5o.DOMINGO DO TEMPO COMUM DEPOIS DA EPIFANIA – ANO “B”
Isaías 40,21-31 – Deus é fiel, apesar de tudo
Salmo 147, 1-11;20c – O Senhor sempre amparará os pobres e humildes
1Coríntios 9,16-23 – Lutar contra as doenças é parte da liberdade em Cristo
Marcos 1,29-39 – Jesus cura, salva e liberta o ser inteiro


A prática da cura, a luta contra o mal, nas ações de Jesus, tem a ver diretamente com a liberação do ser inteiro. Não há dicotomias, ambivalências, duplicidades, no intento do Senhor em curar alguém. Os evangelhos jamais falam que Jesus salvava almas separadas do corpo (ou corpos…). Recuperar a saúde de alguém é recuperar a capacidade de trabalhar, de produzir, de viver com dignidade, possibilitando-se a reintegração social do “doente”, considerado um peso para a sociedade, que o exclui. Curar é salvar e libertar.


Mas o comum, ao tempo dos apóstolos, e de Jesus, era que os enfermos fossem considerados “possuídos por maus espíritos”. Os alijados, não se atreviam a aproximar-se, o mesmo ocorria com os membros “sãos” da sociedade, que não olhava os desgraçados. Jesus, contrariando expectativas de ambos os lados, recusava os determinismos religiosos, as regras, dispunha-se a servir os marginalizados com dedicação e cuidado, para curá-los do conformismo fatalista (Marcos 1,29-39).


Os seguidores de Jesus são convocados a apresentar sua Palavra à sociedade de hoje, como anúncio do Reino de Deus, como empenho pela justiça, em especial a que cuida da pessoa sujeita a doenças e que apresenta alívio do sofrimento. O saneamento da sociedade equivale a sairmos do consentimento, conivência e omissão. Os ambientes e contextos estão impregnados de enfermidade e sofrimento. Esta sociedade, com rostos de pretensa modernidade, se compõe de indivíduos à procura permanente de novidades.

O cardápio, nesse ponto, se amplia: corpo saudável, academia de ginástica, dietas que chegam até no cotidiano da presidenta Dilma Rousseff. Assuntos como a estética corporal não faltam, e se discutem o uso do botox, dos implantes de silicone, próteses dentárias de porcelana. Os adeptos da secularização eclesiástica, no entanto, gostam de falar de moral, da legalização da maconha — enquanto se entopem de drogas lícitas –, ciência, religião, política partidária, esportes, amor, filhos, saúde, alimentação saudável, esteira rolante, eletrocardiograma, mamografia, próstata, ultrasom, colonoscopia, medicina de ponta, e mesmo assim chega o dia inevitável em que se vai enfrentar a dependência da medicina privada, e seu alto custo.


Mas que novidades há nas enfermidades e no sofrimento e busca da cura? Para estes, viventes num mundo mal ajustado, repleto de fragmentos que sobram das tarefas mal cumpridas para melhorar certa “qualidade de vida”, perseguida como um sentido além do que as pessoas são em si mesmas, o consumo de inutilidades e objetos impermanentes torna-se uma falsa questão de sobrevivência. “O indivíduo solitário, autorreferente, autoconcentrado comprador de coisas, em busca de novidades, adotou a compra e a barganha como cura para os males que ele sabe existir, mas não se dispõe a encarar a responsabilidade coletiva para recusá-los”, parafraseando Zygmunt Baumann (Modernidade Líquida).


É necessário enfrentar as estruturas e os poderes da opressão. É preciso dirigir-nos ao “centro”, para denunciar as estruturas e os poderes da opressão, no espelho da sociedade autoritária, seus mandatários e defensores, pronta a usufruir benesses exclusivas no exercício da cidadania subjetiva, como grupos privilegiados. É preciso denunciar o poder autoritário, a sociedade excludente, a riqueza de uma minoria que gera fraqueza, miséria, doença e marginalização, enquanto profecia e reclamo contra a ausência da partilha dos bens comuns. É também necessário denunciar o conformismo religioso, o fatalismo, a ganância, a submissão às ideologias políticas autoritárias, e os determinismos religiosos, políticos e sociais, movidos pela busca de privilégios particulares.


