DEPRECIAR O CORPO ENALTECENDO O ESPÍRITO?

6º Domingo do Tempo Comum depois da Epifania – Ano “B”

jesus e o leproso_(2)

Leituras: 2Reis 5,1-14: –  A doença humilha e causa exclusão / 1Coríntios 10,31-11: – Um só corpo, um só espírito…para a glória de Deus.\ Marcos 1,40-45: – Desapareceu a doença, e ele ficou limpo.

A discussão teológica de hoje refere-se à integridade espiritual do crente. Paulo discutirá com os cristãos coríntios o bom emprego da palavra “espiritualidade”. Quase sempre nos referimos a esta palavra pensando como os filósofos gregos, que imaginavam possível um estado de perfeição do espírito somente quando o corpo não interfere na abstração espiritual, fora do corpo e das realidades humanas. Quer dizer, o melhor estado espiritual é aquele alcançado pela mortificação do corpo.

Os monges gregos ainda no começo da Idade Média já diziam: “o espírito é para Deus, o corpo é para o imperador” (espírito é “nous”, e “soma” é corpo, no grego). Mas isto não corresponde ao pensamento e bíblico paulino original, por exemplo (E.Käsemann). Nenhuma escola rabínica, no tempo bíblico apostólico ensinaria tal coisa. Paulo foi instruído na concepção rabínica judaica, embora fosse inevitável a influência e pressões culturais do mundo helênico. O modelo de espiritualidade religiosa que prevaleceu não tem que ver com a revelação bíblica, mas sim com uma religião pagã do século 7º a.C.,  “Religião Órfica da Trácia”. Desde os primeiros séculos da era cristã essa concepção se tornou dominante no cristianismo, informa Renold Blank. Até para as pessoas mais simples: “o espírito é tudo, o corpo não vale nada; o espírito valoriza o corpo e a matéria degrada o espírito”. A depreciação do corpo prossegue. Equivocadamente! 

Sem fugir do foco da discussão, precisamos insistir que o modelo antropológico dualista (espírito e corpo separados) tem suas raízes numa cultura alheia à do povo bíblico original, conforme refletido no Primeiro Testamento. Uma discussão mais habilitada da teologia nos levará à coragem para refinar conceitos que versam sobre o poder e a vida, e sobre o próprio corpo. A Bíblia, por sua vez, não absorve essas razões culturais e ideológicas de um cristianismo aculturado já distante das fontes apostólicas.

Não há nada mais universal que o corpo. Ele cria o mundo e tudo quanto existe se organiza a partir dele. Tudo quanto o homem criou, seus instrumentos de trabalho, sua sociedade, seus valores, suas aspirações, suas esperanças, seus mitos, sua linguagem, sua religião, suas ideologias, sua ciência, e qualquer outra coisa que se possa inventariar como surgida do homem – ficou engendrado em meio à luta pela sobrevivência do corpo. É justamente no centro, como fonte e razão de ser e existir, que está o corpo do homem. O corpo é a origem do imperativo categórico de agir. “O corpo é o lugar fantástico onde mora, adormecido, um universo inteiro” (Rubem Alves, citação: J.J.Tancara).

Temos uma página bastante comum no evangelho de Marcos (1,40-45): Jesus cura o corpo, não somente prega sobre o mesmo.  Jesus associa palavras e atos.  Suas ações trazem libertação, porém libertação integral, espiritual e corporal. Seu modo de expressar a religião professa a solidariedade, compaixão, misericórdia, cuidado, amor libertador. São valores espirituais elevados muito acima da religiosidade sem sentimentos, catártica, regulamentar, desencarnada. Jesus não pratica essa religião. Ao contrário, combate o legalismo que impede a abertura para o outro, seu corpo, ou a comunidade em si mesma. Para ele, amar é libertar.

