto a presença humana, e talvez até inseparáveis. Uma teia de acontecimentos demoníacos e catastróficos, estarrecedores, cada vez mais profundos e complexos, comprovaria a presença malévola de demônios na realidade espiritual, onde o inferno é observado de perto. Só entendemos isso se assimilarmos que Deus combate o mal no campo onde ele se manifesta. Suas figurações e representações simbólicas, tanto no mundo sagrado quanto no profano, permite-nos compreender.
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O anjo Gabriel dialoga com Constantine: “Vocês receberam essa preciosa dádiva, cada um recebeu a redenção do Criador. Assassinos, estupradores, pedófilos, molestadores, políticos corruptos, todos vocês, basta arrependerem-se e serão salvos. Deus os salvará. Em todo o universo nenhuma criatura pode ter tanto, só o homem. Não há justiça nisso, então vou fazê-los dignos de salvação. Observo vocês faz tempo. Só diante da face do horror vocês revelam seu lado nobre… Então, vou proporcionar-lhes a experiência da dor, trazer sofrimento e horror, para que possam mostrar tudo isso…”. A simplificação, mesmo exemplar, não satisfaz, enquanto indica o determinismo conformista inaceitável.
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Mas esse depósito simbólico pode ser também lixo apodrecido e enterrado, ou um vulcão inativo pronto a irromper no mundo superficial. Ninguém foi tão profundo na sondagem do mundo humano abscondito, como Jesus, nos evangelhos. Jesus indica que forças cegas agem no caos universal sem terem terminado sua obra. As forças caóticas ainda não completaram seu serviço desorganizador, quanto ao futuro da humanidade (Nilton Bonder). Portanto, em relação ao equilíbrio do campo coletivo, humano, devemos ser profundamente observadores, atentos ao sistema de valores externos à nossa mente organizadora, que revele nosso estado coletivo sujeito a negar a vida apontada por Jesus: vida plena e eterna, com a qual ele se identifica como Pastor e condutor.
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Ao finalizarmos o tempo do Advento, já na proximidade da Natalidade do Senhor, seguimos ouvindo vozes e ecos proféticos, enquanto os acontecimentos da vida humana persistem, reclamando dignidade para a vida, paz, comunhão, solidariedade, especialmente entre os que dizem crer (é preciso ter fé no agir de Deus, disse Karl Barth). É tempo de salvação (kayrós), o Reino de Justiça e Paz chega aos homens e mulheres que clamam por libertação do espírito demoníaco desse tempo dos homens.
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Deus não permanece indiferente ao sofrimento humano, habitando e permanecendo em espaços celestiais distantes. Ao contrário, através de Jesus, em proximidade com o cotidiano das opressões, veio experimentar em carne e osso as lutas e as perplexidades humanas, quando homens e mulheres enfrentam o mal sistêmico, os “demônios” que nos acometem, na esperança do advento do Reino e a sua justiça (parousia/ adventus).
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Homens e mulheres, nascidos na escuridão da inconsciência, precisamos acordar para uma realidade iluminada, no sentido da ampliação da consciência de uma lei superior e transcendental, além das leis construídas na falibilidade humana. Leis sobre a escravidão; leis sobre submissões coletivas à tirania de um regime; leis que impõem falsa consciência de privilégios econômicos e raciais, de classe social e gênero sexual; leis que estabelecem privilégios no tratamento e cura de doenças, favorecendo acesso seletivo e privilegiado à medicina de ponta, marginalizando e excluindo a pobreza desses benefícios.
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Não fora ele, Jesus, não aconteceria o reconhecimento de que somos governados por gigantes interiores – poderíamos denominá-los como “demônios”! –, ou como pulsões “inconscientes” vorazes. A fome interior é insaciável, porém sob a pulsão do medo, ódio, agressividade cega diante de obstáculos reais ou fictícios, paixão desenfreada. Várias expressões degradantes, nos tornam vulneráveis às forças cegas que povoam nossas crenças. Temos medo de viver a liberdade e direitos plenos.
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Todo sofrimento, angústia, amor, alegria, destruição, ruína, com a “parousia”, o advento  de Jesus, acompanham a ascensão do universo no rumo da plenitude da liberdade que se busca em esforços incessantes: “Pois estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem demônios, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Romanos 8,38-39), segundo o entendimento de Paulo, o apóstolo. O absurdo, porém, nos acompanha, sem princípio nem fim, recomeçando e terminando consecutivamente, numa repetição eterna, como se fora um projeto sem sentido, ou uma farsa burlesca, um espetáculo universal de brutalidades e violências sem hora para começar ou terminar. A história humana se dilata e se contrai, ao mesmo tempo. Há esperança sobre a terra? Sim, esta é a mensagem do Advento.
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Leituras:
Deuteronômio 18,15-20 – “O senhor teu Deus levantará um profeta no meio de ti”; Salmo 15 – “Habitará na tenda de Deus quem vive com integridade e pratica a justiça”; 1Coríntios 8,1-13 – “Quando eu era criança, pensava e falava como uma criança”; Marcos 1,21-28 –  “O demônio agitava-se…”

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