Salmo 118,1-2; 19-29 – “Entrarei pelas portas da justiça, esta é a porta do Senhor”.

domingo de ramos [22]Você apoia ou se interessa por concentrações de multidões, sem perguntar se ali está acontecendo uma festa ou uma suposta manifestação contra alguma coisa que acontece na política nacional? Que significados têm o discurso da Paz, segundo o evangelho de Jesus, frente à multidão de homens e mulheres que vêm ao encontro de um “rei” sem qualquer poder político? Assemelha-se, a multidão que saúda Jesus no Domingo de Ramos, às que comparecem a manifestações autoritárias das classes ricas, intentando derrubar governos democráticos? Tem contato com políticos derrotados que repentinamente clamam pela ditadura, apoiando a tirania; anunciando que vão sangrar algum governante até que ele caia? Lemos os jornais, atos de crueldade que costuram a história sangrenta vivida por muitos povos agregam destruição sistemática de bens culturais, o coração e a alma dos povos e das etnias.

O que significa a Paz, no âmbito do reinado de Deus? Enquanto se espera por dignidade da pessoa humana, nos setores mais corriqueiros da vida: necessita-se de justiça, pão para quem tem fome; morada para quem não têm teto; educação para quem não têm escola; saúde para quem não têm médicos e hospitais, saneamento urbano, água potável para todos (!); trabalho para quem não consegue alcançar os postos cada vez mais escassos na sociedade industrializada. Podemos imaginar que não há mais espaço social para os párias da cidade que se diz moderna. Qual é o lugar dos inadaptados, banidos, marginalizados, restos humanos produzidos pela febre consumista do momento?

Uma desigualdade imensa, no país, na distribuição de direitos ainda negados a negros, mulheres, adolescentes, crianças – sempre ameaçados, também, pela violência intra-familiar –, sob ambiguidades, escondem as diferenças econômico-sociais, sob tantos artifícios, relações pessoais, de gênero e raça. Sob um verniz de acomodação cúmplice, íntimo, que obscurece quaisquer observações, enquanto mantemos desigualdades fundamentais. Num vocabulário pleno de sedução linguística, celebramos a cultura brasileira produzida através de artifícios variados: jeitinho brasileiro, malícia, malandragem, ginga, capoeira, jogo de cintura, mineirice. Completados pela universalização de escolas de samba, clubes de futebol, Carnaval, festas da Páscoa e do Natal. Nesse sentido, sobram virtudes para o Sul, defeitos para o Nordeste, como já sugeriu um ex-presidente da República, falando de ignorância localizada (segundo opinião do referido político).

Os cristãos estarão, neste domingo de Ramos, caminhando ao lado de Jesus? As implicações dessa caminhada envolvem o compromisso de levar a sério nossa adesão à causa do reinado de Deus. Acompanhar Jesus em sua última jornada no caminho da cruz, enquanto Ele entra na cidade (Jerusalém, mas poderia ser S.Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador, Recife…), aclamado como o rei que traz o “shalom” de Deus em todos os idiomas (eirene, paix, frieden, fred, axé, shalom, salamu). Tal busca da paz implica em levar a sério as realidades que corroem o mundo e clamam pela pacificação das sociedades e dos homens.

Ninguém mais duvida de que as causas geradoras dos grandes e dos menores conflitos sociais, nacionais e internacionais, são encontradas nas desigualdades econômicas, na falta de oportunidade, na pobreza, nas políticas internacionais e domésticas envolvidas com questões que passam pela fome de 2 bilhões de habitantes do planeta. Questões que identificam os abismos das desigualdades nos 5 bilhões à margem do mundo moderno e suas conquistas quanto à educação, saúde, habitação e locomoção. Mundo também chamado de pós-industrial, pós-moderno, enquanto 2/3 da população mundial desconhecem a própria modernidade, como dizia Henrique Dussel.

Na verdade, aqui, o regime da cidadania privilegiada, ou diferenciada – ou de pretendentes a tanto –, é reclamado nas manifestações das classes ricas, nos panelaços dos bairros onde estão os m2 mais caros do Continente, através da “anarquia fascista organizada contra a democracia popular”. Esse regime sempre acomodou altos níveis de violência pública e privada. Impunidade, descrédito judicial, abuso policial, corrupção, transgressões, justiça e segurança privatizadas. Comparece ao cenário irretocado a violência estrutural da subnutrição, a saúde pública abismal, as reduções das oportunidades no trabalho, a violência policial e a repressão sistêmica. A partir dessa forma de cidadania (privilegiada, diferenciada, discriminatória), nunca foram postas em dúvida as desigualdades.

Washington Luís, governador do Estado de São Paulo, depois presidente da República, confirmou tal coisa durante sua campanha em 1920, numa frase: “A questão social é um caso de polícia”, lembrou James Holston. As características brutais da sociedade brasileira verdadeira, discriminatória, têm sido disfarçadas há séculos por um arsenal de ideologias bem conhecidas, de inclusão que as elites brasileiras têm usado para criar seus projetos nacionais. A “nacionalização” da mistura racial – negros, orientais, asiáticos, europeus portugueses e italianos –, o populismo baseado no trabalho urbano, a modernização industrial patrocinada conforme a concentração de renda, no entretanto, levanta o clamor das massas oprimidas contra as desigualdades. No Brasil.

Jesus faz um discurso decisivo em torno de sua proposta: um Reino da justiça. A palavra “shalom” é o eixo desse pronunciamento. Quais são os sentidos da Paz, segundo Jesus? Trata-se de uma nova visão da vida, através da solidariedade. Um mundo novo estará amanhecendo. Gandhi, Nelson Mandela, Luther King Jr., monsenhor Romero, Jaime Wright, Chico Mendes, Irmã Dorothy, mártires da Paz e da Fé, entenderam esse sentido: perdão e reconciliação entre povos e nações; libertação do poder de todos os pecados, inclusive dos pecados estruturais do nosso tempo. Mesmo os que não têm a mesma tradição religiosa falam de reconciliação; da nova vida no serviço da justiça de Deus; de direito de herdar e gozar bem-estar num mundo transformado pela misericórdia. Um mundo sob o empenho apaixonado da causa de Deus. “Hosanas! Bendito aquele que traz a Paz em nome do Senhor”.

Domingo de Ramos – Ano B 

Salmo 118,1-2;(…) 18-19 –Entrarei pelas portas da justiça, e louvarei o Senhor
Mateus 26,14-27 e 57-66 – Paixão de nosso Senhor Jesus Cristo

Derval Dasilio

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