Essa, pois, é a economia do corpo saudável ou doente em questão, seguramente ligada a uma determinada forma de capital, a própria vida comercializada na medicina pública e privada. Sob a sensibilidade de instrumentos especiais, uma espécie de GPS que perscruta as recentes visitas médicas ou farmacológicas ao corpo dos homens, mulheres, crianças, idosos, em meio a uma paisagem social devastada pela desigualdade.  Especialmente no tratamento do corpo doente. Remodelando os contornos da medicina, da cidadania da saúde, das raças e de outras formações políticas, não temos mais que decidir entre uma interpretação materialista ou espiritualista desses desenvolvimentos (Nikolas Rose). Poucas atividades são tão transparentes nas injustiças da sociedade moderna.  

A ética do corpo e o capital têm se unido desde o nascimento. Com efeito, podendo a medicina e a seguridade colocar-se a serviço da saúde e da vida, onde a vida mesma atingiu tal importância ética; onde as tecnologias para manter a vida e incrementá-la podem representar a si mesmas.  Muito mais destacada que a corrupta corrida por lucro e ganho individual. Seria possível ao “biocapital” alcançar nossas economias de esperança, de imaginação e de cuidado com o homem e a sociedade? Nesse sentido, podemos afirmar que a ética pragmática, enquanto consente na capitalização da vida, estando intrinsecamente ligada ao “espírito do biocapital”, expressa tanto na medicina pública quanto na medicina privada, distancia-se do evangelho do Reino de Deus.  

Para estes, algumas vezes, a saída da religião evangélica, pela materialidade da vida, exige-se uma religião com um “deus ex machina” disponível, oferecendo um cardápio “a la carte” para tornar suportável a vida no mundo moderno. Nesse momento, contendo soluções prontas para os problemas do cotidiano, nada mais confortante que o consumo do luxo, sem esquecer a saúde diferenciada, sob privilégios de classe, na procura de clínicas estéticas a alto preço.

As receitas, nesse ponto, se ampliam: corpo saudável, academia de ginástica. Assuntos como a estética corporal, e se discutem o uso do botox, dos implantes de silicone, próteses de porcelana. Os adeptos da secularização eclesiástica, ou religião “soft“, no entretanto, também gostam de falar de moral, da “legalização” da maconha – embora já entupidos pelas drogas farmacológicas “lícitas”.

Depois vêm assuntos como ciência, religião, política, corrupção, esportes, amor, filhos, saúde, dietas, alimentação saudável, esteira rolante, próstata, eletrocardiograma, mamografia, ultrasom, colonoscopia, transplantes, medicina de ponta, e mesmo assim chega o dia inevitável em que se vai depender dos caros planos de saúde, sequestrados em favor da caríssima medicina privada. Poucas atividades são tão transparentes nas injustiças e desigualdades na sociedade moderna quanto o escapismo secularista que toma igrejas e crentes.

A concepção bíblica, diferentemente, refere-se ao ser total, que é corpo, é alma e é espírito, indivíduo e sociedade indivisíveis, finalmente. E isso no Segundo Testamento, porque no Primeiro, já haviam descoberto, os exegetas do século 19, que a palavra “espírito” (pneuma, na Septuaginta) refere-se somente ao Espírito de Deus. O hebreu não conhece outra forma de identificar o ser humano senão através do “corpo que é alma e da alma que é corpo” (“nephesh”). Para ele, corpo e alma são indissociáveis.

O ser humano é o centro da pregação de Jesus, e isto se demonstra na ordem do mundo a partir do ponto de vista daqueles que não têm o poder. Eles são o centro da vida. Por isso, quando eu descubro que “sou eu o centro”, homem, ser humano, desautorizo-os, e passo a ser um perigo para os comandantes do mundo. Não existe objetividade no poder. Se houvesse, não haveria problemas em permitir falar da “realidade” com realismo. Somos o que somos porque somos um corpo. Meu corpo é parte de outros corpos, na igreja, na comunidade, na sociedade, ensinou Rubem Alves.

Paulo prossegue nesta linha: “quer comam ou bebam, ou que façam qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus”. Não só as atividades religiosas tradicionais têm a ver com a espiritualidade concreta do corpo, mas o comum do cotidiano de cada um e de todos: “…porque nós, embora muitos, somos um só corpo” (1Cor 10,17; 10,31-11). Esse acréscimo identifica outros aspectos, como os que envolvem a comunidade, a sociedade e o crente. 

Derval Dasilio

Anúncios