DE AUSCHWITZ AO MASSACRE NO PAVILHÕES DO CORiNTHIANS 
perdão (3)
 5º. DOMINGO DA PÁSCOA – ANO “B”
Atos 8,26-40-Como crer, se não me são claras as coisas da fé?
Salmo 22,25-31–Que sejam um, para que o mundo creia cf.Jo 17,21.
João 15,1-8 – Eu sou a videira verdadeira, permanecei em mim.
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Quando falamos de justiça, lembramos obrigatoriamente de assuntos como “limpeza étnica”, “limpeza social”, “limpeza ideológica”, e outras formas destinadas a dar alguma satisfação à sociedade dominante. O mais comum é a prática, para esse fim, sob licenças provisórias, circunstanciais, sem os cuidados da justiça como conceito ético. Temos medo da violência inimputável? Se não temos, por que estaria ela diluída no alerta permanente sobre os perigos que teremos de enfrentar na próxima esquina, ou no próximo sinal, indivíduos armados assaltando e matando por insignificâncias; perigos derramados desde massacres de crianças em escolas; massacres em templos religiosos, atentados terroristas nas ruas das cidades onde ocorrem maratonas internacionais, ao lado do medo de mendigos agressivos, de torcedores de futebol executando rivais, de delinquentes sexuais à solta, e de gangues em arrastões nas praias mais famosas do país?
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Uma mulher, mãe de família – na sua bolsa foram encontrados um catecismo e outros objetos religiosos –, foi linchada por 100 justiceiros, apontada como “a bruxa que assassinava crianças em rituais satânicos”, no Guarujá, litoral paulista. Na famigerada operação Lava-Jato, as principais empreiteiras do país podem requerer falência, acobertada pela Constituição, se a justiça assim determinar como penalidade à corrupção de alguns dos seus funcionários – distribuindo propinas milionárias a dirigentes da Petrobras –, e 500 mil postos de trabalho estarão comprometidos com o desemprego. E com esses, cerca de 100 mil famílias, que temem por seu futuro.
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O que é a justiça, do ponto de vista humanístico? No julgamento de Eichmann, carrasco nazista sequestrado e levado para Israel, fazendo a cobertura por um grande jornal, o New Yorker, Hannah Arendt, das mais importantes filósofas do século 20, observava: “o verdadeiro desafio do processo é: como julgar um indivíduo normal, uma pessoa média, que cometeu todos esses crimes, contribuindo no assassinato de milhões de judeus, ciganos, homossexuais, mas que não tem consciência da natureza criminosa de seus atos”? Eichmann era um homem normal, na medida em que foi apenas um entre milhares de outros a participar da “limpeza racial” que ocorreu sob domínios ideológicos nazistas.
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Os pastores Dietrich Bonhoeffer e Martin Niemöeler, combatendo a segregação de cristãos de origem judaica, criaram em 1933 a Pfarrernotbund (“Liga Pastoral de Emergência”) para apoiar os pastores não-arianos ou casados com não-arianas, pelo regime aprovado socialmente. E por isso foram presos como insurgentes. A experiência de judeus e cristãos inconformados, contra a injustiça aparentemente aprovada pela sociedade nazista, e simpatizantes do mundo inteiro, tornam Auschwitz tão simbólica na violência contra pessoas, raças e povos, como é real para a humanidade humilhada. Enquanto cheia de dor, infâmia e vergonha. Pelo silêncio, consentimento e conivência de sociedades, de homens e mulheres, para com regimes totalitários. “E quem como eu, que não viu nada a seu lado no ofício religioso vespertino de anteontem, a não ser três jovens policiais da Gestapo — três jovens que certamente foram batizados um dia em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e que certamente juraram fidelidade ao seu Salvador na cerimônia de crisma, agora enviados para armar ciladas à comunidade de Jesus Cristo –, não esquece facilmente o ultraje à Igreja, e deseja clamar ‘Senhor, tem piedade’ de forma bem profunda”, pregava Niemöler em 1937.
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Com esses exemplos, já nos aproximamos da resposta do cristão, quando perguntado sobre essas coisas. Cuidaremos, assim, da justiça e da verdade como pilares sobre os quais construiremos a vida de fé. Segundo González Ruiz, devemos lembrar-nos de que o Deus dos Cristãos é justo, não destruindo, mas transformando o pecador e as estruturas, nas lutas pela justiça. Seria possível buscar proteção ao medo e violência existentes sem ânimo de vingança, mas com o espírito do perdão, em favor da misericórdia e da compaixão, enquanto enfrentamos os problemas de nossos dias? O olhar benevolente, mas não complacente, de Deus, através de Jesus Cristo, se manifesta sobre os homens e mulheres, de modo a fazê-los buscar a justiça sem perderem a integridade humana, a compaixão e a misericórdia, aplicadas às vítimas das estruturas de poder, da sociedade implacável e impiedosa para com os mais fracos.
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Hannah Arendt dizia: Eichmann era “simplesmente incapaz de pensar”. Ela o avaliou como “no momento em que a consciência cessara de funcionar”. Insistia na enormidade dos crimes contra a humanidade, cometidos no cotidiano, evocando sociedades modernas sem consciência da responsabilidade com doentes, famintos, pobres e miseráveis, hoje entre 2 bilhões de habitantes do planeta. Tudo isso sem falar dos milhões de refugiados, como os que pereceram nos naufrágios recentes no Mediterrâneo. E não apenas contra indivíduos que cristalizam em si, circunstancialmente, o mal de todos. *
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Lidamos com o mal, mas também somos alvos da compaixão de Deus, quando nos mostra a desarmonia da vida e da impiedade ao redor. Como afirmar a transcendência do Deus cristão, cheio de ternura pelos temerosos, ou pelas vítimas soterradas sob escombros da humanidade humilhada, perdida em suas incongruências, mas apontada para a reconstituição e recuperação no evangelho de Jesus Cristo? Outro alemão extraordinário, Lutero, poderia dizer, citando as Escrituras: “O justo viverá pela fé”.  Certamente, na justiça de Deus: “Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer”. (João 15,4).
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Derval Dasilio
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