PÁSCOA – 7º DOMINGO (ASCENSÃO DO SENHOR)  ***ANO “B” [Facebook – https://www.facebook.com/derval.dasilio/notes?pnref=lhc ]

ascensão cerezo
Atos 1,6-11- Com os olhos fitos no céu viram a Ascensão do Senhor Salmo 1 – O Senhor conhece o caminho dos que praticam a justiça 1João 5,9-13 – Testemunhamos a vida eterna João 17,6-19 – “Não peço que os tires do mundo…”
 
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Até o século IV, como atestam os testemunhos dos Pais da Igreja Antiga, Tertuliano, Hipólito, Eusébio, Atanásio, Ambrósio e outros, estas passagens são interpretadas como um acontecimento visível para os apóstolos. Porém, em conexão direta com a ressurreição. Ressurreição e Ascensão são uma só coisa, Jesus não foi revivificado nem voltou aos modelos de vida humana que possuía antes de morrer (L.Boff). Jesus foi “entronizado em Deus e constituído Senhor e Juiz do Universo”. Agora, a plenitude da vida, por causa da humanidade de Cristo, se completa. Jesus Cristo penetrou completamente na vida de Deus, sendo invisível, mas de modo algum ausente no mundo. Poderíamos ficar por aqui, pois esta concepção teológica já define a Ascensão do Senhor.
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Durante a sua vida humana, por causa das rejeições dos homens, Cristo viveu miseravelmente e foi martirizado por motivo de sua pregação, a causa do Pai. O Reino de Deus, concebe a teologia. Não teve êxito como homem (as “máfias” históricas, influentes, bem armadas, prósperas, sempre atuaram para sufocar ideias e movimentos libertários, dirigindo a animosidade popular para aqueles que se tornariam mártires, ou testemunhas, marturia, das utopias, ou da fé que liberta). Cristo, suas ideias e seus atos confirmam que ele é agora o Senhor do Universo, Senhor do Mundo e da História. Seu reinado alcança o Céu e a Terra, para sempre.
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Quem se submeterá ao reinado de Deus? Como o imaginário popular alcançará a compreensão bíblica sobre os significados do “céu” e da “terra” que estão sobre o domínio de Jesus Cristo? Somos salvos e libertados para o céu, ou para vivermos como ressuscitados, como perguntavam Paulo e os Pais da Igreja Antiga?
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Não é a toa que, quando oramos, imaginamos Cristo elevado ao céu contemplando-nos “aqui em baixo”, e vai nos ajudar a chegar até lá, de alguma maneira. Orações de poder, astrologia esotérica, magia e prestidigitação religiosa comparecem com frequência no mundo supersticioso e obscuro das igrejas e dos homens que teimam em reviver a Idade Média, sem desconsiderar a religiosidade popular dominante no Brasil. Uma espécie de “outro mundo” demarca a topografia espiritual, com igrejas, capelas, oratórios, santuários, centros espíritas, terreiros, templos, cemitérios, fazendo parte da fronteira em que vivemos. Um mundo real, concreto, e outro simbólico, espiritual e abstrato. No entanto, o céu e o inferno estão mais perto de nós do que imaginamos.
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O mundo medieval convive com a modernidade. A imagem de um inferno, como idealizado teatralmente por Dante (Divina Comédia), emerge de um universo de crenças, crendices, superstições, magia negra, onde transitariam bruxas, magos, alquimistas. Orações de poder, astrologia esotérica, prestidigitação, comparecem com frequência no mundo supersticioso e obscuro da religião, ainda hoje, sem desconsiderar a religiosidade popular dominante no Brasil.
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Ariano Suassuna descreveu essa religiosidade muito bem nos seus escritos saborosos, impressionantes, apontando a fé noutra direção, talvez como fonte secreta de sentido, quando a vida está ameaçada; quando o desamparo, a injustiça, o culto do poder, nos alcançam como força avassaladora contra todos os sentidos do bem que precisamos cultivar: “Eu creio, por uma necessidade. Se Deus não existisse, a vida seria uma aventura amaldiçoada. Eu não conseguiria conviver com essa visão amarga, dura, atormentada e sangrenta, do mundo”.
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Como se poderia calcular, como ferrenhos fundamentalistas, o fim dos tempos e classificar “quem poderá entrar no céu?” A opacidade do mundo de Deus; a impossibilidade de se enxergar a “luz divina onde Deus habita”; a falta de instrumentos para medir o tempo da eternidade, e a ausência de lentes que capacitem qualquer um de nós para tanto, são impedimentos definitivos? Não. A razão quer justificar a fé. Quando Anselmo, dos primeiros escolásticos medievais, estabelecia que “a fé requer inteligência”, fides quaerens intelectus, falava deste assunto, referia-se ao que apontava a própria Escritura: “… estejam sempre preparados a todos que vos pedirem a razão da esperança que há em vós ”(1Pd 3,15).
