RELIGIÃO E DINHEIRO NÃO COMBINAM…
3o. Domingo da Quaresma – Ano “B”

dinheiro É preciso recuperar nossa capacidade de julgar, em tempos sombrios; é preciso devolver a dignidade humana, quanto ao uso do dinheiro. Do mesmo modo, a ideia essencial do mistério humano, sejam quais forem as pessoas. Além da massa popular, o eleitor, o homem da esquina, as celebridades do esporte, os atores amados pelo povo. Conforme a cor da pele, classe social, nacionalidade; grandes homens e mulheres; importantes da elite social e política, magistrados, governantes, mas também a multidão de figurantes, extra-enredo oficial, os indivíduos estatísticos, todos estão envolvidos com esta questão.

Políticos e religiosos comparecem ao palco privilegiado da mídia graças à democracia que lhes permite acesso à massa, e assim têm oportunidades ilimitadas de manipular e interessar a opinião pública a seu favor, ao mesmo tempo. O assunto dinheiro, riqueza e poder, ganha as tvs, revistas e jornais em altas cotações, enquanto, em contraste, as questões de cidadania, e direitos fundamentais da coletividade, despertam pouco interesse, senão indiferença. Os contrastes se estabelecem somente quando assuntos provocam comoção, em assuntos que sensibilizam milionários e pessoas comuns, quando um rico empresário tem alguém da família envolvido num crime ou acidente com alguma personalidade notória.

Ou seja, todos aqueles conceitos ilusórios ou superficiais, construídos por marketeiros, que se apresentam como democratas (na verdade, oportunistas da informação), difundindo a noção de que informam sobre tudo que há para saber, e o que não sabemos eles sabem, sobre as pessoas e suas necessidades. Camuflam a realidade verdadeira do desespero do homem comum em busca de sobrevivência num mundo insensível e sem misericórdia. Finanças e dinheiro comandam a vida moderna. Com Norman O.Braun, seria melhor considerarmos que o homem é o único animal que se oprime a si mesmo.

O dinheiro, portanto, torna-se instrumento de opressão. Financeiras e bancos não permitem que qualquer um de nós sobreviva sem um “credicard” à mão. “Vivemos numa sociedade sitiada pelo dinheiro”, lembra Jurandyr Freire.  Uma dívida bancária pode multiplicar-se infinitamente. Dividendos de uma poupança ficam em 0,65 % ao mês, um cartão de crédito cobra até 14 %, sobre saldos devedores. Juros superpostos elevam a dívida em até absurdos 1.000% ao ano. Seja a instituição governamental ou privada.

O dinheiro nas metrópoles, dizia Georg Simmel, já no início do século 20, com toda ausência de cor e desinteresse, “torna-se o denominador comum de todos os valores; extirpa irreparavelmente a condição essencial das coisas, das individualidades e seus valores específicos, de impossível comparação”: o dinheiro, como função social, na essência, deveria atender às necessidades básicas, moradia, saúde, escola, alimentação e locomoção para o trabalho ou para o lazer. Porém, todas as coisas flutuam num campo de gravidade onde o dinheiro funciona como um ímã convergente, apenas se diferenciando no tamanho da fortuna, quantidade, e área de abrangência da mesma. Lutero, em seu tempo, já identificava o dinheiro como agente do diabo. A fim de aumentar sua renda, dizia, o “capitalista” (agiota) deseja que o mundo inteiro se arruíne e que assim haja fome, sede, miséria e necessidade; dessa forma, todos dependerão dele e serão seus escravos, como se ele fosse Deus.

Porém, a mulher “navegaria por mares diferentes”, pensam alguns. Investigaria melhor seus enigmas, contradições, fracassos, fantasias, energias existenciais, enquanto procuraria um continente não mapeado, que é a razão da existência de seu corpo, sua finalidade, além da procriação e da multiplicação da prole. E, principalmente, o custo emocional de manter-se uma família. Até que ponto isso é verdade ou inverdade?

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Diz-se também que o homem, portador da masculinidade clássica, transita com mais desenvoltura no mundo do poder e do dinheiro; do bom desempenho sexual; na busca e exposição de prestígio e sucesso, social e financeiro. Temos dúvidas, a respeito disso. A economia arcaica, tribalista, que não usava o dinheiro como lucro, nem como meio de remuneração do trabalho, poderia informar-nos melhor sobre os papeis masculinos e femininos através do tempo, enquanto padrões de status e desempenhos sociais de ambos os sexos.

