2o.DOMINGO DA QUARESMA – ANO “B”
Evangelho de Marcos 8,31-38

penitência 1Ter fé é jogar-se inteira e confiadamente nos braços de Deus. Como o fez Abraão. Acreditar, especialmente quando todas as coisas parecem impossíveis. Abraão era velho, e Sara, sua mulher, era estéril, inabilitada para iniciar uma geração multiplicadora. Foi aí, desse terreno do impossível segundo os homens, que Deus prometeu que nasceria um grande povo. E Abraão acreditou, confiou plenamente na promessa de Deus. “Acreditar no impossível…”, e Abraão esperou firmemente contra toda esperança. 

O patriarca bíblico ensina que ter fé não é fazer cálculos sobre as possibilidades, ou não, da revelação e promessa de Deus (Rm 4,13-25). Ter fé é aceitar com ternura a providência de Deus, confiando e entregando-se plenamente a Deus, como um filho que confia nos braços do pai (M.Strabeli). Ingmar Bergmann, cineasta extraordinário, no roteiro do filme “O sétimo selo” já dizia: “a fé é uma aflição dolorosa”, quando as inseguranças pretendem sufocar a esperança. Rubem Alves, ousava: “ter fé é jogar-se no espaço com uma asa delta, sem saber onde se vai pousar”.

Há, também, na fé, o desejo de nos comunicar, “não” só com aqueles que nos são próximos, “mas” com os que sofrem em silêncio, os estranhos, os diferentes culturalmente, e não alguém imaginado e construído em nossa própria projeção ideológica exigente de privilégios. Diante de novas formas, de um mundo sem compaixão, a estranha “linguagem sádica, embebida em ódio mal disfarçado, canibalesca, frequentemente encontrada na internet, palavras correm soltas nas orgias verbais do ódio sem rosto visível, correndo pelas cloacas e esgotos virtuais, onde se vomita em demonstrações incomparáveis de insensibilidade humana. Em especial, nos comentários anônimos ou compartilhamento que expressam ódio e desprezo pelo diferente ou oposto” (Leonidas Donskis).

Ao falarmos da construção de uma nova humanidade, nos habituamos a ouvir os meios de comunicação mais comuns no cotidiano da população, e nos acostumamos aos mais diversos discursos, porém, não temos a mesma facilidade para escutar as pessoas comuns. Miríades de sons e falas diversas transportam mensagens que escondem, na verdade, o desespero e a desorientação nos espaços que sobram para a reflexão. Qual é a distância entre nossas perspectivas e o projeto de Jesus, como se observa no evangelho de hoje? Vivenciar a vida cristã como se estivéssemos constantemente em retiro, no monte, distantes da cidade moderna — a metrópole doente, envolvida pela violência intra-familiar, crime político, crime organizado, intolerância religiosa, homofobia, transporte e vias congestionadas, trabalho indigno, exploração gananciosa –, habitando uma zona de conforto, inclinados a uma experiência intimista, desconectados é também uma fuga da proposta de Jesus. Descer dessas alturas é poder “observar o que Deus está fazendo para tornar o mundo verdadeiramente humano” (Paul Lehmann). 

Podemos ver isso, hoje em dia, quando pessoas são mortas porque procuram organizar despoderados para que lutem e obtenham seu pedaço de chão; ou mortas enquanto procuram impedir um crime ambiental. Do mesmo modo, pessoas sem-teto são exterminadas nas calçadas e nas ruas de nossas cidades, sob a solução cruel de limpeza social ou de esconder-se a miséria… E nem nos comovemos.  Assim, pontuam-se de muitas maneiras as renúncias exigidas do compromisso com a Graça salvadora de nosso senhor Jesus Cristo, que é Deus fiel, libertador e salvador.

Por que nos recusamos a jogar luz nos porões escuros da sociedade, lá onde estão os desesperançados, desgraçados, vítimas de todas as violências, sociais, criminais, — cada vez mais ameaçados e menos amparados pelas leis –, que morrem como moscas em nosso país? Estariam necessitados de gestos concretos que expressam a Graça de Jesus Cristo? É preciso abrir um diálogo sobre a perspectiva ética como única saída da armadilha e das múltiplas ameaças representadas pela perda ou adiamento da imaginação moral que vai-se desfazendo pouco a pouco na sociedade e que vivemos.

