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NATALIDADE E EPIFANIA
maria e isabel grávidas_n
O grande texto da Natalidade e Epifania refere-se a uma adolescente judia que se torna mãe solteira numa sociedade patriarcal impiedosa (Lucas 2,22-42); lembra a mulher que, pelo menos, não tem responsabilidades nas decisões sobre os genocídios seguidos que caracterizam nossa cultura insensível ao infanticídio perenizado no cotidiano da fome e da desnutrição infanticida que tão bem conhecemos. O privilégio da hermenêutica cristã é apresentar o ventre disponível da mulher para uma grandeza libertadora a partir do que lemos num poema sobre uma vila periférica, Belém, da importante Jerusalém, sede política e religiosa do povo: Deus intervém em nossa história humana para nos unir contra tudo que destrói o sentido original da humanidade criada. Biblicamente, este é o Natal do primeiro cristianismo.
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Maria entrega seu útero acolhedor para abrigar Aquele que representa a misericórdia e o amor incondicional de Deus: a Graça se fez carne num ventre de mulher! Maria representa a fé madura, fé verdadeira, fé que procura sentido. Maria não teve a fé das crendices, dos amuletos, das rezas e dos mantras que soam como gemidos e se perdem nos abismos humanos. Sua fé não foi fácil, nem simplória. É uma fé que sabe das consequências dos compromissos com a justiça de Deus.
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Jesus nasceu no maior desamparo, nem sequer teve uma casa para nascer; nasceu na solidão desoladora de uma estrebaria, pois nem mesmo a estalagem abrigaria seu nascimento numa noite fria do inverno palestino (Lucas 2,7). Este sofrimento foi causado pelos interesses do imperador Augusto. Como governantes que sugam impostos que seriam partilhados pela corrupção: “mensalões”, operação lava-jato, metrô paulistano, propinas e crimes contra o erário e a economia do povo, até o último centavo (Lucas 2,1-5), Quirino governava a província da Síria, intermediando a opressão fiscal com um batalhão de arrecadadores.
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O nascimento de Jesus é anunciado a uns pastores que, igual a outros meninos nascidos em lugares insalubres, como um estábulo, não significam nada para a sociedade. Esta mesma que se locupleta de comidas caras, perus, lombos defumados, champanhe e vinhos finos, frutas cristalizadas, castanhas, nozes; que enche as sacolas de presentes e regalos festivos nesta data, como um excelente pretexto para o consumo de inutilidades. De fato, o que se quer esquecer é o aniversariante, nos significados críticos do primeiro cristianismo, e o que é Jesus e o que Ele representa como esperança de transformação num mundo impiedoso, injusto e insensível aos deserdados. Contrariando-o, como membro da sociedade humana à margem do paraíso pós-moderno, o Natal moderno o ignora. Enquanto se impregna de piedade sentimentalista, ocasional e sem consequências.
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O sinal dado aos pastores de que tudo o que foi dito sobre o menino está certo, é mais do que desconcertante: a extrema pobreza em que ele nasce (Lucas 2,12). Maria nem vê, nem ouve os anjos. Ela recebe a mensagem dos anjos por meio dos pastores, aparentemente menos informados e comprometidos do que ela. A reação de Maria diante de tudo isto não é algo passageiro, mas um fato permanente. Por isso, sua memória permanece na fé através dos séculos, muito além do pietismo hagiográfico tradicional.
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Não é uma atitude passiva, ela procura entender, refletiu sobre o que significava a saudação do anjo na anunciação (29), e como perguntou de que maneira havia de cumprir sua missão de mãe do Messias de Deus (34), assim também se esforça por compreender todo o bem que seu filho significa para o povo (19). O anjo lhes anuncia que este é um motivo de grande alegria (Lucas 2,10), no entanto; que este pequenino é o Messias de Deus, o Salvador (11).
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O herdeiro real do Reino da Justiça e da Paz completa, (shalom = bem-estar, dignidade na vida econômica, social, política; gozo igualitário dos direitos sociais, humanos, civis, atendidos em todos os níveis); o porta-voz de Deus anuncia a Luz que traz a vida plena e abundante: salvação das misérias, das fomes e das opressões humanas. A revelação celestial lhes diz que nele brilha a glória de Deus, que com Ele chega a paz (shalom) do Senhor (14; cf. Isaías 9,6). Esse é o Príncipe da Paz.
Derval Dasilio

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