bom pastor(hoje)

Tal e qual o profeta Ezequiel, João, o evangelista, trata dos indivíduos, de estruturas de governo, e dos dirigentes dos rebanhos de Deus. O texto de Ezequiel é praticamente parafraseado por João, em alguns pontos. Deve-se ler também Jeremias, capítulo 21. Os esquemas mostram os pontos nevrálgicos da questão: o pastoreio infiel polarizado com o pastorado do “Bom Pastor”, articulados na admoestação joanina. Há um julgamento para situações entre “pastores” e “rebanho”. Os exploradores e as vítimas estão sob observação. Mesmo na condução do rebanho, caracterizadas na permissividade e no desarvoramento do rebanho desenca-minhado, há esperança de reação e salvação.

Parece-me oportuno trazer à realidade, sobre o pastoreio religioso no Brasil, da herança dos tempos da escravidão colonial. O poder ideológico impôs a substância da vida comum, o cotidiano das relações entre homens e mulheres, sob hierarquias definidas para atender a grupos de condutores do povo: os potentados econômicos privados e o Estado imperial, sob apoio religioso. Cada um exercendo o seu poder ao mesmo tempo (Fábio K. Comparato). Unidos, impõem à sociedade os papeis dos grupos sociais, e de cada membro do rebanho social, onde a escravidão legal estabelecia a finalidade espúria do trabalho sustentador da própria sociedade. Enquanto a religião enviava para o limbo as questões sociais que envolviam seus fieis, na condição de “quarto poder” constitucional.

Nossa mentalidade coletiva, o imaginário cristão brasileiro, estabelecia suas preferências, fato que consolidou um comportamento moldado na submissão aos condutores desse rebanho social e religioso. Estes condutores, então considerados como legítimos senhores de escravos, acima da lei e de todos os controles morais possíveis, conduziam o povo sob interesses exclusivamente senhoriais, quanto à moral, economia e produção de bens, destinadas aos que habitam no topo da pirâmide. O casamento monogâmico, para exemplificar, era flexibilizado com a admissão comum do concubinato interracial. Acostumamo-nos, assim, à irresponsabilidade para com os despoderados, fracos, doentes, desempregados, miseráveis, famintos, mulheres negras e bastardos desprotegidos das seguranças sociais. Coisa tolerável por um conceito de fatalidade e aceitação de males tidos como irreversíveis.

Enquanto pobres, ao longo do passado escravocrata, diz Fábio Comparato, não pretendendo exercer poder algum, recebem e aceitam de modo submisso a permanente imposição e “proteção” de hierarquias econômicas, racistas, na sociedade a que pertencem. Jamais tiveram direitos considerados, quanto à habitação, saúde pública, escola, alimentação e trabalho qualificado. Questões raciais, de oportunidades no trabalho e educação, desigualdades nos direitos de todos, permanecem como abstração filosófica impraticável nos degraus mais baixos da escada social. Porque contrariariam privilégios e interesses históricos. Programas políticos nesse sentido são combatidos e condenados, por osmose, na sociedade – e, por tradição residual, escravocrata –, até os dias de hoje.

Não podemos pronunciar a palavra “pastor” sem que a memória histórica, ou o imaginário coletivo, nos obrigue a evocar os rostos patriarcais de Abraão, Isaac e Jacó, primeiros pais da nossa fé cristã. Precisamos de condutores que nos transportem em segurança pelos caminhos do tempo e da vida. A imagem idealizada do pastor, bíblica, evoca a vida no deserto, nômade, substituída pela proximidade dos grupamentos pastoris, acampamentos ou vilas com população sedentária.

O Evangelho deste domingo, segundo João, aponta o que Jesus significa para as suas ovelhas: pastor modelo (ego eimi poieme ‘o kalós), uma imagem compacta de segurança diante de uma realidade concreta no enfrentamento do cotidiano. Não se trata de uma abstração, ou mera representação poética. Estamos diante de fatos concretos. Sobretudo quando o evangelista lembra: “Ele é o pastor a caráter, agente do bem, capaz de dar a vida por suas ovelhas”.

As evocações da tradição bíblica, quando compreendemos o que significa a frase “dar a vida por…”, não nos permitem pensar no suicídio de uma liderança que se coloca como vítima exemplar, heróica, enquanto o rebanho é devorado pelos lobos. Mas, se exigirá sacrifícios e enfrentamentos dolorosos, necessários às vezes, com exigência de se correr risco de vida lutando contra feras que ameaçam o rebanho, para defendê-lo e protegê-lo. Clarear a imagem de Jesus é uma exigência para os discípulos de todos os tempos, para o rebanho de Deus e cada pastor, hoje.

Certamente, no contexto atual, há tantas e tantas imagens de Jesus que não se exclui o risco de confundi-lo com um fantasma, ou com uma imagem neutra, distante da realidade humana. Aprecia-se consideravelmente a figura piedosa, sofrida, mas sem eficácia espiritual, como Cristo de Deus. Mas os discípulos tinham em suas mentes o rosto, a identidade do Cristo com quem haviam compartilhado sua luta.

É verdade que os discípulos tinham expectativas sobre ele e por isso sentem que têm de segui-lo, inclusive. Instruídos, contudo, sob configurações completamente confusas, como nas imagens que sustentam a ganância na macro e microeconomia, nas relações do trabalho e nos direitos sociais. O desafio de hoje é clarificar a imagem de Jesus como o Pastor fiel, que não abandona suas ovelhas. Mesmo as desorientadas pelos lobos disfarçados de pastores. As feras estão soltas, têm “propósito”, são gananciosas, insaciáveis, não se importam de ter-sem-ser.

Jesus “dá vida às suas ovelhas”. Não se trata de submissão, heroísmo pessoal, aqui, mas de condições de sobrevivência. As referências à denúncia dos lobos vorazes, politiqueiros, interesseiros, manipuladores da religião e da sociedade, equivalem às que se fazem dos descuidados, desinteressados, omissos, como aponta Ezequiel: “Ai dos pastores de Israel que se apascentam a si mesmos! (…) À ovelha fraca não fortalecestes, à doente não curastes as feridas, não buscastes as desgarradas, não procurastes as perdidas e oprimistes as que resistiam ao teu comando” (cf. Ez 34,2-4, TEB, BJ; BP; BLH – comparadas).

A última palavra sobre o Bom Pastor pertence ao crucificado e ressuscitado. A morte de Jesus representa para o crente o sacrifício expiatório suficiente para o perdão e a libertação da culpa imposta através do tempo histórico. É hora das ovelhas erguerem-se das sepulturas para elas abertas na história social do mundo inteiro. Não existem mais ressentimentos nem vingança, apenas o convite ao arrependimento para se receber a plenitude do amor e da misericórdia do Pai, que se realiza em confiança e segurança, para um mundo novo possível, enquanto se recupera a filiação perdida na desobediência (Atos 4,5-12). A Páscoa é também um tempo de Salvação.

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Derval Dasilio


Salmo 23 – O meu pastor nada deixa faltar.
1João 3,16-24 – Aprender com o amor de Deus.
João 10,11-18 – O Bom Pastor ‘dá vida’ às suas ovelhas.

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