1o.DOMINGO DA QUARESMA – ANO “B”
Evangelho de Marcos 1,12-15

penitência 33Entendamos a Quaresma. Muitos cristãos, possivelmente, ignoram o sentido teológico da mesma. Começamos lembrando o batismo realizado por João Batista (que não é o batismo apostólico, eclesiástico, mas um sinal de adesão às propostas de se fazerem conhecidas as metas de Jesus para o reinado de Deus. Uma espécie de marketing, respeitado o tempo e os costumes na comunicação evangélica da época, transportados para hoje). A campanha de Jesus começa, e ela trata de realizar no mundo um combate constante sobre o mal. Para vencê-lo. Jesus enfrenta o mal no deserto e, para tanto, ora. Enfrenta as provações, os impedimentos naturais na vida humana, desde os seus impulsos e tendências comuns a todos os homens e mulheres.

Estamos, com Jesus, diante de um ser humano comum fazendo suas escolhas, homem de família, mulher “caridosa e carinhosa”, como diria Dominguinhos, interpretando seus próprios dilemas morais burocraticamente, aprovando o extermínio ou o holocausto dos adversários. O cristianismo, ou a religião cristã, não pode explicar o mal. Todos esperam um monstro ou uma legião de demônios, criaturas do inferno sobre o planeta, atuando na vida de outrem. Mas encontramos um homem religioso, bondoso, uma mulher dedicada aos filhos e à família, que pagam seus impostos, escolhendo políticos de suas simpatias e os elegendo. Um conjunto de condições horríveis, que necessitam ser extirpadas, são atribuídas ao outro. 

No entretanto, esses “seres morais” estão prontos a ajudar na eliminação dos adversários de sua cultura, religião, ideologia política, como portadores de um suposto e “elevado senso do bem”, aprovando a imposição de perseguição ao mal nos outros. Suas crenças de combativos do mal  permitem até a aplicação da pena de morte, “impeachmente”, ou eliminação de outros seres, outras ideologias, outras etnias, outras religiões, como dever de exterminar o oposto ou o estranho, a exemplo da criação fundamentalista do “eixo do mal”, ou do “apartheid” racial em toda parte, como poderia dizer Leonidas Donkis.

Em contraposição aos veículos, eixos, rodovias do mal, os anjos, ou mensageiros, ou seguranças, do Altíssimo,  cercam Jesus e o servem, protegendo-o. Marcos vai ensinando que o mal não é irreversível, mesmo quando a cultura e a vida insistam quanto à sua perenidade e determinismos no cotidiano de cada um. O mal é uma realidade sob possível visibilidade, está na religião, na economia, na sociedade e na vida. O mal é encontrado nos lugares onde transitam os seres humanos.

A teologia chama esses determinismos de “pecados estruturais”, fora da condição particular e existencial da criatura humana. Por tudo isso, essa criatura é chamada à conversão (metanoia, mudar de rumo, corrigir o roteiro da vida e sair do congestionamento que retarda a progressão do Reino; reconhecer que somos voluntária ou involuntariamente, coletiva ou individualmente, apoiadores ou coniventes com os pecados estruturais que nos tornam seres dominados por consentimento implícito).

Sem esquecer da penitência lembrada pelo salmista: “Compadece-te de mim, ó Deus, segundo a tua benignidade; e, segundo a multidão das tuas misericórdias, apaga as minhas transgressões. Lava-me completamente da minha iniquidade e purifica-me do meu pecado. Pois eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim. Pequei contra ti, contra ti somente, e fiz o que é mau perante os teus olhos, de maneira que serás tido por justo no teu falar e puro no teu julgar. Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe” (Salmo 51,1-5).

No Novo Testamento, a referência teológica da Quaresma são os atos de Jesus, preparando-se para anunciar o Reino de Deus e a sua justiça peculiar. Ocorre com duração de 40 dias antes da Páscoa. Elias, talvez o primeiro profeta do Israel bíblico, é também lembrado desse modo, quando caminhava em penitência pelo deserto, alimentado pelos corvos, até chegar à montanha (1Reis 19,11), enquanto procurava por Deus. Ocorreu uma coisa com o profeta Elias, que procurava intensamente a experiência de Deus, penitencialmente: “Então, uma voz lhe falou: sai de onde estás e coloca-te diante da montanha. Um terrível furacão deslocava a rocha e quebrava os rochedos, mas Yahweh não estava no furacão. Depois, houve um terremoto que abria fendas no solo, mas Yahweh não estava no terremoto. Em seguida, um incêndio de grandes proporções, mas Yahweh não estava no fogo. Depois do fogo soprou uma brisa mansa, cuja suavidade era incomparável. E, então, lá estava Yahweh”.