De fato, o que Jesus encontra é o Templo, e a religião, transformados em comércio. A religião de mercado se impõe. Pastores imaginam que são empresas e mercadores, mandam e orientam. Há “banqueiros”, financeiras, comerciantes e compradores desse produto. Não se define mais, separadamente, o que é “crente” ou “cliente”. Sacerdotes cuidariam dos aspectos “legais” da exploração das ofertas compulsórias dos fieis (burlando as leis do país). Hoje, o Ministério Público tem alcançado inúmeros religiosos que fazem das igrejas balcões de negócios. Alguns cumprem pena por crimes fazendários.

Abrigados no centro da opressão e da exploração, o Templo, em nome da religião, dirigentes sabiam muito bem manipular em vista da preservação de seus lucros e privilégios. Jesus fica irado, furiosamente expulsa a todos do Templo. Com isso mostra que chegaram tempos novos, tempo da intervenção de Deus (kayrós) e seu reinado voltado para a justiça ao pobre, tempos em que a religião não pode ser misturada com comércio. As pombas eram compradas para o sacrifício, pobres pagavam muito caro “para ter acesso a Deus” (cf. João 2,17). Ao expulsar todos do Templo, Jesus diz aos que vendiam pombas: “Não transformem a casa de meu Pai num mercado (emporion)”.

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NOTA EXEGÉTICA
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[João 2,13-22] Três semanas antes da Páscoa (greg. pásca/heb. pessah) os arredores do Templo de Jerusalém se tornavam um grande mercado. A organização sacerdotal enriquecia com o aluguel dos espaços para as barracas dos vendedores e cambistas. Os animais criados nos latifúndios eram conduzidos a Jerusalém e vendidos a preços que, nessas ocasiões, aumentavam assustadoramente. Todo religioso maior de idade devia ir a essa festa e pagar os impostos previstos para o Templo (hiero = raiz de hierarquia). O Templo adotara a moeda “tíria” como moeda oficial (cunhada em Tiro, cidade pagã), pois ela não desvalorizava com a inflação que, na época de Jesus, era muito alta. A ironia disso está no fato que a Lei proibia o ingresso no Templo de “moedas pagãs”! Mas os gananciosos dirigentes religiosos burlavam a Lei em vista de seus privilégios. Os cambistas atuavam paralelamente, à vista dos sacerdotes.
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Os dirigentes religiosos reagem com energia diante do que Jesus faz. De fato, de que modo reagem os que, como a nobreza sacerdotal daquele tempo, mancomunada com as elites políticas, vêm se desfazer qual fumaça sua fonte de lucro baseada na religião? Por isso os dirigentes querem saber com que autoridade (sinal?) Jesus está fazendo isso. Quem o autorizaria? Em vez de lhes dar uma resposta direta, Jesus acrescenta uma denúncia velada: “Destruam esse Templo, e em três dias eu o levantarei” (v. 19). Nessa afirmação misteriosa está presente a denúncia de que o dinheiro e poder religioso serão responsáveis pela destruição do corpo de Jesus (morte), mas Jesus irá ressuscitar, destruindo o poder que gera morte.
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As lideranças religiosas, bem como os discípulos de Jesus, entendem esse gesto como uma reforma do sistema religioso. De fato, os discípulos pensam que Jesus tenha feito isso por seu zelo pelo Templo. Isso demonstra que para aderir a Jesus é necessário longo aprendizado, porque ele está em oposição ao Templo. Só depois da ressurreição é que os discípulos tiveram a compreensão exata do fato: Jesus estava falando do seu próprio corpo (21-22). Por isso acreditaram na Escritura e na palavra de Jesus (José Bortolini, Evangelho de João, Paulus, 1994). Em Jesus  a dignidade da própria religião é resgatada. Se ela respeita a humanidade em suas diversidades, cada participante pode compreender-se dentro do projeto de Jesus. Sem explorar o pobre.
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Seu corpo ressuscitado, sua presença na vida humana, é o novo Templo. Corpo que não pode ser comercializado, transformado em dinheiro. Esse templo, novo, ressuscitado, sinaliza as novas estruturas de justiça para todos. Não há lugar para remendos, religiões interesseiras, oportunistas — pois se apoderam das fraquezas populares, como a ganância –, suas superstições e práticas de magia e ilusionismo para impressionar a massa. Suas liturgias, sem envolvimento com os sentimentos da fé verdadeira, corrompidas por interesses políticos e econômicos,  se desmoronam diante do Corpo do Ressuscitado: o novo Templo onde Deus habita; “… pois misericórdia quero, e não sacrifícios que queiram comprar a prosperidade para alguém”.
é o novo Templo
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Derval Dasilio
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3º.Domingo da Quaresma – Ano “B”
Êxodo 20,1-17 – A Palavra está firmada na Aliança
Salmo 19 – Os preceitos do Senhor são retos
1Coríntios 1,18-25 – Só a ignorância desculpa o erro
João 2,13-22 – Fizestes da casa de meu Pai um mercado…
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