Destituir os seres humanos de seus rostos e de sua individualidade, de seus direitos fundamentais quanto à moradia, saúde, escola, universidade e trabalho, não é uma forma do mal menos importante. Não é possível reduzir impunemente a dignidade de alguém, por ser estranho ou diferente – ou procurar ameaças entre aqueles que migraram geograficamente, nordestinos, africanos, coreanos, chineses, bolivianos, como se vê em S.Paulo –, porque são diferentes, e cultivam crenças diferentes; porque trazem suas tradições herdadas através de milênios e séculos.

Esse mal não é sobrepujado pela ação “políticamente correta”, nem por uma “tolerância” burocrática, compulsória, caricatura do real, que esconde o preconceito para manifestá-lo logo adiante, pela boca de políticos conservadores, porta-vozes do autoritarismo  e exclusivismo fundamentalista, enquanto legislam sobre a nação, reforçando preconceitos. Esse é um disfarce cínico. Na melhor das hipóteses, uma ilusão sobre paliativos ingênuos, que não perdem a sua cara autoritária.

Nem grades, nem serpentinas de arame farpado, nem muros, nos salvarão da violência existente, sinais de morte que não respeitam a privacidade ou direitos de ninguém – a mídia se encarrega da tarefa de impor nos acontecimentos diários essa correlação perversa. As falsas seguranças que escondem a realidade não podem salvar alguém… Vivemos uma época em que, mais que de qualquer outra coisa, necessita-se de acuidade e rapidez na compreensão e no sentimento, para ações éticas salvadoras coletivas.

Marcos nos conduziu até aqui para aprendermos a prática de Jesus, a fim de provocar nossa adesão à pessoa de Jesus e ao Evangelho do Reino de Deus, a Boa Notícia (Marcos 8,31-38). Não basta ficar ao lado dele, como espectador descomprometido, admirando seus feitos e suas palavras. A palavra de ordem é“adesão” ao Evangelho, causa essencial da missão de Deus. Agora somos convidados explicitamente a nos empenhar na sua causa. Muitas personagens que encontramos pelo caminho do Evangelho começaram a se “envergonhar” de Jesus, não aceitando o que ele fazia: os fariseus fazem um plano para matá-lo (3,6); os doutores da Lei o consideram possuído pelo demônio (3,22); as pessoas de Gerasa querem que ele vá embora o quanto antes (5,17); seus parentes ficam  escandalizados (6,3); Pedro o repreende, não aceitando o caminho que Jesus vai percorrer (8,32).

E nós, diante das exigências agora colocadas, será que na hora “do vâmo vê” não nos envergonharemos de Jesus? Ele, porém, deixa bem claro: aceitar a participação nos riscos e na luta sem negar Jesus e a sua causa é condição para participar de sua glória: “Se alguém se envergonhar de mim e das minhas palavras diante dessa geração adúltera e pecadora, também o Filho do Homem se envergonhará dele, quando vier na glória do seu Pai com seus santos anjos” (8,38).

Renunciar a si mesmo, portanto, não é uma atitude passiva, mas uma qualidade  espiritual que nos leva ao dinamismo da construção de novas relações dentro das quais não há lugar para atitudes egoístas, ignorando a coletividade oprimida. O seguimento de Jesus se dá dentro da história de uma sociedade preconceituosa, que discrimina sem compaixão, a qual se pauta pela ambição, pela ganância e pela indiferença quanto aos pequenos e fracos.  Jesus vai além, na sua instrução discipular, para deixar bem claro em que implica segui-lo em plena consciência: “Quem quiser salvar a sua vida (privilegiada), vai perdê-la; mas, quem abre mão da sua vida (preconceituosa) por causa de mim e do Evangelho, vai salvá-la” (8,35).

2o. DOMINGO DA QUARESMA – ANO ‘B’
Gênesis 17,1-7 – Cada um levará na carne a marca da pertença a Deus \          Salmo 22,23-31 –  A ti me entreguei desde o meu nascimento \
Romanos 4,13-25 – Acreditar no impossível, manter a esperança \                  Marcos 8,31-38 – Quem perde a sua vida, por causa de mim, vai salvá-la \

 

 

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