TOMÉ E AS SURPRESAS DA RESSURREIÇÃO

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Por que Tomé duvidou? Alguém poderia sugerir que o sofrimento econômico das massas populares é um tema de esquerdas rançosas, no qual a surpresa não existe, pela insistência temática que não muda. Aqui surge o destaque de um dos mais importantes temas de Heidegger, que também disse que a filosofia nada mais tinha a dizer, num contexto autoritário, ideologicamente nazista. Podemos transcender a morte, afirma, o que significa dizer que o homem está capacitado a atribuir um sentido novo ao ser-em-si-mesmo, conforme as crises civilizatórias que a humanidade enfrenta.

A ansiedade então seria o medo do desconhecido. Porém, esta explicação é insuficiente. Pois há reinos inumeráveis de “desconhecidos”, diferentes para cada assunto, e encarados sem nenhuma ansiedade. Medo é estar assustado com algo, uma dor, a rejeição de uma pessoa ou de um grupo, a perda de alguma coisa ou de alguém; medo do momento de morrer, desaparecer antes que o sol nasça outra vez. Mas na antecipação da ameaça que se origina destas coisas, o que está assustando não é a negatividade em si que eles trarão para o sujeito, porém a ansiedade sobre as implicações possíveis desta ansiedade, esclareceu Paul Tillich.

Há medo na comunidade de discípulos (João 20,19-31). Temem mais represálias na sociedade a que pertencem. As manifestações no Domingo de Ramos resultaram em represália, na sexta-feira, quando a multidão insuflada pelos controladores políticos conservadores da nação levam o inocente ao martírio. A notícia do sepulcro vazio não era bastante… A “ausência” de Jesus, diante das hostilidades aguardadas, atemorizava os discípulos. A causa do reinado de Deus corria o risco do fracasso. Mas, o efeito do encontro com Jesus é a alegria, finalmente. A festa da Páscoa, é a festa de todas as ressurreições possíveis (Páscoa é pessah=passagem). O “exterminador” (mashit), anjo da punição, passará ao largo, a alegria já começou; a festa da vida, da nova criação, do novo ser humano, teve início. Recomeçou a festa de libertação, festa da vida, (E.Reinhardt/J.C.Gottinari). Este Cristo que se dá oferece também o exemplo de sua vida ressurreta.

Analisados o lado humano e o lado divino dos sofrimentos de Cristo, chegamos ao ponto: é hora de perguntar sobre os significados salvíficos, e de nos esforçarmos por desvendar as forças libertadoras, redentoras e criadoras,  contidas na ressurreição, e nos sofrimentos pela causa de Deus. Comportam-se situações concretas, identificáveis imediatamente no cotidiano, contestando a ordem e a segurança públicas, reagindo às opressões? 

Pode-se perguntar sobre os grandes problemas da política, hoje, onde prolifera o conceito protetor de grandes corporações; onde a concentração de riqueza em poucos indivíduos, super-ricos, protagoniza processos sinistros, descomedidos, para garantirem que as fortunas ganhas no País, possam ser gastas ou depositadas no exterior isentas de impostos, de forma totalmente independente das legislações governamentais, e interesses sociais das maiorias. Enquanto outra parte da sociedade se organiza para defender poderosos, e aos seus interesses (Z.Baumann). O escândalo do HSBC, agora investigado, comprova exatamente isso.

Jamais o estilo “máfia” foi tão aplaudido. Ou tão influente, bem armado, protegido pelos governos estaduais e pelos políticos. Estes, constituindo as novas elites de poder, despejando temores e ansiedades quanto à violência criminosa, preferem dirigir a animosidade, o medo e a raiva da população contra crimes menores (redução da menoridade penal, por exemplo). Apontando forças criminosas – certamente existentes –, exemplares; procurando inimigos públicos número 1 nos adolescentes infratores; nos assaltantes que roubam mulheres e turistas nas praias, gatunos do cotidiano das metrópoles, confirma-se o que pretendem essas elites.

Contudo, nunca indicam os beneficiados e protegidos pelo Estado, representado pelo Congresso – que toma as mais importantes decisões para favorecimento dos ricos, via de regra; sempre buscando e encontrando aprovação da sociedade autoritária e seletiva, a qual abomina a participação dos mais pobres nos bens  econômicos e sociais; insurgindo-se contra governos que concentrem sua atenção sobre os últimos. Últimos em todos os sentidos.

Nem mesmo a tolerância compulsória, sob legislações eticamente avançadas, permite a tranquilidade que esperaríamos, já que a injustiça e a degradação nas relações entre grupos de pessoas pertencentes a setores mais pobres ou mais abastados – sob novos sistemas de segregação e criação de novas castas – absolve os culpados. Apartheid e hierarquias permanecem nas sombras, ocultas, porém inegavelmente existentes. Embora justificados pelas diversidades, ou “singularidades” observadas no todo nacional. Por mais cínico que seja o argumento discriminador, ou disfarces de representantes intelectualizados, é preciso muita imaginação política para fazer prevalecer a ética protetora da vida, sobre o autoritarismo e a ganância dos setores privados.

Os sofrimentos de Cristo mostram-nos Deus humano e solidário, surpreendendo a fidelidade religiosa tradicional: é Deus que está conosco! Caminha e sofre conosco, dedicando-se aos últimos da escala social. Solidariedade, vicariedade, renascimento, são dimensões divinas que se devem observar, aqui, como parte da “ressurreição” para todos. Pecados estruturais, assim, são grandes desafios para as comunidades e sociedades. Hoje e sempre. As consequências dos pecados da sociedade, apoiando ou impondo a opressão, mancomunando-se com poderes rebeldes, na economia, na política e na religião sem humanização, unidas contra o desprotegido jurídica e socialmente, e os direitos fundamentais da pessoa humana, mostram-nos as razões do sofrimento do Cristo para com os oprimidos, sem dignidade e paz. 

A vida é sagrada, propriedade exclusiva de Deus! (R.Bultmann). As pulsões da violência contra os fracos e da morte não pertencem ao âmbito das decisões livres. Aí esbarramos com o realismo religioso, que almeja a conversão abstrata, ou secularista, de pessoas e de sociedades autoritárias, classes seletistas e exclusivistas, como a “salvação em si mesma”.  Nesse setor, as pessoas desejam ser felizes não amanhã, mas hoje, agora, e talvez desde ontem. Para estas, algumas vezes, a saída da religião pela materialidade da vida exige-se, para satisfazê-las, uma religião e um “deus ex machina” disponíveis para atender seus desejos.

Pastores secularizados se sentem obrigados a manter um cardápio “a la carte” para tornar suportável a vida do crente secularizado no mundo moderno. Nesse momento, contendo soluções prontas para os problemas do cotidiano, nada mais confortante que o consumo do luxo, sem esquecer a saúde, ou as clínicas estéticas a alto preço. A morte, no entanto, é um fenômeno mundano e espiritual ao mesmo tempo. Cristo superou a morte. Em todos os sentido. Portanto, existe a esperança de ressurreição, na comunidade de discípulos do Ressuscitado. Aleluia, “ele está no meio de nós”. 

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Derval Dasilio 

 2º  DOMINGO DA PÁSCOA  – ANO “B”
Atos 4,32-35 – Com grande ênfase testemunhavam a ressurreição
Salmo 133 – Como é gostoso que os irmãos vivam em união!
1João 1; 1-2; 2,1-6  – Ele perdoa os pecados do mundo
João 20,19-31 – Tomé: ! “Eu creio, Senhor e Deus meu!”

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