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Karl Barth dissertou sobre Anselmo. Agora, a fé sem inteligência, crença em tudo que a religiosidade produz, é exigida para darmos como verdadeiros os argumentos cinzentos do racionalismo fundamentalista e suas concepções pétreas? A Billy Grahan Evangelistic Association, sediada em Minneapolis, EUA, que influencia significativamente os caminhos do imperialismo norte-americano, se acha capaz de medir o céu: “o Paraíso celestial mede 1,5 mil milhas quadradas”.
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Cientistas da Universidade de Santiago de Compostela garantem também que o inferno tem a exata temperatura de 279º centígrados, embora não se possa saber como fizeram a pesquisa local, sem especulações teóricas, lembrava Eduardo Galeano. E não falta quem seja capaz de detectar e divulgar o fax ou o e-mail, ou o site de “deus”, a exemplo de israelenses fundamentalistas informatizados do Serviço de Telecomunicações de Israel.
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Necessitamos compreender melhor essas coisas. Uma linguagem de símbolos necessita de um cuidado semântico adequado (Atos 1,6-11). Cristo “subiu aos céus”, confessamos, e observaremos o plural celestial que as Escrituras apontam. Um dos céus é a fé para a qual não existe tempo (kronos) ou um espaço presente desde o início dos tempos (telos).  Deus, que a epístola indica “habita em uma luz inacessível” aos homens e mulheres desta terra (1Tm 6,16). Nós, porém, seres cerebrais, exigentes de demonstrações de conhecimento empírico, nesse momento, abandonamos a razão em favor do inexplicável e do intangível.
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Nos evangelhos, assim, Cristo, com sua ascensão, foi entronizado na esfera divina, além das estrelas, das galáxias. Muito acima do cosmo e de todas as realidades espaciais e temporais, para além do mundo físico e suas possibilidades. A fé observa o mundo de Deus apresentado como elevação espiritual, acima das corrupções e falibilidades humanas: um céu exemplar para todas as concepções sobre os céus. Trata a fé do lugar natural da justiça, da perfeição, da ubiquidade, da atemporalidade, dos espaços infinitos e imensuráveis; trata do amor, que é misericórdia, compaixão, solidariedade, cuidado com os seres que emergem da vida, para os quais não se explica a fonte lógica.
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Assim é o céu. Ali está a glória de Deus: luz, felicidade, bem-estar em todos os níveis da vida (cf. Lc 24,51; At 1,9). Junta-se à fé a esperança. Se alguém tem fé, convive com as utopias de um mundo novo possível. O céu é a utopia evangélica, lugar sonhado e desejado (utopos, utopia, devaneio cósmico). Quando proclamamos que Cristo subiu ao céu, singularizamos a pluralidade celestial do Reino de Deus, especialmente na teologia de Mateus. O evangelista sempre usa o termo “reino dos céus” para identificar o que os outros escritos apontam como “reino de Deus”.
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E João? O evangelista  pensa que o significado é “passar” para o “lugar” do Pai (Jo 16,28): “Deixo o mundo e vou ao Pai”.  Quando Jesus diz: “Recebei o Espírito Santo”, segundo sua teologia, isso significa que Cristo, o Senhor, já está no céu e de lá envia seu Espírito (Jo 7,39; 16,7).  Paulo é o mais incisivo, contudo: a chave hermenêutica não é “subir ao céu”, mas a palavra “ressurreição”, ascender das sepulturas. Ressuscitar significa sempre ser elevado em poder (força total = dynamei) para junto de Deus (Rm 1,3-4; Fl 2,9-11). Pedro retorna ao tema e diz que Jesus “subiu ao céu e está sentado à direita de Deus” (1Pd 3,22).
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Derval Dasilio
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Uma bênção anônima:“Que aquele que ressurgiu dos mortos nos faça cada vez mais firmes na esperança de toda a criação. Que aquele que nos protege do alvorecer ao anoitecer, da aurora ao crepúsculo, desde o nascer até o morrer, nos abençoe e nos dê a paz que excede o entendimento opaco do nosso viver. Que o conforto do alcance da plenitude nos permita ver além da compreensão turva da vida eterna e do céu, e que nos dê coragem para enfrentar e vencer o que não compreendemos, mas havemos de experimentar para todo o sempre. Amém” (Cf.Selah- Liturgias – Clai). 
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