imprensaUma pergunta: a não-salvação pode ser entendida aqui como “julgamento” para condenação previamente anunciada, em função da incredulidade? Se ela fecha homens e mulheres para o dom do amor, por isso está condenada? Não crer é um ato positivo de liberdade, subtrair-se da salvação é uma escolha diante da decisão requerida. Chegamos ao ápice dessa perícope (Jo 3,14-21): um momento de crise! No grego, krysis significa julgamento e condenação ao mesmo tempo. Mas também significa distinção e separação: “no princípio, Deus separou a luz das trevas”, polaridade inevitável (Gn 2,4). João está dizendo: Jesus, ao vir ao mundo, à luz (luz = photós, imagem contemporânea…), revela-se atuando com um julgamento de separação quanto aos atos humanos, no claro e no escuro, contrários às intenções do Deus Salvador.

O tema é clássico, também apresentando a polaridade da luz e das trevas, ou a inversão de valores como verdade. O perverso busca a escuridão para esconder suas indignidades, injustiças; para alcançar a impunidade. A escuridão – obscuridade, ausência de transparência? – é também o refúgio de quem comete um delito. Mas, Nicodemos se expõe ao julgamento de suas questões existenciais sem reconsiderar sua realidade humana, nos contrastes de uma sociedade impiedosa e implacável em sua violência contra os desprotegidos jurídica e socialmente. Não quer ser como a maioria, que procura um guru; não quer ser “um dos bonecos manobrados nas mãos dos orientadores políticos e religiosos de seus dias, ao mesmo tempo convertidos em tropa de assalto contra os inovadores, impregnados de esperança profética”, como diria Agnes Heller (cit. Baumann). A luz, lançada por Jesus, é também uma realidade para a fé, que Nicodemos procura, na conversão e amor à verdade; na busca de dignidade humana.

A sociedade, da qual somos parte, é o mundo tomado por males reais, coletivos, tão concretos quanto os males de ordem econômico-social expostos no cotidiano da violência urbana. Mas, camuflados no falso repúdio e vergonha do grupo autoritário insensível à essência imunda e maligna das desigualdades, da miséria; da desumanização, como negação dos bens e dos meios de sobrevivência digna. Reclama e conspira por sua tranquilidade, porque não quer ser incomodada em seu conforto, ou princípios autoritários. Além do exagerado interesse consumista, reclama poder, escolhendo representantes identificados com sua insegurança. O surto de primarismo e vulgaridade, expondo a violência em quantidades imensas de informações negativas, na mídia, suscita a suspeita de que é preciso negar que, de fato, já abraçamos preferencialmente o culto do poder, mal disfarçado.

Lemos os jornais, damos atenção à circulação de informações na internet, mas não nos apercebemos que há uma mensagem de advertência sobre o que não podemos fazer, nem acompanhar, como cristãos, por compromisso com a fé e a paz social. Teólogo de alta importância, Karl Barth sugeria: “se queremos entender a Bíblia, especialmente a carta aos Romanos, é imprescindível ler os jornais”. Porém, no Brasil, não temos escolha, quando algumas famílias controlam as notícias que milhões lerão. As questões públicas, desse modo, são colocadas sob escuridão permanente, servindo-se de políticos com propósitos exibicionistas, em busca de visibilidade a qualquer custo, enquanto expõem assuntos sensacionalistas da política nacional.

Estes, como palhaços num talk-show, valem-se dos favorecimentos e inclinações antidemocráticas da televisão e dos jornais de mais audiência e circulação. Servem a seguimentos populares sedentos de notícias sujas e relatos de violência cotidiana, impregnados de negatividade verbal, autoritários, que não admitem outras ideias senão as suas. Estimulando ações discriminatórias e impeditivas quanto à ascensão social e econômica dos mais pobres ou desfavorecidos economicamente, os mais prejudicados pelo capital concentrado em poucas pessoas e em poucos grupos. As crônicas criminais abundantes, embebidas de violência, escondem realidades mais importantes, fazendo esquecer as agonias da liberdade, proclamando a volta de uma ditadura cruel, recente, que torturava e exterminava dissidentes sem nenhum pudor moral. A paz interna, no cultivo de valores solidários, é constantemente sufocada pela violência explicitada na mídia.

