Lucas 24,36b-48 – O ressurreto está no meio de nós!

“CRISTO ESTÁ NO MEIO DE NÓS?”

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Ao lado dos mitos, o povo guarda a sua antiga sabedoria prática, adquirida pela experiência imemorial de incontáveis gerações e que se compõe de conhecimentos e conselhos profissionais, e de normas morais, concentradas em fórmulas breves, de modo a permitir conservá-los na memória. Porém, ao perguntar, uma forma se apresenta ao ler um argumento maior: a derrocada das polaridades entre a seriedade e a sobriedade dos discursos autoritários, nos partidos políticos.

Iguais ao entretenimento massificado das “marchas do orgulho gay”, ou “marchas-com-jesus”, por causa de nada e de ninguém, chamam “para a rua” com logística excessiva nos pretendidos espetáculos das ruas (propaganda paga na tv e jornais suspeitos). Mas não há em suas manifestações indígenas, negros e habitantes das periferias, reivindicando medidas contra tratamentos desiguais na distribuição dos bens sociais. Se estivessem nas ruas, se insurgiriam, provavelmente, contra outras demandas, diferentes daquelas das classes ricas e candidatos a tanto. A cidadania insurgente brota das pessoas desfavorecidas, e não das privilegiadas.

As tramas da história exigem uma sensibilidade quase acima da memória. Líamos, em passado recente, “1984” de George Orwell, “A 25ª. Hora”, de G. Georgiou, e “Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley, retratando um mundo sem memória, privado de arquivos públicos, de história e de humanidades em geral. A memória, então, torna-se uma ferramenta dos pequenos ou fracos – biblicamente: [greg.] ptochos e [hebr.] anawin –, enquanto o esquecimento serve aos interesses dos grandes e poderosos.

A memória dos poderosos nada mais é que uma celebração da prática bem-sucedida, sob o conceito de “verità effetuale”, ou “o fim justifica os meios”, de Maquiavel. A brutalidade do poder político desempenhado pelos poderosos que controlam economicamente a nação, é notória. Corrompem políticos enquanto corrompem-se a si mesmos. Seres humanos são entregues à fome, às doenças, ao abandono social, sem moradia e sem assistência; à marginalização econômica. Porque a memória subverte e remete à insurgência.

Sem possibilidades de ressurreição, de transformações, entregues às várias mortes sociais, como vivem esses seres humanos? Sem esperança? Cristãos apontam o saneamento moral e a salvação abstrata. Há o cultivo de privilégios, racistas, classistas, funcionalistas. “Políticos brasileiros são traidores do povo pobre”, disse L.Boff, referindo-se à recrudescência do autoritarismo fascista. Há uma domesticação da mídia para o “protesto” sem sentido e o desperdício de slogans copiados de regimes políticos endurecidos, mas há também a religião de mercado que vende “graça barata”, e bem-aventuranças nas bancas de camelôs oferecidas em cada esquina. Se há impotência no povo, cristãos modernos insistem na espiritualização da miséria, no medo de realidades sobrenaturais, distantes do mundo concreto dos homens e das mulheres. Essa convicção é o alicerce da tradição religiosa.

No NT, discípulos estavam certos de ser testemunhas da irrupção do novo “éon” (tempo cósmico = um tempo que não é “tempo”; que na verdade é a eternidade, na compreensão bíblica): “os mortos ressuscitam”. Uma reviravolta está acontecendo no “kosmos”. Tudo acontecia em ligação com muitas ressurreições. No caminho dos homens e das mulheres, contudo, outras possibilidades despontam, e se destacam, porque são testemunhas do Senhor Ressurreto, aquele que também oferece a possibilidade de testemunharem-se as ressurreições possíveis, no universo inteiro. A restauração da vida no mundo, por intervenção de Deus, é sinal de que Deus não desistiu de recuperar o Homem e a Criação. “Ele está no meio de nós” (Lucas 24,36b-48).

Em primeiro lugar, devemos mencionar a experiência da efusiva alegria com a justiça de Deus. Quando experimentam o espírito da ressurreição, homens e mulheres respiram de alívio, passando a viver de cabeça erguida e andar ereto, e são tomados por uma indescritível alegria, tal como é expressa em muitos cânticos da Páscoa, disse Jürgen Moltman. A regeneração da vida que renasce da violência e da culpa, das faltas e ofensas, dos equívocos e escolhas errada, e enfim das sombras da morte, é uma imensa afirmação de vida. Se, seguindo o uso bíblico, substituímos “nous”(greg.), espírito intectual, pela “ruah” (hebr.), a “força vital de Deus”, energia que torna evidente quais as experiências pessoais estão ligadas à força na vida humana. Quando o Espírito de Deus está presente.

A razão diz que o homem está só no universo, pode apenas contar consigo mesmo. A fé, de outro modo, dirá que há um Tu, um Deus solidário e dialogante, que perpassa nossa existência, constantemente no meio de nós. Nunca abandona os que o buscam. Não estamos sós na imensidão do tempo. Devemos confiar na ação voluntária de Deus contra o caos. No portal da eternidade, também está escrito um nome: Deus. Energia presente no universo inteiro, muito além e muito acima das realidades sujeitas às ilusões do conhecimento empírico. Certamente, como testemunho do que Deus está fazendo para tornar humanas as mais importantes virtudes para a defesa da vida, e os mais vigorosos valores da ética de Jesus, na memória do Ressuscitado.

Derval Dasilio

3º. DOMINGO DA PÁSCOA – ANO “B”
Atos 3,10-19 – Arrependei-vos, e sejam cancelados os vossos pecados
Salmo 4 – O Senhor distingue o piedoso do justo
Lucas 24,36b-48 – O ressurreto está no meio de nós!

 

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