Por exemplo, quais das nossas famílias não têm vítimas da violência como enfermidade, doença social? Experimentamos a bipolaridade, o drogadismo farmacológico, alcoolismo, tabagismo, jogo compulsivo, consumismo irresponsável. A violência intrafamiliar, crime político, crime organizado, intolerância religiosa, homofobia, trânsito congestionado – transporte ruim, estressante, caro e demorado –, trabalho indigno, exploração gananciosa, religião concorrente do sistema financeiro e bancário (ambos escorcham a população), também compõem o elenco perverso que domina a sociedade urbana do nosso tempo.


Se temos avançado no plano tecnológico, científico, falta-nos a sabedoria fundamental para perceber com clareza o mal que nos cerca. Como no Salmo 73, com o mesmo enfoque de Jó, a experiência de Deus nos leva à sinceridade e honestidade (Paulo Rückert). Deveríamos ser capazes de enfrentar a inveja e a ganância que nos sobrevêm, ao observarmos o sucesso dos “perversos”. Eles têm riqueza, bem-estar garantido nos níveis que implicam em saúde, previdência social, escolaridade em todos os graus, habitação e lazer. Os perversos têm tudo, e suscitam inveja, enquanto desfrutam a vida como se estivessem em férias permanentes, gozando o verão, sol, praia, suor e cerveja…


Paulo, o apóstolo, se declara livre em Cristo para pregar a pureza de sua mensagem descomprometida, sem buscar privilégios, benefícios ou vantagens pessoais. No entanto, é essa liberdade que o torna um servidor dos demais, sem ser obrigado a representar os “valores” de grupos e castas que se acham com o direito “natural” de sobreporem-se aos demais (como os recentes consumidores de novidades eletrônicas, frequentadores de shopping centers, turistas obrigatórios da Disney), exercitando seu poder sócio-econômico ou religioso. Paulo anuncia que o Evangelho de Jesus Cristo não compartilha da rigidez ou flexibilidade das hierarquias sociais, dentro ou fora da comunidade de fé.

Algo como se observa numa sociedade a qual chamamos de pós-moderna, ou pós-industrial, hoje. Na verdade, deveríamos chamá-la de pós-humana… A religião, os templos, participam da espoliação geral. Isaías, o profeta, dirá que a vida do povo é como “o pavio que está para se apagar…”. Por trás de impérios financeiros poderosos, encontramos uma sociedade injusta e desigual. Os mais pobres sofrem mais, escorraçados, excluídos, esmagados pela miséria, enfermidades, abandonados socialmente. É exatamente sobre eles que incidem as maiores cobranças, obrigados a pagar taxas e tributações que sustentariam o luxo, a riqueza e o fausto dos palácios dos bem-postos, e dos economicamente poderosos.

Essa, pois, é a economia do corpo saudável ou doente em questão – quando  o crente e a igreja não correspondem ao que dizem ser, como “corpo de Cristo”,  quando seguramente ligados a uma determinada forma de capital. A própria vida é comercializada. Especialmente no tratamento do corpo doente. Remodelando os contornos do envolvimento e responsabilidade social da igreja, da cidadania da saúde, das raças e de outras formações políticas, não temos mais que decidir entre uma interpretação materialista ou espiritualista desses desenvolvimentos (Nikolas Rose). Poucas atividades são tão transparentes nas injustiças e desigualdades como o descaso com a saúde dos desfavorecidos na sociedade moderna.

A ética do corpo e do capital, nas pessoas e igrejas, têm se unido desde o nascimento. Com efeito, poderiam colocar-se a serviço da saúde e da vida, onde a vida mesma atingiu tal importância ética; onde as tecnologias para manter a vida e incrementá-la, podem representar a si mesmas. Não o  fazem. Alimentam a mais destacada e corrupta corrida por lucro e ganho individual. Nesse sentido, podemos afirmar que a ética pessoal ou eclesiástica, pragmática ou positiva, enquanto consente na capitalização da vida, estando intrinsecamente ligada ao “espírito do biocapital”, distancia-se do evangelho do Reino de Deus.

Derval Dasilio

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