Pode ser que Marshall MacLuhan tenha descoberto que a mensagem é o meio, quem sabe tirando dos formadores de opinião a primazia da informação. Porém, as rotas de acesso predeterminadas pelos detentores da informação, estão envoltas em escuridão, sob instrumentos cinzentos que não deixam entrever as intenções de se assumir e controlar o poder a qualquer custo. “Tendo se apossado dos meios, mantendo-os bem perto de suas intenções, equipando todas as entradas com torres de controle dotadas de guardiões, os jornais e as fontes eletrônicas de notícias conseguem impor escolhas à sua feição, dentro de suas metas obscuras”, poderia dizer Leônidas Donskis, criticando a perversão nos meios de comunicação.

Observar, com leitura atenta, o que se comunica através da imprensa, da tv, da internet, hoje, torna-se importante sobremaneira. É verdade, como uma sociedade o país ocupa um lugar mundial na ponta das setenta nações mais corruptas – a corrupção faz parte do cotidiano, desde o camelô, o guarda de trânsito, aos chefes dos legislativos e executivos, informa a Transparência Internacional. Não há consolo em saber que outras nações, como a Índia, encontram-se em pior situação. Além de protestar de modo abstrato, exigindo o combate da corrupção, por que não se pergunta sobre as grandes desigualdades, e a impiedade para com a pobreza, aqui? Por que não nos perturbamos e procuramos compreender as Escrituras, tão relevantes quando apresentam a luta de Deus por convencer-nos sobre a nossa própria desumanização, insensibilidade e inconsciência?

Uma sociedade que se diverte vendo ou lendo histórias de assassinatos pode até chorar sobre os corpos dos inocentes, mas se alegra com a luta entre a polícia e traficantes nas favelas do Rio, frequentemente executando representantes de ambos os lados. Não pode é estranhar tais acontecimentos, pelos quais realiza sua catarse. Alguém pode questionar, mas, os suicidas árabes, homens e mulheres bombas, é pior ou melhor? O fato é que não se trata da morte banalizada, mas da morte discutível, porque há razões atávicas envolvendo-a.

O que podemos fazer, se as questões superficiais escondem a necessidade de proteção dos mais fragilizados, enquanto sonegam informações sobre as raízes das misérias sociais; enquanto se omitem direitos básicos de toda a população, de toda a sociedade, embora em suas desigualdades e rachaduras internas; enquanto as urgências são relegadas, quanto à proteção e cuidado com a família, a criança, a mulher, violentadas sistematicamente no cotidiano angustiante e aterrorizador de nossos dias. A dignidade da pessoa humana, na sociedade impiedosa desse tempo, deverá ser reconhecida à plena luz, e retirada da escuridão.

E começaremos pela questão da água limpa, da preservação dos mananciais alimentadores dos reservatórios urbanos; direito de comer o alimento nutritivo e não contaminado, não manipulados pela agro-indústria ou agro-negócio de transgênicos (porém, saibamos que 70% da alimentação urbana ainda provém da agricultura familiar, que a indústria alimentar quer fazer desaparecer); direito à moradia e transporte adequados com conforto mínimo para os trabalhadores que fazem funcionar a máquina urbana; direito à manifestação política em favor da cidadania igualitária; direito à educação e à opção religiosa sem distinção de credo.

Nicodemos, como tais pessoas, na calada da noite, interessado pela fé no Evangelho de Jesus, não escapa às intenções simplesmente reformistas. Quer provas, sinais externos de conversão, para uma compreensão terrena da gratuidade divina, à luz da razão. A fé desse homem instruído passa pelo crivo da razão instrumental, que é a obediência dogmática do regulamento religioso, o qual valoriza o testemunho superficial momentâneo.

A resposta que recebe, no entanto, refere-se ao mistério da Graça; da iniciativa de Deus na direção do homem e da mulher, no rumo dos oprimidos individual ou estruturalmente, na sociedade humana, identificados pelos sistemas de pensar, e nas atitudes cotidianas, onde a ética da misericórdia, da compaixão e da solidariedade não predominam. Plenitude na ética é também um tema da teologia de Paulo, também, assim como a “largura”, a “extensão”, a “altura” e a “profundidade”: … “nada poderá nos separar do amor de Deus” (Rm 8,38-39).

