Natanael, dos primeiros chamados para o apostolado do Cristo de Deus, depois de duvidar das qualidades do homem de Nazaré, lugar do interior palestino tradicionalmente desprezado pelos judeus, por questões históricas e raciais, ouve sobre Jesus e convence-se de que ele é verdadeiramente o filho de Deus, o Messias esperado. A vivência do homem de Nazaré, testemunhando o projeto de salvação, de Deus, causa impacto na vida de qualquer um.

Muitos se comovem, quando tomam conhecimento da abrangência da proposta de Deus — em Jesus Cristo –, de transformar os pensares humanos, como exemplifica a vocação do pastor Jaime Wright (foto acima: tempo da luta vitoriosa pela introdução dos Direitos Humanos sob a ditadura militar). Para mudar a visão sobre o que acontece nos escalões da política, quando novos governantes tomam posse em todo o país. Para corrigir ideias que fazemos sobre partidos e governos que comandam o destino de milhões de pessoas, políticos, dirigentes comunitários, religiosos. Para mudar a compreensão da economia que rege um povo inteiro, suas necessidades, carências e urgências, enquanto os discursos de posse dos governantes explicitam submissão para servir aos poderosos do mundo econômico e seus interesses rentistas, à parte da produção de bens sociais, tão somente voltados para o mercado de capitais.

O tripé da fé evangélica: cura, exorcismo, prosperidade, também ruiria se houvesse qualquer cuidado quanto a aspectos da doença e da morte que ronda a todos os viventes, sob responsabilidade de toda a sociedade. Ao lado da indigência econômica da maioria, a miséria do drogadismo, compulsões patológicas, alcoolismo, jogo. Noutro grupo, as carências do povo doente: hipertensão, câncer, aids, pneumonias, alergias, viroses, compõem o imenso repertório das doenças a que estamos sujeitos, antes da morte biológica, que, inadequadamente, recebem julgamento moral, na sociedade e nas igrejas.

Ao invés de uma salvação espiritual, como sugerem budistas e espíritas, Jesus tornou claro que a paz social resulta da observância do direito do pobre, do oprimido e do excluído. Suas atitudes éticas apontam o homem e a mulher sem dignidade, desgraçados e desgarrados da fé e da esperança. Povo esquecido, completamente mergulhado nas desigualdades, nas omissões dos poderes políticos, no abandono das multidões submersas na miséria. Diferentemente do que a “igreja inicial” sugere, Jesus aponta o cuidado com o pobre, desde a tradição bíblica hebraica, o “anawin” (no grego: “ptochos”); o esmagado, oprimido, excluído em toda parte, neste mundo.

O reinado de Deus está começando, uma proposta salvadora é apresentada. Seus apóstolos são convocados. Muitos ouvem o chamado, conscientemente. É hora de mudar o entendimento a respeito do papel não cumprido pelos legisladores e juízes, pastores, mancomunados na opressão do povo. Hora de mudar o modo de ser religioso, que acompanha e defende o modelo dos exploradores, em acordo com o poder e a cultura do opressor. O molde em questão é o de uma sociedade que discrimina e elege bodes expiatórios para punir e separar pessoas do convívio exigido nas verdadeiras democracias, plenas no gozo dos direitos igualitários e privilégios do bem-estar.

Sociedade que exige respeito pela propriedade de outrem, aristocratas do mercado de capitais e escroques diplomados, com título de doutor, diferenciando seus crimes e minimizando as punições, enquanto destaca pessoas conforme seus bens e posições econômicas; enquanto sacrifica deserdados, condenando-os à marginalização e à obrigação de aceitar o papel nos espelhos impostos da fome, da miséria, da habitação nos guetos da pobreza, da saúde e escola negadas, ou da desqualificação que impede a ascensão a postos decisivos no mercado de trabalho.

Discípulos de João escutam-no expressar-se sobre Jesus (João 1,43-51), o “cordeiro de Deus”. Sem vacilações, na mesma forma ingênua do jovem Samuel, sem perguntar, de antemão sabendo os significados dos compromissos e das mudanças em suas vidas, ao optarem pelo caminho de Cristo. O diálogo que se entabula entre os “vocacionados” e Jesus é significativo: “Que buscas?”; “Mestre, onde vives?” “Venham e verão” (35-36;39). E logo são acolhidos em sua morada, convívio de salvação. O gesto simbólico diz muito: não basta proferir uma lição teórica sobre quem é Jesus, como forma de evangelização de folhetim. Como um brinquedo de “papier marché” construído irresponsavelmente. É preciso testemunhar pessoalmente sobre os significados, os valores, o sentido da vida.

Seguir a Jesus é estar pronto para o impacto da experiência de Deus ampla e sem restrições, que envolve a vida imersa no mundo, por inteiro. João dirá, mais tarde, sobre uma oração de Jesus: “Pai, não te peço que os tires do mundo, mas que os guardes do mal”. Deus pode continuar sendo o grande desconhecido, nestes “chamados vocacionais”. Trata-se de algo bem distante do que afirmamos, inclusive; de textos como o que aborda o profeta Eliseu ainda menino, antes que brotassem os profetas clássicos do século 8º a.C., ou os profetas escritores contundentes que conquistaram espaço na Bíblia e na religião de Israel.

É, portanto, necessário, distinguir o que é uma vida de fidelidade à fé abraçada, inclusive no compromisso de seguir o roteiro do discipulado cristão, das seduções culturais que constituem a caricatura da vida em comunhão (Dietrich Bonhoeffer). Num mundo excludente, injusto e sem compaixão, endereço cósmico do lugar onde estamos, uma relação integral com Cristo não se refere somente à nossa experiência religiosa ou espiritual. Na verdade, a experiência de Deus em cada um de nós envolve relacionamentos humanos mais profundos: no trabalho, na política, na família e na igreja… De modo que, em qualquer tempo, ou em qualquer situação, como cristãos e cristãs, saibamos responder ao chamado de Deus, mesmo sem ser perguntados sobre o que significa viver sob uma vocação. Em comunhão com Cristo e sua causa libertadora e transformadora.

As dificuldades, como obstáculos, podem induzir à insegurança, ao desalento e ao medo do fracasso vocacional, na denúncia e insurgência contra as potestades deste mundo, e seus servidores ou imitadores, em seu nojo e repulsa contra a pobreza e o pobre. Podem também induzir-nos a acreditar no silêncio de Deus, ou compará-lo a uma divindade pagã satisfeita com a adoração interesseira, na religiosidade apática, omissa, dominante nos nossos dias. Deus, contudo, sabe das responsabilidades não assumidas por nós, principalmente na igreja plural, quanto à vida dos que morrem na calçada, ao lado de sacos de lixo e restos da droga. Sem falar dos milhões de miseráveis que são encontrados nas ruas mais sujas, entre as imundícies de nossas cidades.[Foto: Pastor Jaime Wright].

Derval Dasilio

1Samuel 3,1-20 – Tu me chamaste, eis-me aqui…
Salmo 139,1-6;13-18 – Senhor, tu me conheces…
1Coríntios 7,29-31 – Sois um “templo” da justiça…
João 1,43-51 – A quem buscais? Venham, vejam…

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