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JESUS, A SAÚDE E AS DOENÇAS DO POVO

Depois de narrar o início do evangelho com João Batista batizando a Jesus, com a unção messiânica no rio Jordão e com suas tentações no deserto, Marcos relata o início da atividade pública de Jesus: é o humilde carpinteiro de Nazaré que agora percorre sua região, próspera e mal falada por judeus. Galiléia. Jesus segue pregando nas aldeias e cidades, nas encruzilhadas do caminho, nas sinagogas e nas praças (Marcos 1, 14-20). Vamos ouvir uma voz clara e vibrante como a dos antigos profetas. O conteúdo da pregação de Jesus, é proferido em alto e bom som: “o reinado de Deus começou – pois terminou o prazo da espera; perante o reinado de Deus só cabe a vocês converterem-se e acolher o Reino de Deus, e aceitá-lo com fé”.

As bem-aventuranças, os valores da vida diária, estão muito mais próximos da beleza do espírito do que se imagina. Transparecem na solidariedade e compaixão, vinculados à saúde física e mental, à verdade, à justiça igualitária, à plenitude em direitos fundamentais. É o lugar do Reino de Deus. A relação entre doença e “pecados”, especialmente os estruturais – responsabilidades dos poderes governantes –, admitidos na sociedade humana, é explicitada nesse evangelho, nas palavras de Jesus. A desatenção com a saúde do povo completa o ciclo do sofrimento provocado pela omissão dos sistemas e políticas públicos, em todos os tempos e lugares. Envolve o rei e seus ministros, núcleo alimentador na cumplicidade da sociedade com o palácio governamental.

Hoje, falamos com naturalidade de transplantes e implantes, e temos até notícias policiais sobre a comercialização inescrupulosa da medicina. Além das operações desnecessárias, médicos usam válvulas e stents de fabricação vencida, ganhando comissão dos fabricantes. “São hospitais que colocam dois, três stents – tubos metálicos usados para expandir os vasos sanguíneos entupidos do coração e normalizar a circulação” (O Globo, 11/01/2015, Giovani Grizotti). Cada época e toda cultura têm suas próprias doenças e endemias, assim como a medicina corrompida sem escrúpulos sociais. Na verdade, pobres e miseráveis ainda vivem à margem de qualquer tipo de atendimento médico à saúde, em grande parte do planeta.

A determinação médica exata e completa das enfermidades da época não é tão importante. O que interessa é que os indivíduos com quem conviviam Jesus e discípulos – oprimidos pelas enfermidades justificadas no fatalismo religioso –, como nos dias de hoje, temiam de modo especial uma série de pragas e doenças, entre elas a lepra. Por via de regra, eram consideradas castigos (excepcionalmente duros) de Deus. Jesus desmentiria tal coisa, isentado o enfermo do pecado atribuído à doença. Porque, a lepra, distúrbios mentais, sintomas neurológicos ou desequilíbrios psíquicos, acarretam exclusão, ou impedimento para o trabalho produtor de bens sociais, e contato humano (Lv 13,45s; Dn 4,29). É impossível dizer como o povo bíblico enquadrava outras deficiências da vida, tidas como heranças genéticas “naturais”, como cegueira, surdez, senilidade, alzheimer, mortalidade infantil e casos de mutilação e paralisia (cf. Erhard Gestenberger: Por Que Sofrer?, CEB-EST-Sinodal, 2007).

Comprar, vender, chorar, rir, amar, casar ou permanecer celibatário, tudo é diferente, e tem valor distinto. Porém, absolutamente definitivo é o exercício da vontade salvífica de Deus, que Jesus veio pôr em prática, quanto à saúde e as responsabilidades existentes em torno do tema. Paulo pôde afirmar que “passou a vez deste mundo doente”. Ou seja: Deus faz novas todas as coisas realizando a utopia de seu Reino, onde pobres e tristes, enfermos, condenados, excluídos e ofendidos, são resgatados e acolhidos, curados e libertados; onde ricos, bem-postos e poderosos, são, também, chamados urgentemente à conversão e à solidariedade (Coríntios 7,29-31).

Jesus, nas palavras de Lucas (4,16-30), “anunciante” do Reino de Deus, propagador do Evangelho, e dos males na saúde popular, ao entrar numa casa de culto, sinagoga da Galiléia, apresenta-se: “fui ungido pelo Senhor para apresentar um programa aos pobres; para indultar os presos por insurgência ideológica; para restaurar a visão crítica sobre sistemas impiedosos e sem compaixão, e definir pecados e omissões estruturais existentes nas sociedades e governos; para restituir a liberdade aos cativos e oprimidos” (paráfrase do autor). O cuidado com os enfermos, cegos, deficientes físicos, doentes mentais, contaminados por epidemias desde a dengue e o ebola, e soropositivos aidéticos, especialmente nas subcamadas sociais, está em primeiro lugar. João, na mesma região e linha de marketing informativo dos evangelistas anteriores, inclusive Marcos (sem trocadilho), lapida o “slogan” temático de Jesus: “Vim para que tenham vida, e a tenham em abundância”.

Derval Dasilio \

3º. Domingo do Tempo Comum depois da Epifania – Ano B
Jonas 3, 1-5.10 – Os ninivitas converteram-se a contra-gosto do profeta…                             Salmo 62,5-11 – Minha alma espera em silêncio                                                       1Coríntios 7, 29-31 – As coisas passam, neste mundo                                                   Marcos 1,14-20 – Convertei-vos e crede no Evangelho!  \


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