Com Moisés, o povo bíblico peregrinou durante 40 anos pelo deserto (Dt 2,7), e era alimentado por Yahweh. João, de outro modo, vivia no deserto, lugar de reflexão e experiência de Deus, lugar e tempo de tomar decisões importantes, como foi com o povo conduzido por Moisés, na travessia do deserto. Conheceu a Deus, e fez com ele uma aliança, uma constituição bilateral, consensual, para o povo se manter permanentemente sob a justiça. Foi também no deserto que Jesus, após o batismo, superou as tentações e ratificou a missão que o Pai havia lhe confiado.

É no deserto que aparece João, vestindo e se alimentando de maneira totalmente despojada, anunciando este tempo novo, onde homens e mulheres são convidados ao arrependimento, aplainados e retificados, para que sejam inundados por Jesus de Nazaré em sua graça libertadora, enquanto se preparam para o grande e importante anúncio de Jesus sobre o Reino de Deus.

A palavra “deserto”, έρημος (éremos), biblicamente falando, é rica de significados: é lugar símbolo da experiência da solidão; é referência à aridez espiritual, tanto quanto à insensibilidade ao anúncio da justiça ( o que é a “voz que clama no deserto?”). O deserto é o lugar da busca de segurança diante das pressões da vida; lugar do desprendimento, do despojamento, do encontro desarmado com Deus. É, sobretudo, lugar de oração. Não se trata aqui de um ambiente geográfico, mas de um estado espiritual e preparação moral, pensando na ética da vida. Esse deserto, no qual soava a voz do profeta, era também a dureza, o fechamento e a insensibilidade às desigualdades na sociedade do seu tempo. O deserto também pode transformar (μετατροπή) as pessoas! O chamado à mudança de vida era evidenciado através de um sinal, o compromisso com a vida de justiça, também chamado de batismo cristão.

Não existe em nós espanto sobre sinais no espaço cósmico, o sol, a lua, as estrelas. Nossa angústia e insegurança residem nos sinais da crise de ideias (krysis), deserto que não se vê; crise na econômia, nos conflitos sociais evidenciados nos sem-moradia, sem-terra, sem-emprego, sem-saúde, sem-escola, sem formação para o desenvolvimento em igualdade de oportunidades, no usufruto dos bens culturais, econômicos e sociais.

Há também racismo camuflado, contra políticas afirmativas reina a intolerância. A maioria brasileira de negros reclama “consciência negra”, conversão à causa da libertação, lembrando Zumbi. Outras etnias falariam da “consciência branca”,  políticas autoritárias de privilégios de raça e de classe; corrupção, abuso de poder, individualismo, esforço das elites dominantes para restringir a participação popular nos benefícios que alcançaram; cooptação à mais recente expressão da selvageria liberal, com cara mentirosa, exclusivista, exigente de mais privilégios e bem-estar individuais para a minoria, e cegas quanto à exclusão da maioria… E falta pão, escolas, hospitais, e trabalho para os muitos. Há frustração… muita frustração. As promessas não foram cumpridas.

“Prepararem o caminho do Senhor” (Is 40,3-5). João Batista é a voz que clama no deserto: “Endireitem os caminhos do Senhor… façam penitência, porque no meio de vocês está quem não conhecem, do qual eu não sou digno de desatar os cordões das sandálias… Eis o Cordeiro de Deus, eis aquele que tira os pecados do mundo” (Mc 1,1-3; Jo 1,29). A “voz que clama no deserto” brada às consciências para que se abram: há estruturas perversas, arrogância, tantos são os pecados estruturais que oprimem a maioria popular. Desigualdades gritantes, na política, nos meios jurídicos e econômicos; há desvalidos, escravos do mal social e dos sistemas injustos (religião alienada, política, corrupção, economia sem partilha, judiciário a serviço do poder econômico).

Como acontecerá a salvação? Na Quaresma refletimos sobre a palavra de Deus, no que diz respeito à chegada do reinado de Deus. A justiça – ecológica, econômica, social, jurídica – começa nos corações convertidos, e arrependidos. Porque abdicamos do apoio à injustiça e ao conformismo, que praticamos no mais das vezes. A meta da Quaresma é a Páscoa, onde o tempo de Deus (kairós) culmina na Ressurreição.

Derval Dasilio

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