Derval Dasilio

4o.DOMINGO DA QUARESMA – ANO “B”

Números 21,4-9 – A serpente livra da morte repentina…
Salmo 107, 1-3; 17-22 – Comunhão do Oriente ao Ocidente
Efésios 2,1-10 – A graça exige uma resposta de fé
João 3,14-21 – Na crise, um novo nascimento

NOTAS EXEGÉTICAS:
Jesus já respondera a Nicodemos [João 3,14-21] sobre os significados do seio materno, águas primordiais, ambiente de onde nascem todas as coisas (Gn 1,2: “a terra era sem forma e vazia, e o Espírito pairava sobre a face das águas…”). Segundo a tradição, a água é o elemento feminino da Criação. O Espírito, em hebraico, também é uma palavra feminina (rouah), porém usada como se fosse o elemento masculino da fecundação, Pai e Mãe, ao mesmo tempo. Em grego (pneuma), o sentido é o mesmo: um vento, alento, sopro criador. A objeção: “como pode um homem velho nascer de novo?”, já havia sido respondida, à feição da tradição hebraica. Aquele que nasce vê a luz de um novo dia (Sl 49,20; Jó 3,16); o novo nascimento permite visões luminosas nas noites iluminadas por utopias libertadoras. O Reino de Deus é o raiar de um novo dia, depois da noite escura e tenebrosa, no cosmos inteiro.
Sentença após sentença, João encadeia os temas da fé na salvação, tudo retirado do cotidiano, das coisas terrenas, cenários obrigatórios para identificar-se a intervenção de Deus: semente (spermatos), água (‘udatos), são palavras-chaves para se compreender a eternidade e a geração do novo, da novidade de vida. Tudo por obra do Espírito. Coisas terrenas têm conteúdos de salvação. Coisas celestes indicam o itinerário do Filho de Deus que desceu para, no ventre da humanidade, gerado como filho da humanidade, homem comum, dar testemunho da Salvação.

Cabe, aqui, uma observação: o primeiro passo para a salvação foi a passagem da morte (pecado) para a vida (graça). Ao cristão é dado participar da esperança da ressurreição (de todos e de tudo), de renovo, renascimento, agora. As tarefas que lhes cabe (obras) não são obrigatórias, mas devem ser executadas com espontaneidade, como consequência da salvação a todos destinada. Para a fé cristã, a morte não tem a última palavra, é preciso viver em plenitude (plerós) a dádiva da vida. O Deus gracioso deve ser lembrado em sua riqueza, tal como no Primeiro Testamento, especialmente nos Salmos: rab hesed (rico em misericórdia); rab rahum (…em amor); rab ranum (…em favor); rab tub (…em bondade).

Em torno da gratuidade podemos formar uma unidade solidária para a aproximação da paz; buscando sempre a reconciliação, cidadania responsável, comum na família e na comunidade. Assim, exercitamos uma resposta à salvação gratuita da parte de Deus. A graça de Deus não necessita de retribuição, também não se vende no mercado religioso. Porém, a graça exige resposta ao “sim” de Deus para socorrer-nos em sua infinita misericórdia. Daremos boas-vindas à iniciativa de salvação que vêm de Deus?

Efésios 2,1-10 – Esta teria sido uma carta escrita muitas anos depois da morte de Paulo. Sua teologia, ao que tudo indica, foi preservada? Não em tudo. Há uma mudança na escatologia, agora interpretando um tempo futuro, uma escatologia adiada, porque os crentes “estão salvos”por graça de Deus. A eclesiologia toma forma diferente. As igrejas locais, domésticas, comunitárias, começam a ser substituídas, o vocabulário denuncia a existência incipiente de “templos” cristãos; a igreja sociológica não merece tanta atenção como a “igreja universal”.

A polêmica legalista entre os judaizantes e helênicos gentílicos parece também superada. A parousia está distante. Por isso é preciso “organizar a esperança”. Uma abordagem especial sobre a conduta dos cristãos é tomada do imaginário religioso infestado de demônios, poderes espirituais malignos, desejos impuros, perversos, envoltos em escuridão, como sinais de “morte” na vida da comunidade, os quais estão sujeitos à ira divina, ou condenação (Ez 18,13-20; 33,8-10; Rm 1,18). A “salvação” é “relativizada”, a graça exige uma resposta de fé: “ética”. Enquanto observamos o que Deus está fazendo no mundo para tornar a vida mais humana.

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